Nunca pertenci ao Partido Comunista, mas às vezes, em causas comuns, frequentei o ‘‘aparelho’’ que funcionava no Edifício Mauá, onde ficava também a sede do Sindicato dos Bancários. Pois agora fui convidado para fazer uma palestra no encontro do PPS, sucessor do ‘‘partidão’’, o que não convence o Expedito, mas é aceito pelo filho, o Luis Carlos Rocha.
Solicitaram que eu descrevesse cenários políticos para os próximos anos, arte de muitos riscos como se viu com aquele gordo sinistro, o Hermann Khan, que fazia nos anos 60 previsões lúgubres para o Brasil relativas ao ano 2000 e que se mostraram desatualizadas pouco depois de conhecida a tradução do texto brasileiro, prefaciado sempre pelo vivaz Roberto Campos, como sempre badalando o colonizador e errando junto com ele.
Preocupa-me algo mais sério num partido que se assume socialista, mesmo que seja fabiano (esclareço que isso nada tem a ver com o Fábio Campana e sim com a sociedade fabiana da Inglaterra, a qual pertencia H.G. Wells) ou romântico, marxista ou ligado nos utópicos como Thomas Morus, que, semana passada, foi canonizado pelo Vaticano. Preocupação: a mística, sem a qual, um partido de bases doutrinárias não sobrevive.
Claro que é mais cômodo discutir num teatro do Senac, área do encontro do PPS, do que na estreiteza de um ‘‘aparelho’’. Este, porém, detinha a medida heróica da clandestinidade. Hoje, com a abertura e mais vivência do processo político, e sobretudo em função do trabalho do senador Roberto Freire e agora do Ciro Gomes, mais ainda o de figuras como Rubens Bueno, regionalmente, o PPS se viabilizou em todo o Brasil e ganhou capilaridade no Paraná elegendo 15 prefeitos, 30 vice-prefeitos e 219 vereadores. Para quem tinha apenas seis camaristas quatro anos passados é um feito excepcional.
Para garantir a mística é indispensável lutar pela igualdade, esta sim, conforme a lição de Norberto Bobbio, a prioridade socialista. Não se trata da retomada do mito igualitário aquele que, como diz Munhoz da Rocha, faz do homem um integrante do rebanho, em que visto um estavam vistos todos. Qualquer avanço como o da ‘‘discriminação positiva’’, essa que se faz em defesa dos deficientes no mercado de trabalho em percentuais pré-estabelecidos, é uma dessas evidências. A existência de aparatos urbanos para que eles possam se deslocar nas ruas é outra e assim por diante. E assim também as gradativas inserções das minorias e dos excluídos, estes maioria absoluta, e ainda a incorporação de lutas como a da defesa do consumidor, da ecologia, a briga contra a tendência moderna, via globalização, da precarização do trabalho acoplada ao arrocho salarial. Enfim há muito o que fazer especialmente no campo da participação e do esforço para humanizar o poder.
AFORÍSTICO
O PPS pode ainda não ter chegado ao poder, mas já conta até com uma representação forte no Graciosa Country Club, em Curitiba, cujos campos de golf jamais haverá de encarar como um latifúndio improdutivo
BIZARRICE O ‘‘Hora H News’’ fez pesquisa, semana passada, para medir o pulso dos paranaenses na sucessão presidencial e deu Lerner com 31%, Alvaro e Requião com 10% cada e 49% nenhum. É um começo. Desconfio, cá entre nós, que essa votação é do pessoal do Palácio que votava no ‘‘Ovo, Neles’’ em cima do Requião, mas acabou enfrentando os requianistas que botaram Lerner no ranking.
AXIOMA Candidatos eleitos serão diplomados dia 20. Para alguns vereadores será o primeiro diploma. Observação do anarco-ambientalista Elísio Marques. ‘‘Enquanto isso’’ – observa ele – ‘‘naquela nação atrasada ao norte do Rio Grande, o presidente eleito ainda não foi proclamado. Deve ser porque lá não existe marmelada eleitoral.’’
GLOSA Até quando a Assembléia Legislativa vai funcionar como poder autônomo? Primeiro foi a marajice da Sanepar e agora a abertura da ‘‘caixa-preta’’ dos Jogos Mundiais da Safadeza. De repente, nesse pique, se não houver cautelas dissuasórias, cassam Lerner e Emília e entregam a rapadura para o Hermas Brandão que perdeu a eleição em Andirá para o Kaneko, do PPS, apesar de aliado a Janene e outros mais .
EPIGRAMA José Domingos Scarpelini, ex-deputado estadual e ex-prefeito de Apucarana, é um legionário de causas como a ecologia e o antitabagismo. Neste ele chegava a arrancar dos lábios do fumante o cigarro abominado. Pois ontem ele trouxe mudas de jacarandá só para mostrar que a Folha se equivocara ao confundi-los com o ipê-roxo, cuja floração encerra seu ciclo antes de iniciar a do ipê-amarelo.
Do ‘‘Scarpa’’ há coisas sensacionais, uma delas a mania de ver poder de cura no sangue das carpas, algo que faz parte da medicina popular do interior. Pois o João Saldanha, o criador das ‘‘feras’’ que ganharam a Copa em 1970, estava na casa do Anfrísio Siqueira em Curitiba e com uma crise terrível de enfisema. Sabedor da terapia pelo sangue da carpa, o João se dispôs ao teste e o José Scarpelini pescou duas das caturras (a capim, a cabeçuda, a húngara não existiam), extraiu-lhes o sangue e o João Sem-Medo disse ter melhorado, após bebê-lo com boa dose de esperança.
SPRAY O governador Jaime Lerner vai precisar, e muito, dos serviços do Rafael Greca na melhora de imagem. Tanto que ontem os deputados aprovaram um pedido de devassa nas contas, até hoje mais secretas do que a Pedra da Roseta e o Nó Górdio, dos Jogos Mundiais da Natureza. - Como já havia o precedente para neutralizar a farra salarial na Sanepar, o pacote de surpresas deve prosseguir amanhã com uma investigação em profundidade, proposta pelos deputados Algaci Túlio e Ricardo Chab, para ver se as concessionárias do pedágio estão afinal cumprindo os termos contratuais. Há a convicção de que apenas burlam, e o objetivo é saber como andam as coisas. - Nesse passo só falta agora, para levar o Palácio Iguaçu ao desespero, reabrir a CPI do caso Copel-Sercomtel.
FOLCLORE A demolição simbólica do edifício do Fórum pela Ordem dos Advogados do Brasil, seção estadual, realizada ontem com foguetório, também sugerindo pelo ruído uma implosão, só não foi mais brilhante por não ter contado com as artes do fogueteiro-mor da campanha de Cassio Taniguchi, o Gerson Guelmann.
CROMO A lesma se arrasta com o visgo prateado no chão e olha, invejosa, para o caracol que carrega o domicílio às costas.

mockup