Luiz Geraldo Mazza
O fenômeno biológico da cissiparidade, aquele que se dá, por exemplo, com os cogumelos também ocorre no processo político. Ele marcou, sob o ponto de vista da ocupação territorial, o ciclo do café que gerou uma reforma agrária, de verdade, que nada tem a ver com a demagogia emocional, ainda que justa, do MST e se expandiu no desdobramento das cidades, dos patrimônios, dos distritos. Eram as celebradas e decantadas por sociólogos e geógrafos cidades-cogumelo e que operaram mais no norte novo e novíssimo do que no pioneiro.
Pois bem: isso se dá igualmente com as lideranças políticas. Assim foi com Bento Munhoz da Rocha que lançou a figura de Ney Braga, seu ex-cunhado, e deste em relação a Paulo Pimentel. Cada uma das criaturas sempre foi cobrada como se devesse permanente fidelidade ao criador. Na política, os fatos são dinâmicos. No Rio de Janeiro, o criador, César Maia, teve que derrotar a criatura, Luis Paulo Conde. Aqui, Ney teve que derrotar Bento, em 1965, para eleger Paulo Pimentel que havia sido um criativo secretário de Agricultura, eficiente e festivo e que recriou a mística da pecuária.
Estamos diante da possibilidade de isso ocorrer entre Cassio Taniguchi, o prefeito reeleito de Curitiba, e o seu criador Jaime Lerner, a quem sempre serviu com extrema lealdade. A circunstância que marcou o pleito demonstrou, e isso de forma clara, que Lerner o contaminara com o lado negro, lamacento, de sua gestão em aspectos pontuais como o do crime organizado que cruzou as malhas da legalidade com as do delito em co-gestão ou parceria, isso para usar um termo comum do jargão oficial, e ainda a roubalheira do Banestado.
Cassio, logo depois de eleito, fez um apropriado discurso de autocrítica sobre o PFL no sentido de que se livrasse do seu ruralismo e do dado feudal para credenciar-se a buscar o apoio popular. Na verdade nem todo o PFL é assim. Afinal o vice-presidente Marco Maciel é um empolgado com a doutrina do liberal-socialismo, contemporânea do Manifesto Comunista de Marx e Engels. E há outros como o próprio Conde e Roberto Magalhães que estão longe de uma linha conservadora autoritária como a do grupo majoritário, incluindo ACM.
Do PFL o melhor candidato para o governo, sem inconveniências como as de imagem toldada como a de Rafael Greca ou a de Alceni Guerra por sua ausência de punch, embora a ousadia na deflagração da reforma do secretariado, é, visivelmente, o prefeito reeleito de Curitiba. Além de unir domínio técnico ao da política (e deu para percebê-lo no esvaziamento sofrido pela equipe de Lerner quando ele deixou o secretariado, após haver tomado as decisões mais fortes relativas à construção do novo perfil da economia), Cassio é uma figura reciclada, melhorada.
Se Marta Suplicy em São Paulo é a candidata natural ao governo estadual, aqui também se dá ao mesmo. E lá há mais risco do que aqui de um candidato alijado do segundo turno derrotá-la com o tucano Alckmin.
REFUNDAÇÃO O PPS foi uma das mais surpreendentes novidades da esquerda nativa, graças à atuação do senador Roberto Freire e a inserção de Ciro Gomes como o elemento-chave, de expressão nacional, para proselitismo. Deveria decalcar, o quanto possível, o partido da refundação socialista, que substituiria o Partido Comunista, o maior do Ocidente, da Itália. Não é bem assim, tanto que aqui penetrou fundo nos domínios dos socialites. De qualquer forma está bem situado no Paraná, cresceu muito nas eleições e tem no deputado Rubens Bueno um nome credenciado para a sucessão.
Amanhã e depois, no Teatro Sesc da Esquina, fica em frente do restaurante do Eduardo Requião, haverá, pela manhã e tarde, curso de atualização em gestão municipal. A abertura é do senador Roberto Freire que analisa a terceira via do século XXI. O ator Stepan Nercessian fala num painel sobre arte, cidadania e poder local.
AMEAÇA O PFL está programando a degola de Antonio Belinati. Quando ele era interessante por seu populismo, a cúpula do partido veio ao Paraná para prestigiar o seu ingresso em ato festivo em Londrina. Depois daquelas ocorrências sombrias, que devem obviamente ter beneficiado grupos no governo, virou uma figura maldita e esperam fazer de sua expulsão um ato de solene depuração.
Segundo versões palacianas (aliás o clima está adequado por causa das entradas e saídas de novos aspones), a vice-governadora Emília Belinati teria feito um delicado, como sempre, alertamento no sentido de que da mesma forma que não está satisfeita com a formatação do secretariado, para o qual outra vez não foi ouvida, não permaneceria calada com a solenidade programada para faturar a saída do seu marido. Do conflito nasce a verdade, diz a dialética.
REAÇÃO As reações ao mandonismo familiar do PMDB, formuladas pelo deputado federal Gustavo Fruet e pelo ex-deputado Luis Cláudio Romanelli, servem à democracia interna do partido, mas não demovem o senador Roberto Requião, a despeito das derrotas eleitorais, especialmente a de Curitiba, de sua pretensão hegemônica. Tanto que para provar vitalidade marcou o encontro de Foz do Iguaçu, no qual pretende lançar-se candidato à sucessão de Lerner.
Perfis assemelhados em política: Requião, Álvaro Dias e Rafael Greca.
UM ZOO O secretário da Integração Regional, Mário Edson Fisher, antes de ser cogitado para o primeiro escalão, teve uma passagem no comando do Zoológico do Iguaçu. Como se vê as coisas concatenam: Lerner, antes de fazer reflexões sobre o novo secretariado, esteve descansando na Ilha das Cobras e agora, para um posto importante, chama alguém que entende de todas as faunas. E tem todas as condições técnicas para repetir aquele conceito clássico de administração que reza cada macaco em seu galho e o sábio significado da afirmativa de que em rio que tem piranha jacaré nada de costas.
Há, ainda, uma outra razão para essas afinidades: o Palácio Iguaçu está hoje isolado por alambrados como se fosse um animal perigoso. E como é, todos sabem e vão sentir no lombo com o reajuste do pedágio nas férias.





