Luiz Geraldo Mazza
De novo o Hospital de Clínicas do Paraná está sob o foco do Tribunal de Contas da União. Já esteve antes com estórias cabeludas de reutilização de marcapassos cardiológicos e que davam um tom meio Frankestein no relato do reitor que entrava, o primeiro da eleição direta, contra o que tinha deixado o posto e que saíra sob uma saraivada de acusações. Só faltava fazer um filme documental sobre o assunto na ótica do Zé do Caixão.
O risco que se corre, com o fluir desse tipo de notícia, é muito semelhante aqueles da Globo sobre obras públicas abandonadas, alimentos deteriorados em silos e armazens, enfim que geram indignação e tudo fica na mesma, o que apenas gera um brutal sentimento de impotência nos telespectadores. Mais grave ainda quando as informações são incompletas e levam a juízo errôneo.
Precisamos proteger as nossas referências simbólicas e uma delas é o Hospital de Clínicas, centro de excelência, uma das poucas áreas que exaltam o nosso desenvolvimento científico. Minado pelo risco do sucateamento, como se dá com tudo que é público neste País, e pelas greves dos seus servidores e que também geram frustrações por sua inutilidade, uma vez que as demandas, por mais singelas, acabam não atendidas, o HC é também uma expressão da fragilidade das nossas lideranças por ser um dos poucos hospitais-escola, cujo pagamento do pessoal não é procedido pela União. E olha que tivemos, de 64 para cá, vários ministros de Educação (Flávio Suplicy de Lacerda, Ney Braga, Euro Brandão) e da Saúde (Aramis Athayde nos anos 50, Borges da Silveira e Alceni Guerra) e não acertamos nem isso e muito menos a federalização de qualquer das nossas universidades estaduais.
Ainda recentemente, o HC ganhou destaque pela circunstância de o jogador Narciso, do Santos, ter feito aqui o transplante de medula. Como poderá até, na sequência da novela Laços de Família, ser apontado como o local para a cirurgia da personagem Camila, portadora de leucemia. No real, como no virtual, o HC pode e deve ser referido. As causas do seu drama continuam as mesmas: não tem recursos porque lhe negam as concessões de outros centros e isso se deve à nossa baixa representatividade, falta de punch, visível até nesse esforço que a própria comunidade, através dos amigos do hospital-escola, busca, na base da criatividade e filantropia, contornar os seus problemas.
O pior é que as diligências do TCU se dão justamente no setor que o destaca: o da unidade de transplantes. Sugere-se que há prioridade para atendimento dos 20% de leitos de particulares. E essa contingência, se é que existe nos níveis em que é colocada, resulta da mesma fonte já aludida: ausência de recursos que a União lhe deveria fornecer por isonomia de tratamento. O transplante de que carecemos na classe política é o de sensibilidade e energia. Nossos governos têm sido caudatários e cúmplices de situações como essas.
BIZARRICE
Houve tanto erro nas pesquisas de primeiro turno que os críticos diziam tratar-se de um datafalha
AXIOMA O ceguinho vira-se para o guia que o conduziu a Caiobá: Você me iludiu ao dizer que me levaria ao litoral e me deixou aqui na foz do Rio Belém no encontro com o Iguaçu. O cheiro não me engana.
GLOSA Governador, vamos esquecer, por minutos, dessa estória da reforma do secretariado. Tomemos um café. O senhor o deseja com açúcar ou adoçante?
- Será que tudo, mais tudo mesmo, preciso decidir?
EPIGRAMA A série global Aquarela do Brasil está deixando remanescentes do getulismo apavorados. Nunca se fez acusação tão candente e direta do caráter fascista do Estado Novo com o uso da tortura, assassinato e desaparecimentos como rotina e com um detalhe: o regime duro fazia com que a Polícia política superasse em hierarquia o próprio Exército. Algo que em certa medida se deu com o recente regime militar no acobertamento aos abusos do DOI-Codi. Vargas entregou aos alemães, como todos sabem, Olga, a mulher de Luiz Carlos Prestes que morreu num campo de concentração.
SILOGISMO Novamente, ponto facultativo na sexta-feira útil. Sei, dia 1º (de Todos os Santos), dia 2 (Finados) e dia 3 dos mortos vivos. Mais uma do Elísio Marques que espera para logo a recontagem dos votos em Curitiba e o bloqueio da diplomação e da posse de Taniguchi.
SPRAY O andamento da reforma secretarial tem a cara e o estilo do governo Lerner: hesita em reduzir o número de pastas, a que se obrigaria por imposição da Lei de Responsabilidade Fiscal, para ter mais espaço para acomodações. - Em primeiro lugar, não foi ele quem deu o pontapé inicial da reforma e sim o seu chefe da Casa Civil, Alceni Guerra. Na sequência assumiu as operações. - Muitos se acreditam imexíveis por causa das suas ligações históricas e orgânicas com o governador. - Um desses é Giovani Gionédis, da Fazenda, que saiu bastante fortalecido com o encaminhamento do leilão do Banestado e que tem sido sempre um negociador na antecipação dos royalties de Itaipu e do caucionamento das ações da Copel. - Mas há quem deseje substituí-lo exatamente por causa desse papel que se tornaria consular novamente na venda da maior estatal. - Há até uma briga de bastidores e diz-se que o grupo anti-Gionédis é o Likud, nome da direita israelense, como se aqui existisse a esquerda trabalhista. - Pinta no Ministério Público estadual mais denúncia sobre acrobacias no Banestado. Esse material vai ser explosivo nas mãos da oposição. Pega várias figuras do atual governo. - Maurício Requião revigorou, esta semana, a denúncia contra Cassio Taniguchi que teria cometido crime fiscal no INSS. Quase no final do primeiro turno, ele levou o fato à Justiça, esperando que isso pudesse até implicar na impugnação do ganhador, mas o juiz pediu parecer do Ministério Público.
FOLCLORE O Canal 12, da Globo, quer mostrar eficiência com o helicóptero e a imagem do fluxo na BR-277 nunca o favorece. O áudio pode ficar em contraponto ao vídeo se a apresentadora ou a repórter disserem que o movimento é grande. Algo assim como o Galvão Bueno quando narra um jogo do Brasil com unção patriótica e que nada tem a ver com o que se assiste.
CROMO Na linguagem floral, o lírio lembrava o seu braço em queda.
AFORÍSTICO Se para mudar o secretariado demoramos tanto, imaginem o que duraria para mudar costumes.





