No momento em que o governador Jaime Lerner começa, o que surpreende, a tomar decisões políticas, algumas heróicas como a da saída de Giovani Gionédis, pinta um urubu em sua sorte: o Superior Tribunal de Justiça (STJ) acaba de autorizar a devassa da ‘‘caixa-preta’’ da Renault, o que havia sido negado pelo Tribunal de Justiça do Paraná. Muita gente criticava os senadores do Paraná na cerrada insistência com que pretendiam se inteirar da natureza dos protocolos das montadoras que pareciam mais carregados de mistério do que aqueles dos sábios do Sião. Estavam certos em vista das concessões públicas feitas à quase estatal francesa e que eram protegidas como se guardassem segredos nucleares.
A ação dos oposicionistas – PT, PMDB e PC do B – surte agora os seus efeitos e se ela saísse umas semanas antes seria um problema a mais no curso da campanha eleitoral porque permitiria radiografia completa em torno do tema, inclusive nos lances obscuros de transações com terras para a instalação dessas unidades automotivas, isso sem falar na forma como se deu a inserção societária do governo, via Fundo de Desenvolvimento Econômico. Aos poucos a sociedade – e com os ingredientes emocionais apropriados ao calendário eleitoral – saberia, em detalhes, o custo-benefício dessa decisão, fora do cacarejar oficial, promocional como sempre, e que lembra posologia de remédio em que se destacam os fundamentos terapêuticos e se subestimam os riscos dos efeitos colaterais e de toda a forma de choque anafilático, daqueles que podem levar à morte.
Assim, pois, no momento em que Lerner se dispunha a alavancar um novo ciclo no seu governo, hoje com um cronograma afunilado, surgem as primeiras sombras que se tornarão ainda mais espessas quando vierem, em detalhes, à luz do dia o que há no Ministério Público a respeito das patifarias do Banestado, ônus do qual não há como se livrar, apesar da tradicional amnésia do público.
Todos estão lembrados que o senador Roberto Requião acabou obtendo esses documentos e com sua habitual ‘‘discrição’’ armou um escândalo. Isso, no entanto, recicla o tema e permite a reanálise de todo o processo. Matéria vencida também acaba gerando desgaste, como se verá, principalmente se detalhes como o das transas imobiliárias forem detidamente analisados.
BIZARRICE
Muito mais lenta do que a reforma do secretariado de Lerner é, sem sombra de dúvida, a apuração do processo eleitoral norte-americano. Perde até do nosso Piauí
AXIOMA Não há o efeito Orloff no futebol: o Coritiba de hoje é o Atlético Paranaense de ontem, bagunçado, comido pela burocracia e com os passes de jogadores presos nas mãos de diretores e com essa ‘‘belíssima’’ posição no campeonato nacional que todos conhecem.
GLOSA ‘‘Estou com 23 anos e já está na hora de ter a minha casinha.’’ Argumento de um dos invasores do Tatuquara numa reportagem da CBN-Curitiba dá bem a medida da picaretagem e selvageria dessas ocupações. Só faltou pedir o auxílio-moradia e argumentar, aí com toda razão, que também é filho de Deus.
EPIGRAMA Se as incorporações no Brasil se derem como a do Mercadorama em relação ao Grupo Sonae, com a piora radical dos serviços antes prestados, estamos completamente fritos num processo de colonização às avessas.
FÉ DEMAIS Petistas viram com grande interesse a recontagem dos votos na Flórida na eleição presidencial dos States como um indicador de que estão certos em pedir a mesma coisa aqui junto ao TRE. Dá para perceber aí que o realismo pode levar, por via tortuosa, à realeza.
MODELO O livro do professor de História da Federal, Denisson de Oliveira, que discute ‘‘Curitiba e o mito da cidade modelo’’ foi, de certa forma, abordado, anos passados, por este jornal, então Folha de Londrina, em reportagens muito sensíveis da jornalista Teresa Martins. Já naquele estudo de mestrado na USP, ora ampliado com a publicação da Editora UFPR, o autor mostrava a vinculação estreitíssima do poder capitalista local, clientela privilegiada, nas decisões aqui tomadas. Desmistificava, inclusive e muito bem, a propalada capacidade de geração de empregos da Cidade Industrial, fixada no parâmetro absurdo de 400 mil. Denisson mostra que mais decidiram os empresários do que a badalada ‘‘inteligenzia’’ de arquitetos e urbanistas.
Há pouca bibliografia crítica em torno do assunto e um deles é da arquiteta Fernanda Sanchez Garcia intitulado ‘‘A Cidade Espetáculo’’. Tive o prazer de fazer a ‘‘orelha’’ desta obra e a do Jorge Samek em cima de igual temática.
MÁXIMA O Brasil é incrível. Comove-se com o fato de a Seleção Brasileira estar dependente da Nike e despreza-se o fato de sermos uma colônia do FMI. Nem pensar em CPI para um assunto desses.
SPRAY Enquanto tece a reforma do secretariado, em ritmo inferior ao de uma aranha, mais hábil na tarefa, o governador se impacienta com o fechamento das folhas de novembro e dezembro do funcionalismo e mais o 13º que dificilmente sairia este ano. - Novas missões em andamento a Brasília para tentar liberar o governo daqueles R$ 400 milhões em ações caucionadas da Copel (estaria no disparo uma ‘‘anistia’’ para a questão dos precatórios, em que pese o acúmulo de fraudes) foram desencadeadas, mas a idéia de convocar o presidente Ingo Hubert da Copel para assumir a pasta fazendária e comandar o leilão da nossa principal empresa está vinculada ao propósito de levantar dinheiro para acertar, o mais breve possível, o pagamento da gratificação natalina e um acerto nas contas. - Há complicadores: a pressão dos prefeitos do Brasil para a moratória da Lei de Responsabilidade Fiscal e obtenção de megaempréstimo para quebrar o galho e mais os aumentos do Judiciário, dos militares, a questão do salário mínimo – tudo isso funciona como obstáculo diante do olhar severo e duro dos monitores do FMI.
FOLCLORE Quando Al Gore era senador veio ao Paraná e Requião lhe deu um chá de banco na sala de espera de mais de uma hora. Com o imperialismo só podemos ter vitórias alegóricas. Depois, como vice-presidente, Gore voltou para jogadas ecológicas lá em Guaraqueçaba.
CROMO Quem viu uma ‘‘chuva’’ de pinhões – como os frutos se desprendem da pinha numa simetria vegetal – sabe o que é o poema natural.
AFORÍSTICO Em agência do HSBC em Ponta Grossa botaram na conta de um pequeno correntista R$ 90 bilhões. Matéria para o ‘‘Fantástico’’.

mockup