Especialista em desmanche, o governo paranaense já leiloou o Banestado e se prepara, com afinco e compulsão, para vender a Copel e a Sanepar, que começou a alienar aos poucos, vendendo suas ações ou caucionando-as para dar respaldo à gastança incontrolável. Agora anuncia o desmanche da equipe, aliás hipertrofiada e por isso mesmo incompatível com a nova cultura que se pretende introduzir no País com a nova Lei de Responsabilidade Fiscal. Para que afinal 29 secretarias, coisa típica do barroquismo dos subdesenvolvidos em que o sujeito que transforma folha de bananeira em abano, leque improvisado, agrada o monarca por tentar livrá-lo do excesso de calor. Aliás esse tipo de auxiliar prestimoso sobra neste reino bufo.
Especula-se que Lerner se credenciou à condição de ‘‘presidenciável’’ por ser o único peefelista que venceu o PT nessas eleições. Na verdade, quem venceu foi Cassio Taniguchi que precisou o tempo todo manter o barco à tona em que figuras como as do governador e do ex-ministro Rafael Greca pesavam o suficiente para afundá-lo. Há quem acredite que a vitória no primeiro turno só não saiu porque tiveram a inspiração, nos últimos dias de pregação, de botar o governador na telinha. É claro que elegante como é, o jornalista Wianey Pinheiro jamais o afirmaria e saiu-se até com uma explicação bastante didática para não forçar a presença de Lerner a de não parecer uma ‘‘sombra’’, um tutor, como se dava com Alvaro Dias ante Forte Netto e Roberto Requião com o segundo mano, o Maurício, o bravo.
Esse delírio presidencial é de um açodamento a toda prova. Ainda nem se fez um levantamento rigoroso tanto das derrotas internas de Jaime Lerner como do desempenho do PFL em escala nacional para que se chegue a raciocínio apurado. Já a idéia de um enxugamento de dois terços dessa nebulosa de secretarias, aliás poucas com brilho de primeira grandeza, não é má. O problema é esperar que um indeciso como Lerner toque isso com propriedade. Pode até chegar ao feito excepcional de tornar a equipe pior do que é.
BIZARRICE
Ontem foi Dia de Todos os Santos. E pelas práticas do governo que temos dá pra botar na lista São Moisés Lupion
AXIOMA Querem saber a diferença entre as praias dos catarinenses e as nossas? Simples: vejam o teleférico de Camboriú e o de Matinhos. É por aí.
GLOSA A Urbs já deu o sinal de que o aumento das tarifas de ônibus sai em fevereiro por causa do dissídio dos trabalhadores. Se até lá o povo continuar sob arrocho salarial, vai ter o direito de partir para a ignorância. Atenção: resistência civil é mais uma bandeira de liberais do que de socialistas. Lembro de um: Thoreau.
EPIGRAMA Exemplo de petismo encabulado: a retirada brusca dos decalques de Ângelo Vanhoni de mais de 70% dos carros que os ostentavam.
SILOGISMO Pelo jeito, de tanto que o procuram para reuniões oficiais e com os resultados que conhecemos, esse tal de ‘‘Chapéu Pensador’’ tem o QI de uma abóbora.
SPRAY A coligação oposicionista que apoiou Vanhoni está na dúvida se pede ou não a recontagem dos votos e uma ação cautelar para impedir a posse de Cassio Taniguchi. - O argumento contrário decorre do fato de que já existe um pedido de impugnação da chapa oficial por prática de crimes eleitorais, embora seja muito complexo prová-las materialmente e ainda o repeteco de infrações já examinadas pela Justiça como aquele caso da adjudicação de licitações para a Executive, firma de Cassio e Marina Taniguchi, quando no IPPUC e Urbs. - As oposições pretendem, por força da arregimentação havida no segundo turno, partir para as ações de rua em defesa da ética na administração e contra o avanço desenfreado no patrimônio público. - Uma das mobilizações será para defender a Copel e uma da peças da campanha é aquele depoimento de Aníbal Khury, gravado em vídeo, a cópia-matriz está com Sílvio Sebastiani, contando que Lerner lhe jurou que preferia a morte a privatizar aquela estatal. - Há o entendimento comum nas forças contrárias ao governo que é indispensável, após o pleito, acumular o máximo de energia para evitar que o poder se oxigenasse, como acentuou Cassio Taniguchi em autocrítica. - Manifestações de rua e junto aos postos de cobrança de pedágio deverão ser frequentes no ano que vem antes do período de safra eleitoral, em 2002. - Todos os estamentos públicos, não apenas os professores (e aí entram Polícias Civil e Militar), serão apoiados com passeatas e, se possível, ocupação de prédios públicos. Obviamente, tudo o que vier do MST será potencializado. - O novo século vai cobrar os abusos do final do anterior. - Ocorre que estão previstas algumas vitórias para o lado do governo: feitos na exportação das montadoras, ganhos em nacionalização, dreno dos primeiros resultados fiscais da dilação do ICMS, isso sem falar na melhora estrutural esperada no conjunto da economia. Por isso a oposição pode até optar por um caminho radical. - Se Lerner for cogitado para a chapa do PFL a bancada senatorial vai deitar e rolar com as denúncias de tudo o que houve no Banestado e outros lances de fraude e corrupção. - A idéia do governador era tentar fazer dos dois anos restantes o momento da depuração do mau desempenho ao longo dos seis últimos anos. Uma queima de etapas, mais incrementada do que aquela sua vitória dos doze dias em 1988, três depois de apanhar de Requião.
FOLCLORE O sistema ferroviário do Paraná pode estar uma droga depois da chamada privatização. Mas o governador Jaime Lerner se mantém disposto a botar nos trilhos o trem da alegria de cupinchas em cargos de adjuntos de conselheiros para o Tribunal de Contas, uma festa de nababos e de marajás em plena vigência da Lei de Responsabilidade Fiscal.
CROMO Odor de flores e espermaceti: um descuidado romeiro do cemitério surfa nos restos das velas que ornam a cruz das almas.
AFORÍSTICO Nem sempre o fermento garante a qualidade do bolo e do pão. Basta ver a fermentação, inútil e inócua, de ontem no Palácio Iguaçu.