A chance de mudar o secretariado o governador a tem todos os dias quando não está viajando, o que nada há de incomum. Abriram-lhe a oportunidade, porque esperar que o fizesse seria atípico, para um remanejamento geral na máquina adiposa que o assessora e, daqui até segunda-feira, gastará muito fosfato com esse objetivo.
Em primeiro lugar é indispensável, até para manter a atmosfera de sobriedade, imposta pelo ajuste fiscal, que adote um corte cirúrgico nas secretarias, o que é incompatível, já que não se entende a existência de quase 30 pastas. Mas a maior parte das designações nada tem de vinculação a fator político e sim ao campo da afetividade, dos amigos, dos quais, posteriormente, mesmo quando erram, como se deu com o presidente da Leasing, não sabe se descartar.
Uma das pessoas mais difíceis de serem removidas seria o secretário da Fazenda, Giovani Gionédis. Ele é a marca deste período de governo quer por eventuais méritos (aumento da arrecadação, apesar da situação financeira próxima do caos ou ainda o ritual adotado para ‘‘vender’’ o Banestado) ou pelos defeitos (concentração extrema de poderes, volta e meia substituindo o próprio governador e antecipando pontos de vistas; isso sem falar na série de denúncias que pesam contra o principal secretário, inclusive a de beneficiar-se de situações em favor do escritório jurídico da família).
A situação de penúria do caixa – suplício de Tântalo cada fechamento mensal da folha do funcionalismo – só na metade do ano que vem terá encaminhamento com a liberação do ICMS represado das empresas que se instalaram no seu primeiro período de governo no Paraná. Esses ingressos no tesouro irão, pouco a pouco, revelando uma reversão de expectativas na parte financeira. Se, em função dessa nova realidade, o governador procurasse, nesses dois últimos anos, corrigir o quadro negativo com maior ofensiva política e administrativa e com ações nacionais criar-se-ia uma situação que poderia até qualificá-lo como um agente importante na sucessão nacional.
Os feitos da economia – o possível deslanche do novo modelo, agora com respaldo nos seus efeitos fiscais – poderiam ganhar expressão nacional e, dessa forma, qualificar Jaime Lerner como interlocutor-chave do PFL. O difícil é fazer com que o governador tome iniciativas. Tanto que até essa da reforma do secretariado saiu por obra e graça do chefe da Casa Civil, Alceni Guerra.
BIZARRICE
Para fugir dos venenos palacianos, Lerner foi descansar na Ilha das Cobras. Pelo menos buscou alegoricamente o antídoto correto. Saiu diretamente do Butantan palaciano...
AXIOMA A privatização das ferrovias no Paraná trouxe resultados negativos, posto que o Ministério dos Transportes diga o contrário. Levar comboios com excesso de carga, tombá-los em trajetos com sinais de degradação na via permanente são constantes. A TV Paranaense, em reportagem-documentário, mostrou, em detalhes, sinais agudos dessa deficiência.
O tombamento de vagões na Serra do Mar, atribuído pela concessionária ao maquinista, foi por este contestado, alegando falta de previsão da empresa e excesso de carga.
GLOSA Antonio Belinati, prefeito cassado de Londrina, afirmou, dias atrás, que é candidato à sucessão de Nedson Micheleti. Se este se valer da nova Câmara Municipal, agora com correlação de forças bem modificada, pode reabrir todo o processo da venda das ações da Sercomtel e conter o sonho de Belinati. Com um detalhe: haveria respingos em cima da vice-governadora.
EPIGRAMA Baixaria de última hora é comum também na eleição dos States: apareceu agora uma prova de que Bush já foi preso por dirigir bebum. O americano comum é sensível a essas transgressões. Dá para imaginar como reagiriam se o nível de corrupção fosse semelhante ao nosso.
SPRAY Num momento em que o Paraná entra em aberta competição com São Paulo para atrair indústrias, é surpreendente verificar que no front político vamos mal ao ponto de dependermos do catarinense Bornhausen para marcar passo.- O dirigente pefelista ajudou a liberar empréstimos que eram bloqueados pelos senadores e segurou, o quanto deu, o Rafael Greca no Ministério.- Roberto Requião, senador, lança a sua candidatura ao governo estadual em 2002 no dia 24 deste mês, em Foz do Iguaçu, num encontro dos prefeitos eleitos. Tenta sair na frente até para evitar que o PT, animado com os feitos eleitorais, o faça com maior rapidez.- Requião age como se não tivesse sofrido derrotas no pleito municipal em Maringá, com Sílvio Name Júnior; em Londrina, com Luiz Eduardo Cheida; em Curitiba, com o irmão Maurício que, com a conduta ‘‘hard’’, pegou apenas 10% do eleitorado.- Tenta sair na frente, igualmente, de Alvaro Dias, que busca o calor dos holofotes na CPI do futebol, o que já lhe custou alguns dissabores nas agressões primárias, covardes, do deputado federal Eurico Miranda.- Caso de Maringá – os desdobramentos do episódio Paolicchi – vai atingir o governo e a oposição. Algumas pessoas citadas começam a declarar que desejam (será?) que se vá fundo nas investigações como se nada temessem.- Integrantes da Guarda Municipal acusam a gestão de Cassio Taniguchi de haver promovido o mais intenso dos sucateamentos da instituição. O efetivo é de 300 componentes, no máximo 400. E transformaram agentes de segurança, zeladores, guardas quando não fizeram o curso. Acusam, também, a Polícia Militar de fazer lobby contra, mesmo que a unidade conste do Programa Nacional de Segurança em todo o País.- Tribunais de Contas de todo o Brasil estão sob o crivo de uma pesquisa da Universidade do Rio Janeiro, que analisou nepotismo e, mais do que isso, falta de vontade política para cumprir o seu papel institucional.-
FOLCLORE Quando o deputado federal Eurico Miranda quis degradar a figura do senador Alvaro Dias, que pretende convocá-lo nem que seja debaixo de vara, um dos seus assessores alertou: ‘‘como o aterro sanitário, essa cartolagem também tem chorume e foi com isso que tentaram atingi-lo.’’
CROMO Uma ilha dourada na paisagem urbana: o resistente ipê amarelo florido.
AFORÍSTICO Fazer em menos de dois anos o que deixou de ser feito em seis é a queima de etapas perseguida por lerneristas. A dificuldade é o governador.