Luiz Geraldo Mazza
Como se tivesse tomado pelo espírito de Aníbal Khury, o Nelson Justus, que o substituiu na Assembléia Legislativa, embora sem o mesmo tempo de serviço e, sobretudo talento, restabelece a discussão sobre a reforma do secretariado de Lerner e falando numa velharia, como se tivesse sabor de novidade, de que é preciso mais políticos do que técnicos. Lerner e Cassio, o governador e o prefeito, são tidos no jargão primário desse tipo de crítica na condição de técnicos, o que desde logo ressalta a falseta da analogia.
É uma rematada idiotice estabelecer dicotomia rígida nessa matéria. Ninguém mais político do que Delfim Netto, sempre olhado como tecnocrata. Que unção teria o político e que especificidade o qualificaria para que tal condição se impusesse como prioritária em critérios de seleção?
Nada mais primário do que a advertência que o Nelson Justus fez a um senador, Roberto Freire, que visitava o Legislativo ao tentar censurá-lo previamente para que não falasse de política. Recebeu o troco na hora e com a densidade de um parlamentar experiente, espantado com a incabível colocação. Percebe-se por aí que a conceituação do que é política para o presidente da Assembléia agride o bom senso mais elementar. Não está, não apenas por isso, em condições de opinar sobre o assunto que não tem a singeleza imaginada.
Quando há eleições, como essas municipais, aos governantes cabe, antes de tudo, a avaliação detida dos resultados para deles extrair lições e inclusive, se for o caso, mudar o quadro de auxiliares. Os derrotados nesse pleito foram os políticos, já que se tratou de um embate que visualiza o poder local e, portanto, os mais próximos do eleitor. Um governo que não apresenta candidato em Cascavel, que perde nos principais colégios e que encontra compensação na vitória, estreitíssima, de Curitiba, não tem parâmetro para agir, pois ficou claro que apareceu, ao lado dos senadores do Paraná, como outro grande perdedor. A troca, portanto, deveria ser do governador, mas como o seu substituto é Dona Emília Belinati, tangida pelos episódios miasmáticos de Londrina, gera-se um impasse difícil de contornar.
BIZARRICE
O time do governo se preparava para viajar do estresse eleitoral: Cancún, Europa, Estados Unidos da América. De repente, como aqueles avisos de bomba em repartições públicas, chegou a notícia de que as oposições pediriam recontagem de votos e anulação do pleito de Curitiba. Bastou a especulação para que entrasse água no chope
AXIOMA Quando Cassio Taniguchi disse que o PFL precisava oxigenar-se muitos levaram a coisa ao pé da letra e faltou água oxigenada (e a tintura) nas farmácias e laboratórios.
GLOSA Muita gente queria ver o delegado Noronha na cadeia e ele, mostrando que não está nem aí com o deputado Padre Roque, lançou uma nova campanha em favor da sua classe: o auxílio-moradia. Alega que a medida foi concedida a juízes, promotores e Tribunal de Contas, e que os delegados têm direito à isonomia. Como os procuradores de Estado podem entrar nessa, já que existe simetria de tratamento, dá para imaginar a confusão, ainda mais num governo que não sabe sequer como fechar a folha de pagamento do mês.
EPIGRAMA Fique bem claro: se as tarifas dos ônibus subirem, como o PT havia denunciado e o PFL contestou, é hora da resistência civil. Depois da fraude do pedágio, que no meio da campanha foi cortado em 50% e após o pleito subiu, não dá para pagar mais esse vale. A reação é necessária e pedagógica.
SPRAY A vitória eleitoral em Curitiba, que teria reacendido a possibilidade de Lerner aparecer na sucessão nacional (na perspectiva dos áulicos, é claro), não foi suficiente para sugerir que a base aliada tenha mantido a hegemonia. - O PFL ganhou 84 prefeituras, o PMDB 81, o PSDB 96, o PT 10. Mas até agora não se fez um levantamento em número de votos. - Afinal, dos dez municípios que o PT ganhou, além da votação de Curitiba (1º turno), há alguns fortíssimos como Londrina, Maringá e Ponta Grossa. - Quando Lerner estava no PDT ele detinha 111 prefeituras, o que dá bem a medida da queda de prestígio na simples mudança de sigla. - Nacionalmente, os números desmentem um pouco a euforia em torno da maré vermelha do PT: obteve pouco menos de 12 milhões de votos contra 13,5 milhões do PSDB, o mais votado; 13,2 milhões do PMDB (elegeu 1.257 prefeitos); 12,9 milhões do PFL (1.028 prefeituras); 6,8 milhões do PPB e 5,8 milhões do PTB. - Total de votos da base do governo: 52,3 milhões de votos. Oposições: 25,3 milhões de votos. - Logisticamente a oposição cresceu com PT, PDT, PSB, PPS por causa das cidades metropolitanas e de médio porte, mas está longe de poder ser confrontada em números massivos com os aliados de FHC. - Há poucas seções regionais no PMDB com a postura do Paraná, a maioria é oficialista. - É preciso fazer os cálculos para saber o quanto murchou o situacionismo no interior apesar das vitórias de Apucarana e Arapongas, por exemplo. - O coronel Honório Bortolini pode comandar a Guarda Municipal de Foz do Iguaçu na nova gestão de Sâmis da Silva. - Depósitos judiciais, hoje entregues ao Banestado, podem passar para o Banco do Brasil como aconteceu quando da greve dos magistrados. - Em Londrina e Maringá, mais do que em Ponta Grossa, há possibilidade de um núcleo de transição operar entre a administração atual e a futura, apesar das situações constrangedoras geradas pelos casos de corrupção. - Nas duas cidades os novos prefeitos se verão obrigados a um amplo relato da situação dramática em que se encontram e que exigem auditoria nas contas. Nedson Micheletti se verá bloqueado se não tiver aquele esclarecimento (caso Sercomtel-Copel, raiz de tudo) que os camaristas atuais negaram e que a nova composição permitiria.
FOLCLORE Anunciavam ontem insistentemente que haveria mexida no governo. Está aí um tipo de mexida que não agride tanto como a exercida em cima do patrimônio público. Vide Banestado, já leiloado, e mais Copel e Sanepar na fila do arremate.
CROMO No azul-violeta dos jacarandás recomponho o olhar de Paul Garfunkel que tanto os celebrou na transfiguração da paisagem.
AFORÍSTICO Governos como o de Lerner precisam mais de sectários do que de secretários e dos mais ardorosos como os áulicos e bajuladores.





