Da herança de Lerner haverá algumas boas como a liberação do ICMS represado das montadoras e demais beneficiárias dos incentivos fiscais e talvez de um novo cenário na economia, fortalecido de um lado pela menor dependência da agricultura e adensamento do setor de serviços. Das más, entre elas os órgãos pilhados como o Banestado, a que mais perdurará porque o contrato de concessão é de um quarto de século será a das rodovias pedagiadas, ainda mais se os consórcios continuarem fazendo maquiagem e fingindo que constroem. Será uma tatuagem permanente do ciclo lerneriano.
Apesar das queixas de usuários no sentido de que as concessionárias enganam e que as condições operacionais são ruins, sabe-se que teremos reajuste dessas abomináveis tarifas, justamente em cima das movimentações de férias, e que elas podem chegar a um parâmetro intolerável de 20%. O pedágio, da maneira como é praticado no Paraná, é um assalto. Grande parte da malha não tem pista dupla, o que por si só revela o absurdo da tolerância.
Já na campanha eleitoral do primeiro mandato, o governador ficou brincando com um papel branco em que rabiscava o mapa do Paraná a pretexto de instalar os tais anéis de integração. Quando se candidatou ao segundo mandato Lerner lançou um novo estilo de ‘‘Ferreirinha’’: cortou pela metade as tarifas para garantir-se no Palácio Iguaçu e, em seguida, confirmando que praticara um estelionato eleitoral, permitiu que a cobrança chegasse a 140%, claro que aí argumentando que tal decisão seria da Justiça.
Nada se esclarece sobre planilhas de custo e estudos atuariais e tal como se dá no transporte coletivo urbano de Curitiba tudo fica submetido ao regime da ‘‘caixa-preta’’ (os ônibus da capital subiram 150% desde o Plano Real, o que está muitos furos acima da inflação do período e até hoje ninguém respondeu os questionamentos feitos), aplicado nos Jogos Mundiais da Safadeza, nos tormentosos lances do Banestado e na rotina, enfim, de uma prática de poder que a todos constrange. As empresas fazem a propaganda virtual para sugerir que cumprem as suas obrigações contratuais, mas como até agora inexiste a agência reguladora e fiscalizadora elas deitam e rolam. A segunda pista em Mauá da Serra, agora retomada, foi um exemplo de encenação.
O governo afronta o povo e pode ser surpreendido com respostas duras e até atos de insubordinação civil, a linguagem possível e a expressão de liberdade ajustada a formas de coação intoleráveis.
BIZARRICE
O maniqueísmo é uma das formas mais primitivas de raciocínio: o MST, por exemplo, acusa os que o criticam de pretenderem ‘‘criminalizá-lo’’ e, de outro lado, tenta passar a idéia de que ele é o ‘‘bem’’ e os que têm as terras invadidas o ‘‘mal’’. O obscurantismo não está neles, mas nos outros. É uma pena que o mais importante movimento social do País esteja atado a esse fundamentalismo arcaico

AXIOMA Agora um jornal como a ‘‘Folha de S.Paulo’’ aceitar ser ciceroniado pelo Incra em apoio logístico para fazer matérias sobre a cobrança de ‘‘dízimo’’ em assentamentos é de arrepiar por ferir regras elementares da grande imprensa quanto ao fato de deixar-se engajar numa causa do interesse de um estamento burocrático.
A imprensa moderna é incompatível até com o nosso pecado venial da
‘‘boca-livre’’ patrocinada pelos figurões políticos e empresariais. Em nosso caso há a desculpa da mixaria dos salários e acanhamento das empresas. Assim mesmo pode até desculpar, mas constrange.
GLOSA Quando Onaireves Moura, presidente da FPF, depuser na CPI do Senado sobre o futebol o senador Alvaro Dias terá a elegância de afastar-se da presidência, uma vez que tem problemas, até processuais, com o depoente?
EPIGRAMA Campanha eleitoral terminada há dois problemas: como administrar saldos de campanha (lembram do PC Farias?) ou como atender restos a pagar?
MÁXIMA O Paraná tinha a bronca histórica de ser comarca de São Paulo. Agora ele o é, politicamente pelo menos, de Santa Catarina. Lerner vive sempre atrás do Bornhausen. Nós merecemos.
No futebol os catarinenses não emplacam a primeira divisão no campeonato nacional e nós temos chances de botar três. Para descompensar em política nos arrastamos na terceira divisão sem esperança de progresso.
SPRAY O amplo esclarecimento do caso Sercomtel-Copel é uma questão de honra, assunto inegociável. Esse o ponto de vista das áreas não comprometidas de Londrina sobre o assunto e que vão encontrar no novo prefeito Nedson Micheletti um aliado especial. - Não dá para aceitar a crise de Londrina, visível nos déficit mensal de R$ 3 milhões, quando não se consegue apurar o destino das centenas de milhões que o município recebeu e dissipou. - É mais uma herança da base aliada de Lerner que se juntará a outros fatos como os ligados ao relatório final da CPI do Crime Organizado (a federal, é claro, a quente), as auditorias e denúncias sobre o Banestado. - O deputado estadual Ribas Carli ficou vários dias no Banco Central procurando dominar a questão das CC5, caso da lavagem de Foz do Iguaçu. E foi à reunião da CPI estadual, acompanhado de um técnico do Banco Central, para atuar nesse campo. - Onaireves Moura será o segundo presidente de federação, depois de Eduardo Farah (SP), a ser ouvido na CPI do futebol. - Galeria de retratos a óleo de professores falecidos da Faculdade de Direito (federal) foi inaugurada ontem.
FOLCLORE Fala-se por aí, à boca pequena, que entrou muito dinheiro de Santa Catarina no segundo turno da campanha de Taniguchi. Vejam como as coisas mudam: quando da eleição do peemedebista Paulo Afonso Vieira ao governo o fluxo foi inverso, uma vez que o dinheiro daqui acabou drenado pra lá. É a prova de que o Paraná murcha para valer e perde o comando das ações.
CROMO Na escama do peixe, o menino descobre Nossa Senhora contra a luz.
AFORÍSTICO Jota Carlos, que fazia quadrinhas para a Rádio CBN e neste jornal, está ‘‘encantado’’. Hoje, 19h30, é a missa de sétimo dia na Igreja do Cristo Rei. Respirando por aparelhos, fazia suas charges com alegria e humor sobre a política e os costumes e elas o ajudavam a suportar o peso dos sofrimentos.

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