Abordei aqui a circunstância de até a família ter ficado dividida em relação ao pleito municipal. Citei o caso do Mário Faraco, pai, que recomendou votos para Cassio Taniguchi e do seu filho, ex-reitor da Universidade Federal, que assinou manifesto em favor de Ângelo Vanhoni.
Nas minhas rodas de amizade, a paixão era tanta que afetava o tom das conversas de bar e de calçada. O otimismo da oposição era exagerado como também a auto-suficiência do governo. Preferi, no sábado, que precedia a eleição, ir pescar a tolerar o ambiente carregado do Calçadão com as pessoas no limiar da apoplexia.
Uma de minhas filhas, a Grace, que também é jornalista, entrou na onda da oposição, votando no Vanhoni. Eu, minha mulher, filhos, o grupo restante da família, votamos no Cassio. Cada um com o seu motivo: o meu por achar que o prefeito reeleito, até pelo susto que o eleitor provocou no sistema, é a única pessoa capaz de renovar métodos, procedimentos e alavancar uma etapa nova, não apenas na gestão da cidade, como também um dos derradeiros em condições de disputar a governança em 2002.
Os candidatos já perfilados para o governo são os mesmos de sempre: Roberto Requião, que já foi testado, e Alvaro Dias, idem. Dos quatro, os dois candidatos que disputaram o segundo turno são mais aptos, como proposta e estilo, ao que se pode divisar como hipótese de renovação.
Minha filha deixou uma cartinha em que se percebe o quanto foi magnetizada pela disputa: ‘‘Parece que o povo acordou de um longo sono e tomou consciência de que para haver mudança é preciso ir à luta. E assim foi: a sociedade se mobilizou nesse segundo turno, buscando informações, lendo, discutindo, trocando idéias.’’
Depois de destacar que nunca se respirou tanta política, ela lamentou a derrota, mas se sentiu com esperança renovada: ‘‘Porque na minha cidade de pedra e acrílico existem flores, árvores, borboletas e gente.’’
Antes um divisor desses do que o experimentado em 1954, quando vivia discutindo com meu pai, getulista convicto (se ele visse a série da Globo iria exorcizá-la), por causa da crise nacional: depois de um ‘‘pega’’ na hora do café, dia 24 de agosto, com papai me dirigi para a Faculdade de Direito e no caminho ouvi o alto-falante anunciar o suicídio do presidente. Apesar de minha pulsão pelos agitos, que se seguiriam, fui para casa consolar o velho, como quem se sente com remorsos pelas posições assumidas.
Por doloridas que sejam as divisões em casa, elas mais nos aproximam do que nos afastam. Minha filha acha que a cidade já ficou mais gente, o que, no seu entender, é a marcha para a mudança.
LACERDICES
O orador medíocre quis se meter a enfrentar Carlos Lacerda que fazia um pronunciamento vulcânico da tribuna parlamentar. O aparteante disse: ‘‘Vossa Excelência é um purgante’’ ao que o jornalista replicou: ‘‘E Vossa Excelência é o efeito!’’ Frasista excepcional e dotado de capacidade para o repente, uma ocasião, ao ser comparado a Sherlock Holmes de tanto tratar de temas policiais e de investigações, virou-se na direção do aparteante e em tom teatral replicou: ‘‘Elementar, meu caro Watson!’’ Aliás há gravações radiofônicas de Carlos Lacerda interpretando textos de Shakespeare, uma delas, excepcional, em ‘‘Júlio Cesar’’
NOSTALGIA Como não correr o risco de ‘‘idealizar o passado’’ quando lembramos que na bancada federal do Paraná já tivemos Munhoz da Rocha, o maior de todos, Arthur Santos, Munhoz de Mello, Accioly Filho e constatamos a precariedade da representação atual, na qual apenas um, sob o ponto de vista do rigor intelectual, pode ser citado na figura de Gustavo Fruet. O último grande orador que tivemos foi Norton Macedo.
Pode-se dizer que hoje não há mais espaço para a grandiloquência e que temos deputados eficientes como despachantes. Alguns deles tão apegados nas causas dos prefeitos que chegam a ser chamados de vereadores federais, o que não é ofensa e até conserva algum mérito.
IMPONDERÁVEL Como saber o peso específico de certas contribuições numa campanha eleitoral é uma equação insolúvel. Rafael Greca, fazendo blague, disse que deve ter obtido uns 30 mil votos para Taniguchi no corpo a corpo nas esquinas, brigando com o padre da igreja Perpétuo Socorro. Outros atribuem ao publicitário Groff uma ação decisiva com o esquete do agito no interior de um ônibus caricaturando o assembleísmo petista.
A todos que esquecem o caráter de mutirão, coletivo, de uma campanha basta lembrar a história da formiguinha no lombo do elefante, que, ao olhar para trás, sugere que ambos, ela e o primo do mamute, estavam fazendo aquela poeira danada que praticamente fechava a estrada.
CHOQUE Uma declaração que deu o que falar foi a de Antonio Belinati, prefeito cassado de Londrina, de que deve disputar a sucessão de Nedson Micheleti. Uns a interpretaram como a certeza absoluta da impunidade, pois a própria Câmara Municipal praticamente encerrou as investigações ao não dar continuidade ao exame da venda de ações da Sercomtel para a Copel. Ocorre que a Câmara se renovou em escala apreciável e que ao prefeito eleito não haverá outra opção que não a de aprofundar a devassa, mal iniciada, no assunto que pode ser a causa eficiente do déficit mensal de R$ 3 milhões nas contas de Londrina.
O prefeito, com a moral dos votos recebidos, pode convocar a sociedade para voltar ao legítimo exercício de pressão para apurar os demandos. O governo Lerner não permitiu que a CPI, já instalada, na Assembléia Legislativa viesse a operar. Talvez esteja aí a convicção de que Belinati não terá problemas e isso motiva o movimento da sociedade (OAB, Igrejas, Maçonaria etc) a nova incursão em cima do assunto.
Se assim agir, Londrina voltará a ser a mais politizada das nossas cidades. Curitiba tem muito a apreender com ela, mas para tanto é preciso que acertos como os da Câmara Municipal nas trocas de vantagens (três automóveis por vereador, tantos assessores) sejam deixados de lado.
MOTOQUEIROS Nossos magistrados são muito atualizados. Disputam torneios nacionais de futebol suíço e nesses dias (de 3 à data de hoje) fazem o 1º Encontro Nacional de Juízes Motociclistas aqui em Curitiba.
Os desembargadores Luis e Ruy Fernando de Oliveira, irmãos, integravam o conjunto ‘‘Os calouros do ritmo’’ e o desembargador Clotário Portugal é também excelente intérprete da MPB.

mockup