Luiz Geraldo Mazza
A eleição de Curitiba deste ano relembrou em muitos aspectos a de 1985, em que Roberto Requião venceu Lerner por menos de 19 mil votos. Considerada a escala de hoje, maior quadro eleitoral, é possível que a disputa de agora, até pelo fato de ter-se dado em dois turnos, foi mais dura.
Até nas queixas a situação é parecida: em 85 o PDT montou barracas na Boca Maldita para abaixo-assinados contra os resultados da eleição que consideravam fraudada. Diziam que mais de 50 mil pessoas do interior foram trazidas à capital pela Secretaria de Transportes, à época dirigida por Deni Schwartz, em mais de mil ônibus coordenados pelo famoso DSTC, aquele que regula e fiscaliza as concessões, para boca-de-urna e, mais grave, que muitos deles chegaram, inclusive, a votar.
Pois agora o Ângelo Vanhoni, candidato derrotado do PT, afirma que cerca de mil ônibus trazendo núcleos de Educação e Saúde, com dezenas de funcionários, devidamente paramentados, vieram a Curitiba em transgressão aberta à lei que impede transporte de eleitores. Foi o suficiente para que os palacianos reagissem à entrevista concedida à Rádio CBN-Curitiba. Vanhoni afirma não ter provas concretas, mas indícios veementes dessa deturpação. A coligação pediu na Justiça não apenas a recontagem de votos, palhaçada evidentemente valorizada com o vexame dos States, como a impugnação de Cassio Taniguchi e o processamento exemplar por fraude eleitoral.
Na verdade, os dois lados provocaram o tipo de migração ora condenado. Se uma verificação detalhada for feita descobrir-se-á uma legião de eleitores do ABCD paulista, de cidades catarinenses e outras do interior do Paraná que cerravam fileiras em torno da chapa encabeçada pelo petista. Os abusos se compensaram em todos os campos e, como não temos ainda vivência cívica suficiente para adotar o fair play nas derrotas, percebe-se que ao PT faltou mesmo aquele mínimo de agresssividade para discordar do modelo manipulado ideologicamente em Curitiba e que o candidato oposicionista chegou a elogiar para se situar bem com uma visão estratificada da propaganda. Criou uma contradição no seu discurso por essa falha oportunista e deveria obrigatoriamente agora fazer o indispensável ato de purgação autocrítico.
AFORÍSTICO
FHC recuperou mais 5 pontos nas pesquisas. Se houver isso com o governo paranaense é a prova de que o milagre é possível
BIZARRICE O governador está convencido de que o seu problema é de imagem. Acha pouco o que está no Ministério Público e na CPI das Drogas. Conclusão: indo nessa direção, ele não evitará que a sua passagem no Palácio Iguaçu passe a ser considerada como a mais desastrosa dos últimos cinquenta anos. Outra coisa: ninguém revoga a realidade com marketing e essa lição elementar não foi, pelo jeito, assimilada.
AXIOMA O Paraná está de tal forma por baixo em relação aos catarinenses que não aparece sequer como contribuinte relevante do caixa de campanha de FHC. O empresário Mário Petrelli, catarinense paranizado (ligações de família e negócios na terra), é aludido nas reportagens sobre o assunto, aliás negado com veemência pelo ex-secretário Eduardo Jorge.
GLOSA Para evitar ser decapitado, Antonio Belinati mostrou que sabe usar a cabeça: desligou-se, em caráter irrevogável, do PFL. E nada mais disse e nem lhe foi perguntado que pudesse esquentar a cabeça dos seus algozes que nada têm de indiferentes ao quadro sombrio de Londrina e da aplicação até aqui esotérica do dinheiro mal ganho e mal gasto da venda de ações do Sercomtel.
EPIGRAMA Dizem que há jornais que você espreme e sai sangue. Da nossa Folha e nisso há uma certa redundância porque o papel é originário também da transformação vegetal temos seiva, clorofila, musgo, líquen. Este formado pela íntima associação de uma alga verde ou azul com um fungo superior. Quem sabe esteja aí o caminho para obter mais oxigênio para todos.
SPRAY Se a eleição da OAB-Paraná fosse no mesmo ritmo da havida no Clube Curitibano, até porque é obrigatória, seria um ganho da democracia, mas a montagem de chapa única é algo inaceitável no momento brasileiro. - Afinal, não é possível que tenham sido removidos os fatores conflituais das duas últimas eleições como se todas as razões da disputa houvessem se harmonizado num mesmo estuário. - Até a demonstração de ontem da implosão simbólica do Fórum é mais uma concessão ao espetáculo do que algo que possa resolver o problema grave da falta de infra-estrutura judiciária, acolhida em instalações improvisadas e que constrangem como o caso da área cível confinada no prédio do Montepar, chamado criticamente de Idi Amin ou Máscara Negra. - A reivindicação de colocar as áreas atuais do Presídio do Ahú para localização do Fórum conflita com a compulsão leiloeira deste governo de fazer dinheiro a qualquer custo com a venda do Banestado, da Copel e também da Sanepar. - Vai haver eleições na subseção de Curitiba e outras nove cidades. A de Curitiba, onde o grupo vitorioso na regional perdeu, será alvo da mais importante disputa. - Há quem defenda a manutenção do Fórum (uma agressão à linha arquitetônica do Centro Cívico) como expressão do descaso dos poderes, de um modo geral, sobre o patrimônio público. - Havia órgãos tanto no Executivo como no Judiciário encarregados de fazer o acompanhamento da obra, isso sem falar no Legislativo que conta com seu corolário, o Tribunal de Contas. - Apesar da gravidade das denúncias feitas pelo ex-dirigente do Decom Luiz Henrique Bonaturra, quanto às irregularidades havidas com a obra, nada se apurou. - Outro detalhe: o Centro Cívico não tem como deveria um Plano Diretor. Tanto que o governador como o prefeito desprezaram os dispositivos que consideravam a área e seu entorno intocáveis, como preservação artística e cultural, e a transformaram em algo assemelhado a um zôo ou campo de concentração.
FOLCLORE Tentar a renovação miraculosa deste governo é como esperar que alguém da terceira idade possa andar por aí como se fosse um grunge. Imaginem, só para exercício de abstração, os gordos com o bonezinho com a aba para trás.
CROMO O bêbado o sono perdido no jardim tem o corpo coberto de pétalas azuis-violetas do jacarandá luminoso.





