Luiz Geraldo Mazza
Um dos riscos dessa anunciada reforma secretarial de Jaime Lerner é o de vermos repetida a sentença-clichê de que a montanha pariu um rato. Essa gestão padece de problemas congênitos, que dispensam exame de DNA, conquanto se trate obviamente de questão genética.
Não há como reformá-la, mesmo com o emprego de cirurgia heróica, na qual se utilizasse pela vez primeira do transplante de cérebro ao da alma. Afinal tudo de mal que poderia ser feito já aconteceu e a cota é bem maior do que a dos possíveis benefícios: ninguém, em todo o País, deixou-se levar pelo receituário neoliberal, sem adoção de salvaguardas, como ele. Seu plano de industrialização se fundou em renúncia fiscal, em ingresso até societário com a aquisição de ações, articulação para oferta de áreas e na fantasia de um fomento no mercado de trabalho que se sabia desde o início que não haveria.
Enquanto o que era nominalmente paranaense e brasileiro era arrastado nos processos de fusões e aquisições (a Eletrolux, por exemplo, valendo-se de um patrimônio da Refripar que se constituíra num esforço interno da poupança, via Codepar e Badep; a Parmalat absorvendo uma expressão de um modelo interno de cooperativismo dos holandeses, a Batavo) e perdemos, também neste ciclo, duas organizações que eram referências para o fomento, no caso o Bamerindus e agora o Banestado, este como aquele repetindo praticamente um ato de doação.
Um estadista, ou que tenha um mínimo de porte nessa direção, não deixaria o processo desenvolver-se de forma espontânea e perniciosa ao povo como o ato ofensivo que está na instituição do pedágio nas estradas que, como no da
BR-277, sentido praias, como todos viram no feriadão, é um acinte feudal porque só cuida de arrecadar em troca de pura maquiage. Nada mais feudal do que uma concessão como essa em que o poder público, à custa do imposto que todos pagaram, entrega o direito de exploração de uma estrada já construída e paga como se fosse um desses mata-burro de fazenda em que a servidão de passagem é cobrada do usuário.
Ao contrário da música popular não temos a figura poética do menino da porteira que nos dá passagem, mas a máquina de moer carne da praça de pedágio, esta sim admiravelmente construída, como a benfeitoria prioritária. Diante desses problemas, o que poderia fazer um novo secretariado, ainda que alterado parcial ou totalmente, se não empurrar as coisas com a barriga nesses dezoito meses de gestão, mais próximos da congestão e da indigestão?
BIZARRICE
Em momentos tempestuosos, ninguém como o Rubinho Ferreira para sacar lances espirituosos. Ele dizia, ontem, que Lerner já tem o novo secretariado, mas só o revelará quando Giovani Gionédis o autorizar
AXIOMA O empresário Maurício Frischmann disse ontem na Rádio CBN-Curitiba que a falência da capital é também no sentido espiritual: tanto a Catedral Basílica Metropolitana como a Sinagoga estão cercadas por motéis e pensões na exploração do lenocínio e quem forneceu os alvarás foi o governo municipal. O que, convenhamos, está longe de ser um modelo.
GLOSA Há duas invasões em Curitiba e numa delas o repórter Marcos Tozzi ouviu de uma das sem-teto a declaração de que ela quer ser gente. Se todos quiserem ser gente desse jeito haverá o caos na cidade, pelo qual muitos batalham, consciente ou inconscientemente.
EPIGRAMA Ilusão política é pensarmos que as eleições municipais definiram um novo quadro brasileiro quando a de hoje, nos States, é mais relevante. Vivemos sob tutela ianque e hoje mais do que nunca porque não temos sequer o cenário da Guerra Fria que ainda permitia flexibilidade de movimentos e a encenação de posturas de não alinhamento como quando JK deu as costas ao FMI.
SPRAY A formalização de uma rede com os veículos impressos e eletrônicos dos empresários Cunha Pereira e Edmundo Lemanski denominada Rede Paranaense de Comunicação (RPC), com logomarca assemelhada à da RBS, dos Sirotski do Rio Grande do Sul soou internamente como um desejo de manutenção de autonomia. - Depois das especulações de que com a venda da Net, dos Sirotski, para a Globo a cota do Grupo Roberto Marinho, de 50%, poderia ser transferida aos gaúchos como parte do pagamento essa foi a primeira resposta forte da organização local, valendo-se das homenagens dos 40 anos da Rede Paranaense de Televisão. - Da mesma forma o Grupo Paulo Pimentel, que detém a licença de retransmissão da SBT, pode ganhar injeção de recursos com o ingresso de Sílvio Santos como sócio na base de 30 ou 40%. - O importante é manter, o quanto possível, no quadro globalizante, uma certa e necessária tonalidade de poder regional, o que se acentua como necessidade cultural e psicossocial num momento em que nos desbraliseiramos e nos desparanizamos com o decantado novo perfil da nossa economia e que nos retira, cada vez mais, poder decisório. E o que é pior, induzido pelo Estado através de estímulos e incentivos não concedidos na mesma escala aos empresários caturras. - Uma co-gestão entre a RPC e a RBS, claramente possível, nos deixaria com uma capitis diminutio (redução de capacidade), pois aquela organização já domina dois estados no Sul, o Rio Grande e Santa Catarina. - Estamos perdendo tanto a nossa identidade que mal refletimos sobre essa questão logística e geopolítica. Mas isso tem que ser enfrentado com inteligência e racionalidade e não chamando os empresários de alienígenas, como já aconteceu numa de suas incursões, em pronunciamento do sindicato patronal. O Paraná tem mais gente de fora na origem do que daqui e não custa lembrar que Paulo Pimentel abriu o ciclo moderno de governantes que vieram do interior e de outros estados como José Richa e Alvaro Dias. - Quem deu condição a Pimentel de comandar uma importante rede de comunicação foi uma sociedade de paranaenses tradicionais (Aristides Mehri, Fernando Camargo e José Luis Guerra Rego), que se organizou para apoiar, anos 50, o governo Munhoz da Rocha.
FOLCLORE Se Winston Churchil demorasse para tomar uma decisão na Segunda Guerra como Lerner para reformar o seu secretariado, a Inglaterra dançaria.
CROMO Na estrada de Palmeira-Irati há mais loiras padrão Xuxa do que árvores da erva-mate.
AFORÍSTICO Eleição ianque vai ser decidida como a de Curitiba no foto-chart.





