Estamos, outra vez, numa safra de greves e num momento em que elas se tornam objetivamente um risco para sindicatos e trabalhadores. Terceirizados da Sanepar (aquela que adora mordomias para os chefes), bancários (a do Banespa foi momentaneamente suspensa), funcionários das prefeituras de Ponta Grossa e de Colorado, petroleiros. O couro esticou demais e não é mais possível, apesar das pressões dos monitores do FMI, segurar os salários. Nem a dramatização feita em cima do reajuste do salário mínimo para R$ 180, menos de US$ 100, impede a mobilização.
Ocorre que aos privilegiados tudo se concede como o auxílio-moradia a juízes, promotores, pessoal do Tribunal de Contas, isso sem falar em aumentos autorizados por tribunais superiores. Aqui os delegados de polícia, alegando uma improvável isonomia, também querem. Quem mama, cuida, como se pode dizer parodiando o recado da campanha de Cassio Taniguchi.
Metalúrgicos, pressionados pelo estrangulamento do mercado (tecnologias cada vez mais sofisticadas e poupadoras de mão-de-obra, aumento de vagas no mercado e com baixas expressivas na remuneração) fizeram suas greves, unindo as duas maiores centrais sindicais. Às vezes uma greve ajuda a acelerar o diálogo e é possível que a ameaça dos bancários e petroleiros renda melhor oferta.
Classicamente, a greve não é uma petição inicial. Tanto que sindicalistas usam um eufemismo para ficar ao abrigo da lei no ‘‘indicativo de greve’’ e passam a negociar com a espada de Dâmocles sobre a cabeça dos patrões. Só que estes, até há pouco, se mostravam cheios de razão diante da asfixia do mercado. Agora isso mudou radicalmente: há um convencimento da sociedade que o engessamento do salário não pode mais continuar. E não pode mesmo.
O neoliberalismo e a precarização do trabalho numa ordem em que a especulação a tudo se sobrepõe fazem do capital, não mais aquele que cristalizava o resultado do esforço do trabalhador, o bem maior. Antes, seja como fator básico do sistema produtivo ou na ordem moral, o trabalho era a prioridade. Tanto que foi o fundamento de todas as utopias, do socialismo em suas variadas formas e até do capitalismo popular e do anarquismo. Ele renasce neste momento no apelo inevitável e necessário à greve.
BIZARRICE
No Contestado, o Paraná levou um banho de Santa Catarina. Assim mesmo nosso orgulho era lembrar que tínhamos sido a 5ª Comarca de São Paulo e estávamos em marcha batida para mais autonomia. Politicamente hoje somos uma colônia de Santa Catarina, graças à dinastia lerneriana
AXIOMA Curitiba precisava aprender mais com o norte paranaense ante o caso das mobilizações da sociedade civil em Londrina e Maringá. Nos dois casos a pressão viabilizou o processo de ‘‘impeachment’’. Tivéssemos igual disposição o próximo reajuste do pedágio serviria de pontapé inicial.
GLOSA Um assessor de imprensa do Coritiba tem horror do Carlos Alberto Pessoa, (que moeu a prodigalidade burocrática do clube em artigo de jornal), mas gosta do Fernando Pessoa, o poeta, ligado em heterônimos. O dele, vejam só, é Morgana, nome da irmã e companheira do Rei Arthur.
EPIGRAMA O Incra sempre foi uma instituição minada mais a favor dos sem-terra do que em linha moderadora ou de crítica. Basta lembrar a presidência daquele ex-dirigente da Confederação dos Trabalhadores Rurais (Contag) que no governo populista de Sarney inspirou aquele ato primata declarando todo o município de Londrina de ‘‘utilidade pública’’ para fins de desapropriação.
SPRAY Quando se esperava que as disputas em torno do comando administrativo do Hospital do Câncer, centro de excelência científico e um dos estuários da filantropia paranaense, cessassem tudo volta ao marco zero, já que o Ministério Público quer aprofundar investigações e auditorias. - Há uma parte de jogo de vaidades pessoais na disputa, recheada, porém, de denúncias que colocam em risco a imagem da instituição até na parte relativa ao destino das doações. - A diretoria obteve liminar para se manter no posto e existe a denúncia de que a organização estaria obtendo empréstimo bancário em cima da hipoteca do complexo hospitalar. - Um conflito pode gerar a verdade, mas em descompensação também provocar danos irreparáveis na imagem da instituição que é um símbolo de competência e de ação social. - A reforma do secretariado saiu sem o interesse manifesto dos deputados da base aliada, que mais uma vez não foram consultados e nem aproveitados. A ida de Ingo Hubert para a Fazenda é a visível intenção de acelerar a privatização da Copel, caso que ainda vai render problemas políticos ao governo, já que é esperada reação. - Sacrificados os pontos de maior atrito como Gionédis (que ‘‘trombou’’ com todo mundo), Hitoshi Nakamura (que gerou problemas insolúveis como os do Parque da Barragem) e também a secretária Alcyone Saliba, eficientíssima, que se desgastou com os atritos quase diários com os sindicalistas do professorado. - Não houve, de forma alguma, o esperado ‘‘enxugamento’’ secretarial, apesar de decididas algumas incorporações e fusões. - Há um esforço de racionalização na criação das quatro coordenadorias que supervisionarão setores específicos do governo. Aí há figuras fortes como as de Alex Beltrão e Miguel Salomão, que dominam bem funções de coordenadoria e planejamento. - PT sai às ruas, retornando ao Calçadão em carreata para agradecer a votação recebida. Elegância não faz mal a ninguém. Era preciso que a militância e simpatizantes de ocasião mantivessem as decalcomanias nos automóveis para não dar a impressão de encabulamento.
FOLCLORE Tanto insistiram, tanto pressionaram, tanto deblateraram e tanto se esguelaram que finalmente, para espanto da maioria, Jaime Lerner acabou, de fato, assumindo o governo, ou ao menos pretextando fazê-lo, seis anos depois de haver despistado.
CROMO Minha neta Fernanda, com iluminuras nos olhos, realizou um dos seus sonhos adolescentes: viu, bem de perto, os Hansons, em São Paulo.
AFORÍSTICO Agora vai? Vai: vendem primeiro a Copel, depois a Sanepar. Tirem, por favor, o olho guloso da Catedral Basílica Metropolitana.

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