Exorcizar pesquisas, como se fossem coisas diabólicas, é quase sempre um ato premonitório de quem vai perder. Só a ausência de convicção no potencial da campanha, ainda mais numa acirrada como a de Curitiba, na qual há um nítido empate, pode levar os paspalhos a adotar uma visão conspiratória do mundo e enxergar manipulação em tudo.
Pois o Ibope, o mais velho de todos os organismos especializados do País, e o Datafolha, um dos mais iluminados dentre os recentes, acusam equilíbro, mas com Vanhoni caindo ainda lentamente, qual ‘‘piuma al vento’’, como gostaria de dizer o Rafael Greca, e o Cassio Taniguchi sobe em ritmo frágil como a pena de passarinho animada por uma corrente de ar. A imagem é de propósito para servir de contraponto à histeria reinante, selvagem, canibalesca.
Depois do 47 a 46 do Ibope em favor de Vanhoni veio o Datafolha de ontem de 46 a 44 para Cassio, e a Pesquisa Folha (que está sendo publicada nesta edição), apontando 44,7 para Cassio e 42,7 para Vanhoni. Algo mais forte do que um Atletiba decisivo parece estar colocado, reeditando em parte o quadro de 1985 quando Requião, carregado às costas por José Richa e o fervor de militância muito mais densa do que a das duas coligações atuais em confronto, bateu Lerner por menos de 19 mil votos.
Tudo o que for planejado num clima desses é inútil: a presença ontem de Lula na cidade dá ou tira votos? Se isso é irrelevante para a ‘‘nomenklatura’’ do PT e seus burocratas e intelectuais pode não ser para a massa que em Curitiba e no Paraná tem manifesta má vontade com o ex-operário e maior figura dos partidos de oposição. Hoje é mais palatável do que há uma década, mas assim mesmo produz notórios choques anafiláticos.
O PFL cresce batendo como se desse razão ao Roberto Requião. Morde e assopra, mas deixa marcas. O questionamento sobre a ficha funcional do bancário Ângelo Vanhoni e sua variação patrimonial entra no campo mais primário da política, que foi especialidade da UDN e que um partido com certa pretensão revolucionária como o PT deveria hesitar em aceitar, que é esse eticismo em compota da moda, muito mais discurso, doutrina, do que práxis. Usa-se o veneno como vacina, tal qual o PT fez ao apropriar-se do marketing lerneriano, que Requião sempre achou uma gloriosa e retumbante frescura de florzinhas e coraçõezinhos.
Vamos às fichas pessoais. A do Cassio também é rica: os atos de adjudicação de concorrência, assinados por ele em favor da Executive, sua firma, quando dirigia tanto o IPPUC como a Urbs, são paradigmáticos. Em países mais cultos e avançados que o Brasil chega-se em campanha eleitoral a exibir o eletroencéfalo do candidato. Aqui não o fizemos sequer com exames de sangue ou fezes, o que não deixa de constituir-se em gesto de contenção.
Um detalhe curioso: a ficha funcional do Vanhoni, em que era recomendada a sua demissão, por desídia, foi assinada no governo Alvaro Dias – que o apóia agora. Nada como um dia depois do outro.
BIZARRICE
Deus estava com o PT desde criancinha. Essa é a impressão que certos manifestos religiosos estão produzindo. Outra, igualmente dessa fonte, sempre reacionária, sugere que apesar de Ângelo, anjo, Vanhoni leva mais jeito daquele alado dissidente, chamado Lúcifer, exagero obviamente radical
AXIOMA Os candidatos que disputam o segundo turno em todo o Paraná parecem, de fato, entender, pelo menos um pouco, de urbanismo. Já em matéria de urbanidade ficam para a segunda época.
GLOSA Quem faz mais sucesso: a banda Skank, que animou ontem o comício do PT, ou a dupla sertaneja Rio Negro-Solimões, que esteve na segunda-feira no do PFL no Bairro Novo? Nenhum dos dois: o Rafael Greca deu um show no encontro da Praça das Tendas ao falar quase por uma hora para 30 mil pessoas, provocando risos, imitando padres do convento próximo (e que estão com Vanhoni). Greca entrou em lugar de Taniguchi porque o prefeito estava afônico. Esclareça-se que o Bairro Novo foi uma criação do próprio Rafael Greca.
EPIGRAMA O governo não deu bola para a liminar do desembargador Valeixo e deixou tudo fluir no banco leiloado como se normal fosse. Ele age sempre assim: quando da criação da CPI da Copel-Sercomtel prensou os deputados e os obrigou a reverterem o processo, causa maior da queda do Belinati e que poderia arrastar o resto do governo, se fosse aprofundada.
SPRAY Entre as primeiras áreas do Banestado que serão enxugadas está a de Informática. Vai haver demissões e o Itaú aplicará R$ 70 milhões no setor. - Apesar de entendida como consumada a transferência de comando, o pessoal que fazia denúncias junto ao Ministério Público continua agindo. Um relatório de auditores sobre pagamento de pensões a procuradores deu origem ao bloqueio dessas operações pelo Banco Central, seguido de pedido de investigação. - Os dirigentes do Itaú afirmaram ao ex-presidente do banco, Reinhold Stephanes, que este fora o melhor negócio de incorporações realizado pelo grupo. - Uma curiosidade está no fato de os principais atores da cena da liminar que paralisa o processo de privatização estarem viajando: o advogado Romeu Bacelar está no Uruguai e o desembargador Valeixo em viagem a Vitória (ES). - Outro que viaja no fim de semana, logo depois de votar, para uma pescaria no Araguaia é o ex-presidente Stephanes. - Se os cintilógrafos das pesquisas não melhorassem, estava cogitada até a inserção, direta ou indireta, do Ratinho. O Fábio Furiatti, um dos principais produtores do animador da SBT, estava sábado na Boca Maldita, envergando a estrela (amarelada, é claro) do PT. Dizia-se, porém, que o Ratinho seria a salvação da lavoura para o governo nas classes C, D e E. - Quem está se valendo, em ‘‘merchandising’’, do Ratinho é o Maluf em São Paulo com palavras de ordem sobre violência, aborto e sexualidade que atingem Marta.
FOLCLORE Lembrete a policiais civis: anos passados, os delegados fizeram uma greve na linha das operações-padrão (por exemplo a de não haver prisões para averiguações) e baixou a criminalidade. Silogismo: menos polícia, cada vez menos violência, menos mediação, menos criminalidade. Anarquia criativa.
CROMO No frescor da manhã, agora um toque de viola perto da Escola de Música e Belas Artes, o aluno indo à aula e exercitando. Imagino em breve um com a cítara, outro com o violino, todos enfeitando a rua com sua arte.
AFORÍSTICO O caminhão da Coca-Cola bateu numa árvore e a empresa quer agora que a prefeitura a indenize. Que árvore cretina que não viu o caminhão!

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