Luiz Geraldo Mazza
Com o equilíbrio eleitoral que há em Curitiba (em Londrina e Maringá a onda petista será incontrolável) percebe-se que o corpo a corpo e as encenações de rua serão decisivos. O que poderia ser feito na televisão, no rádio e também nos comícios já aconteceu. Resta agora mostrar ou aparentar força. É o que os digladiantes estão fazendo com empenho e furor máximos.
Quem encara a Boca Maldita/Calçadão como o termômetro, o que é rematado equívoco, pode ter chegado à conclusão que o PT e Vanhoni levam essa, tal o nível de concentração ali existente. Mas a Boca é campeã de perder eleições, o que já se deu quando Requião venceu Lerner em 1985 ou especialmente vinte anos antes quando Paulo Pimentel superou Munhoz da Rocha. Às vezes venceu como em 50 com Getúlio Vargas (presidente) e Munhoz da Rocha (governador), em 60 com Ney Braga e Jânio. E às vezes os que se acreditavam polarizadores perderam como se deu com JK e Adhemar de Barros ante Plínio Salgado no pleito presidencial de 1954. Curitiba e Ponta Grossa cacarejaram com os galinhas verdes do integralismo botocudo.
O pescador olha o mar, domina suas cores, seus tons e semitons, distingue no fulgor da corrente e junto às ondas a mancha dos cardumes. Há quem pretenda substituir esse caiçara, cheio de treino e de magia, para descobrir no que há de mimético nas cores para posar de sábio, não tanto quanto os marqueteiros, os alquimistas da campanha eleitoral, e indicar, com absoluta precisão, o vencedor do pleito. Cardumes de eleitores de Cassio e de Vanhoni vagam pelo Calçadão não para serem pescados e, sim, fisgar imponderáveis indecisos.
Nestes momentos em que a campanha agoniza, dá seus últimos haustos como se fossem o derradeiro arranque de um cão atropelado, no melhor estilo de Nelson Rodrigues, as aparências são tão ou mais importantes do que a realidade como a prostituta ou a drag queen que no trotoar não têm o direito de mostrar depressão ou tristeza e são impelidas sempre a sorrir como se nadassem em felicidade. Aos cabos eleitorais que exercem essa arte importante e transitória, como tudo aquilo que se vê na tela ou no palco, o respeito inspirado de todos porque ninguém como eles sabem da ponte que aproxima tudo o que é volátil à estúpida e pretensiosa sensação de eternidade.
SILOGISMO
Com a greve da polícia civil, finalmente o crime organizado nunca se revelou tão desorganizado como agora
BIZARRICE O Paraná não está livre da febre aftosa: basta olhar para a cara dos animadores eleitorais e observar-lhes a baba viscosa.
AXIOMA São Pedro entrou em greve e o céu mais parecia acampamento do MST. Até político e banqueiro eram aceitos. Mais fácil de entrar do que no Country.
GLOSA A expressão pescadores de águas turvas ganhou sentido renovado com a ida do PMDB em busca de lambaris no Rio Barigui. Aliás, são especialistas em procurar justamente aquilo que sabem não existir e por isso lembram, como ninguém, os personagens de Yonesco.
EPIGRAMA De anti-herói a herói foi um passo: o delegado João Ricardo Képpes Noronha parecia o Guevara dos grevistas da Polícia Civil.
SPRAY O incidente de Maringá é a parte visível de um iceberg, tal qual o de Londrina: ambos parecem ter conexão com o acordo branco. Essa alusão ao branco talvez tenha levado à idéia de drogas. - O fato é que o Paolicchi era muito forte junto a escalões do poder e com um trânsito que o transformava em VIP. - O afastamento voluntário do prefeito Jairo Gianoto não teve o efeito dissuasório esperado e, ao revés, criou um clima de cobranças generalizadas. - Acredita-se que se o exame for aprofundado, Maringá, que tanta emulação faz com Londrina, vai mostrar que ela se destaca no ranking da corrupção. - Derrubar um prefeito, como se fez em Londrina ou afastá-lo, como aconteceu em Maringá, pelo jeito é insuficiente. Em Londrina, parece que a lei do silêncio tomou conta da praça, face à forma como amarraram os processos de apuração de todo o escândalo como se tudo tivesse se depurado com a queda de Belinati. - Nenhum governo da história paranaense vai sair tão manchado como o atual e não apenas pelo que foi apurado (Banestado, Jogos da Safadeza, crime organizado), mas também por tudo o que ficou perdido nas caixas-pretas. Esse fator está pesando demais na campanha de Taniguchi ao ponto de haver decalques com a seguinte expressão: Nada contra o Cassio, mas tudo contra Lerner! - A suspensão da coluna da jornalista Roseli Abrão do Diário Popular levou-a ao pedido de demissão. O gesto foi interpretado por petistas como reação à cobertura que dava dos fatos de forma que não agradava ao oficialismo. - Isso é menas verdade, como acentua Lula em suas criações linguísticas que assombrariam Guimarães Rosa, já que Abdo Kudri, dono do jornal, mesmo pressionado para não rodar o Impacto em sua gráfica o mantém ativo e que é pau puro, de cima a baixo, no governo e nas suas roubalheiras. - De qualquer forma Roseli era seguramente o maior destaque do jornal e justamente por não forçar a barra nos seus registros e análises, mais aqueles do que estes. - Os dois comitês dizem que ganham nas pesquisas internas e como não tivemos sondagens ontem (as do Ibope e DataFolha ficam para hoje) o chute vai prevalecer, o que aliás, neste momento, é bastante pedagógico.
FOLCLORE Se Getúlio Vargas, que foi um líder messiânico no Brasil, está sendo desmitificado na série global Aquarela do Brasil, apontado como tão ou mais torturador do que os milicos do pós 64, germanófilo e antijudaico, dá para imaginar como seria retratado, dentro de alguns anos, o período recente da política do Paraná. Essa era uma questão colocada ontem nas rodas políticas quando se dava uma trégua às discussões sobre a eleição prefeitural.
CROMO Havia um caminho além da pedra e não apenas a pedra no caminho, de que tratava Drummond, mas busquei e não encontrei o caminho das pedras, aquele da anedota de Jesus e que me daria a sensação de flutuar nas águas.
AFORÍSTICO Quem disser que já ganhou em Curitiba ou blefa ou seguramente está mal informado.





