O Jamil Nakad, autor dos melhores bordões da campanha eleitoral em Curitiba, revelou-se profético ao dizer ‘‘chega dos mesmos!’’. É que isso claramente servia para os dois lados, governo e oposição. Porque se é verdade que a dinastia ganhou mais uma vez, o que só por um paradoxo pode ser uma forma de renovação, é de concordar-se que também a oposição no Paraná é a mesmice com uma vocação forte para a derrota, como se viu na aliança da bancada senatorial e outros de sempre: Requião, Alvaro, Osmar e a sua constelação, cada vez mais estreita, de seguidores.
Se não é bom para a democracia haver a permanência, durante longo tempo, no poder, também não lhe concede apoio a oposição que se repete e nem se reveza. Claro que há exemplos históricos como o de Mitterrand na França, a que muitos se referem como uma fatalidade que perseguirá o líder Lula. Só que fazer um confronto de potencialidade entre um e outro dá bem a medida do nosso atraso.
Ouvi, de mais de um cientista político, se é que efetivamente os temos, essa sentença, já transfigurada em axioma, de que o Brasil não escapa de Lula. Até empresários, buscando salvar os dedos e permitindo a perda dos anéis, têm igualmente batucado a nota monótona: o País precisa ser testado com Lula. Nesse vaticínio não vai a carga de empatia que muitos imaginam, mas, sim, a certeza de que toda a utopia (será que ela realmente existe, depois de tantas e seguidas demonstrações de pragmatismo?) da esquerda basista será, de forma inexorável, desmistificada.
O fato é que o PT cresceu em áreas em que não florescia, centros urbanos da maior expressão, o que não deixa de constituir-se em apoio logístico de traço relevante. Se apanharmos os números do primeiro turno (são os que efetivamente valem porque pleito polarizado se funda em frentes) verificaremos que os partidos da base aliada (PMDB, PFL, PSDB, PTB, PPB), somados, ganharam, com larga vantagem, dos segmentos oposicionistas. Em relação ao PT é algo em torno de 13 milhões contra 70 milhões de votos.
Há uma linha nítida de centro-esquerda em desenvolvimento e que penetra as falanges do situacionismo (no PMDB, especialmente, e no PSDB essa identidade ficou marcante no apoio fulminante a Marta em São Paulo) e que poderia, num caso de polarização nacional em torno de programas, até vencer a eleição. Esse é um raciocínio teórico, em cima de hipóteses epistemológicas, doutrinárias.
O Brasil que sai do pleito é menos reacionário, mais aberto ao aprofundamento da democracia e de certa forma ao socialismo em suas múltiplas formas menos radicais, mas a rigidez de múmia favorece o sistema. Este aposta na melhora, o que já vem ocorrendo, da economia e da credibilidade de FHC para entrar em campo com a juventude de uma atleta que acaba de sair da sauna.
BIZARRICE
Dizer que o governo quase perdeu a eleição em Curitiba é esquecer que só ganhamos a Copa de 94 porque o Roberto Baggio (não o do MST) bateu o pênalti para fora. E ali chegamos ao tetra como o Cassio acaba de fazer
AXIOMA No discurso da vitória no Parque Barigui, pela turma do governo, houve um orador que sacou essa genial: ‘‘Olha, governador, eu fiquei fora de si quando vi aquelas pesquisas!’’
GLOSA Rafael Greca assegurou, em entrevista à Rádio CBN-Curitiba, que fazendo corpo a corpo nas esquinas conseguiu 30 mil votos para Cassio. Se aparece na tevê, tira 50 mil e junto com Lerner mais 100 mil.
EPIGRAMA Vereadores do PT, como o Samek e o Stica, aceitam o regime de partilha de automóveis (três por vereador) e assessores e com isso perdem condição para denunciar as patologias municipais. Será que o aumento da representação oposicionista, valorizada pelo desempenho de Vanhoni, muda esse quadro ou estaríamos diante de vereadores que só denunciam nas eleições?
SPRAY Londrina metabolizou a crise da Sercomtel-Copel com a cassação do prefeito Belinati. Herança de tudo isso: um déficit operacional de R$ 3 milhas ao mês que o Nedson Micheleti vai ter que administrar. - Um PT verdadeiro, capaz de traduzir a indignação de toda a sociedade, daria um jeito de aprofundar as investigações que Lerner bloqueou com os deputados quando matou a CPI, já instalada, no nascedouro. Com a sordidez não se negocia. - O grupo de entidades que derrubou Antonio Belinati, ao respaldar as ações do Ministério Público, deveria mobilizar-se novamente e, em função da renovada Câmara Municipal, reabrir o processo de toda bandalheira. - Em Maringá, José Cláudio, também do PT, pega um rabo de foguete com a síndrome parecida com a de Londrina diante das ações do secretário Paolicchi e promete ir a fundo, no que lhe couber, para que se apure a extensão do afano. - O Paraná nunca foi tão espoliado como nessa fase atual sob comando de Lerner, ele próprio também gestor desastrado e omisso com a corrupção desenfreada. Casos do Banestado são a parte visível do iceberg. Há muito ainda por descobrir. - Também o petista Péricles Holleben de Melo vai padecer com os efeitos da atuação de Jocelito Canto, muitas delas sob investigação do Ministério Público. - Curioso foi ver que todos os tidos como principais líderes do Paraná ᖠLerner, Alvaro Dias e Requião – consideram-se vitoriosos nas eleições. Nem a derrota clara que todos sofreram altera a dissimulação: agem como faquir numa cama de pregos.
FOLCLORE Uma das armas empregadas tradicionalmente em campanhas eleitorais é a de que a tarifa dos coletivos vai subir. Isso foi feito em 85 pelo grupo do Lerner contra Requião e agora o PT anunciou uma tarifa de R$ 1,30. O PFL, usando volantes, negou qualquer aumento. Se sair qualquer um até dezembro só tem uma definição: canalhice, pior do que a vigarice do pedágio. E se sair em janeiro, início da nova gestão, o povo tem o direito de partir pra pesada, porque aí já é deboche reincidente.
CROMO Nossa aspereza táctil, a minha e a tua, se faz em seda e veludo por força do amor: nós nos transformamos interiormente e nosso corpos e sentidos são outros, elaboradíssimos.
AFORÍSTICO Como todos dizem que ganharam – Alvaro, Requião, Lerner e até os petistas – tenho a desconfiança que o povo é que realmente perdeu. De novo.