Enquanto em Londrina e Maringá a eleição parece fácil para o PT, em Curitiba estamos com uma divisão rígida de campos que lembra, e muito, a de 1985. Naquela, Richa no governo e Maurício Fruet na prefeitura da capital garantiram a vitória de Roberto Requião sobre Lerner. Como naquela disputa (e da qual participava Paulo Pimentel, ex-governador, tendo como vice o ex-prefeito Ivo Arzua) houve polarização rígida que dividiu famílias e amigos da mesma roda de convívio, o que se dá agora de forma ainda mais intensa.
Dentre os manifestos de apoio que o comitê situacionista divulga, há um em que o procurador de Justiça aposentado e ex-deputado, ex-secretário Mário Faraco, de 86 anos, defende o nome de Cassio Taniguchi. Pois enquanto o pai faz uma veemente defesa da reeleição do prefeito, o filho, ex-reitor da Universidade Federal do Paraná, Carlos Alberto Faraco, filólogo de expressão, se alinha no manifesto do clã acadêmico em favor de Ângelo Vanhoni, da oposição. Essa situação é até pedagógica na medida em que afirma que divergência de opinião pode existir e ser encarada com civilidade, em que pese o clima das ruas, muito próximo da paranóia. Já me referi ao exemplo da semana passada do casal de namorados que passeava tranquilamente no Calçadão, cada um deles com um botton de candidato diverso. Essas referências, que seriam normalíssimas em países menos ligados ao autoritarismo como o Brasil, são mal absorvidas pelos engajados que estão à beira de um ataque de nervos, aparentando disposição para a briga.
O dia de votar – valha a retórica – deveria ser ritualístico assim como, no campo religioso, a missa. Lembro que Munhoz da Rocha falou, certa feita, sobre o sentido da igualdade presente na Eucaristia, todos nivelados na mesma unção ao corpo de Cristo simbolizado na hóstia. A eleição seria essa igualdade no campo cívico pela universalidade do voto. Só que numa o espírito é depurado pela confissão (antes até pelo jejum) e noutra, a do voto, apesar de todos os apelos, não se consegue tirar da cabeça das pessoas o senso da vindita e do empenho em humilhar o adversário.
Precisamos de maior prática da democracia, eleições mais frequentes, partidos mais verdadeiros, política menos sórdida, para que não se transforme o pleito em estuário de recalques pessoais, de transferência de problemas e de tantas outras patologias. Enquanto guardarmos, porém, uma visão patriarcal do Estado como o ente que tudo resolve, que prevê e provê, que afinal realimentamos pela intervenção das várias modalidades de populismo, haverá demora para chegar em parâmetros mais avançados de participação política.
A GREVE Depois que magistrados fizeram greve aqui no Paraná, o que é absurdo que retira de qualquer um deles condição para julgar conflito semelhante em outras categorias, vale tudo e não há como negar direito à Polícia Civil de fazer a sua parede, ainda que se trate de atividade essencial. Aliás há um temor reverencial dessa palavra, pois no andamento da redemocratização, à cada vez que se falava em regular o direito de greve, ampliava-se a listagem do que seria ‘‘atividade essencial’’.
Em princípio tudo é essencial, desde uma padaria até a operação de estação de tratamento de água, esta bem mais caracterizada. Toda a regulação acaba implicando em restrição casuística, daí ser melhor o abuso liberticida de hoje do que a repressão genérica. É que no curso das negociações vão surgindo saídas, através de acordos bilaterais, no curso dessas lutas sociais, que formam uma espécie de jurisprudência sobre a manutenção de serviços básicos em hospitais, refinarias, centrais elétricas, correios etc. A intervenção de órgãos administrativos ou do Judiciário também vão gerando sanções de caráter dissuasório como as multas diárias aos sindicatos por descumprimento de decisões dos tribunais.
O caso da greve petroleira, enfrentada por FHC, foi um exemplo que botou abaixo a fantasia de que a Petrobras era um ‘‘bunker’’ superprotegido e capaz de impor as suas decisões ao governo. É com esses tipos de baixa, que nesse caso quase quebraram a estrutura sindical, isso sem falar na perda de emprego de sindicalistas, que iremos construindo o caminho da acomodação, o quanto possível negociada. Anos passados houve greve de delegados de carreira, na base da operação padrão, que registrou baixa da violência e caricaturou a ação da categoria. No ‘‘Correio de Notícias’’, fizemos a cobertura e publicamos como contraponto um conto do escritor Valêncio Xavier que tratava de uma greve de ladrões e que em seu desenrolar mostrou que várias corporações da Polícia, do Judiciário e outras instituições, alegando prejuízos e ociosidade, apelaram para que os ‘‘amigos do alheio’’ voltassem ao ‘‘trabalho’’.
POLÍCIA Será que a greve dos policiais civis funcionaria como um ‘‘provão’’ e com a mesma eficiência da passagem da CPI do Narcotráfico? Até agora nada se decidiu quanto ao relatório final daquela CPI e a estadual empacou num drama complicado: um testemunho, sob proteção, indica dois deputados estaduais e um federal como envolvidos.
O ‘‘provão’’ da CPI foi duro e deu bem a medida de quanto é indébita a intromissão política no assunto, causa maior das perdas de controle e dos abusos estabelecidos com donos de desmanches de veículos aparecendo como financiadores de campanha eleitoral.
A greve testa o governo, a CPI testou tudo, especialmente a polícia e provou que as patologias são muito mais rotineiras do que poderíamos imaginar.
PEGA Anteontem e ontem deu para perceber o quanto é exasperado o clima que precede o pleito de hoje: enquanto o situacionismo optava pela postura do bom moço, antes monopólio da oposição, esta adotou a agressividade tanto na tevê como nas ações de rua, denunciando irregularidades como o fato de Cassio Taniguchi haver adjudicado para sua empresa, a Executive, licitações na URBS e IPPUC. Milhares de volantes reproduzindo documentos foram distribuídos nas ruas. Dava-se o clima de ‘‘empate técnico’’ (a pesquisa ‘‘Vox Populi’’ que dava sete na frente para Cassio na ‘‘Veja’’ não foi muito referida) e isso acirrava ainda mais os nervos e a ansiedade de todos.

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