Que os políticos fazem da promessa a sua pregação maior nem se discute. Uns a fazem, dimensionando-a, revelando números e potencialização; outros, mais sutis, deixam-na indefinida no terreno das abstrações ao alcance do imaginário de cada um. O segundo turno da disputa nos três mais importantes centros do Paraná (relevantes por sua expressão cultural, científica, econômica) oferece material sugestivo para avaliações.
De um modo geral a idéia de esperança já favorece, de saída, o PT, por seu espírito de luta e até mesmo vinculação com o socialismo, que seus dirigentes, cada vez mais pragmáticos, procuram expungir dos seus textos de doutrina. Essa opção, ainda que moderada pela prática à esquerda faz da agremiação o repositório de aspirações na luta pela igualdade que permeia até mesmo grêmios de linha liberal. O PMDB, antes devidamente provado no poder, também exercia um papel catalizador, sem identidade tão definida.
Como, porém, submeter ao crivo de questões racionais e imediatas como o plano diretor urbanístico e de desenvolvimento econômico, as políticas sociais e tributárias, a plataforma de ação e mantê-la ‘‘iluminada’’ como uma forma de ideologia é a questão. O PT, por ter sido alijado sistematicamente do poder, aprendeu no conflito (e em algumas experiências de manutenção de comando como em Porto Alegre e em alguns centros) que é preciso balancear o que ainda resta de utopia com um cuidado mais voltado para o utilitarismo.
É possível entender o praticismo de alguém como o vereador Jorge Samek, autor daqueles elogios rasgados à política de participação (em pelo menos dois deles estive presente), nunca, porém, de Ângelo Vanhoni, sempre apostando em saídas menos pacíficas, apesar do aprendizado que teve com Aníbal Khury. O Vanhoni da campanha eleitoral é só cordura e magnanimidade, aberto a elogios sobre os feitos da dinastia lerneriana, ainda que se propondo a buscar uma tal de cidade gente como se o que está aí fosse o símbolo da desumanização, o que em alguns aspectos é verdadeiro até por impossibilidade de o poder local remover essas patologias que se ligam a decisões estaduais, nacionais e até mundiais.
Os dois dissimulam. E quem dissimula mais? Qual deles mais se aproxima de Collor que com suas mistificações levou o Brasil ao erro? Está aí um exercício válido: quem oculta mais autoritarismo e destempero, pulsões narcisistas e qual dos dois está mais apto a controlar excessos do seu próprio grupo?
BIZARRICE
Um tudo para todos que acaba se transformando em nada para ninguém. Essa é a análise resumida que se pode fazer das plataformas em confronto
AXIOMA Rafael Greca e Jaime Lerner de um lado, e Alvaro Dias e Requião do outro são os ‘‘espantalhos’’ da campanha eleitoral. Rubinho Ferreira sugere um acordo de cavalheiros em que todos aparecem no horário eleitoral. É um mistério a contabilidade de perdas e ganhos que pode não ser equilibrada.
GLOSA Antes os pronunciamentos religiosos eram tidos como reacionaríssimos. A Liga Eleitoral Católica era uma dessas expressões. Pois agora um manifesto de religiosos é olhado como avanço. Uma das piores coisas para a democracia é qualquer tipo de fundamentalismo e não há confissão religiosa que dele escape. A ordem republicana e democrática é essencialmente leiga na origem.
EPIGRAMA Se os olhos são o espelho da alma, dá para analisar com tranqulidade as candidaturas ora colocadas à escolha do curitibano. No brilho ou até mesmo na opacidade dá para chegar a um resultado.
SPRAY Humilhados por seguidas derrotas em Curitiba, alvaristas e requianistas se agarram na decolagem de Vanhoni como se representasse a bandeira comum. - Em passado recente, o PT era um estepe, um acessório de ambos, embora mais do PMDB do que do PSDB. - Hoje dá para perceber, na representação da Câmara Municipal, o quanto o PT subiu e os dois desceram. Em passado recente, o PT tinha dimensão parlamentar igual à do PMDB, mas era um partido em ascensão, enquanto caía; e agora se aproxima do fim em termos regionais. - Essa avaliação é que mostra a queda dos herdeiros presuntivos do trono: Lerner, Alvaro e Roberto Requião como ‘‘deletados’’ do primeiro turno e abre-se caminho para uma renovação que pode estar representada na cintilação do PT. - Sábado, na Boca Maldita, deu para perceber o quanto os derrotados de inúmeras eleições contra Lerner revelavam vibração, próxima do fanatismo, como se estivessem revivendo os tempos da vitória de Richa contra Saul Raiz. - Muitos envelhecidos, mas acreditando que ainda podem ter lugar no condomínio que geriria Curitiba, caso Vanhoni viesse a ganhar o pleito, o que há amplas condições de acontecer. - A semana começa com o abalo da pesquisa Ibope (o PT a contesta, como já havia feito com a Pesquisa Folha, deste jornal, agora sob o fundamento ético de que o instituto de nome nacional faz sondagens internas para o comitê oficial) seguida de um certo agravamento no tom das duas campanhas. - Um volante (muito bem sacado) do oficialismo mostra a imagem de Vanhoni em três tempos: a dele fazendo o deboche das eleições com um narizinho de palhaço, outra meio irado e a serena de agora. E pergunta qual delas é verdadeira. - Sábado próximo, depois do último debate, o da Globo, será necessário reforçar a segurança na Boca Maldita. Neste fim de semana quase deu rolo e por uma provocação de um carro de som da campanha de Cassio. A PM teve que separar os dois grupos. - Viajar na maionese em campanha eleitoral não surpreende: o comitê de Cassio Taniguchi acusou a oposição de ser responsável pelo aumento de acidentes com mortes no trânsito sob o fundamento de que isso decorre da onda contra a fiscalização eletrônica. Isso é tão absurdo como considerar a Loja Az de Espadas como a causa de crimes com armas de fogo. E o nexo de causalidade físico-subjetiva?
FOLCLORE Dois nomes de imigrantes como candidatos à Prefeitura de Curitiba não deixa de ser um avanço da sociedade aberta e mais ainda quando se tem no governo um representante da etnia polonesa. Tais raízes, no entanto, não impedem que alguns ajam de forma imperial e até aristocrática. O poder muda as pessoas.
CROMO Com um canto estridente, triunfal, o corpo em tremor, o João de Barro, minhoca no bico, anuncia o alimento aos filhotes no ninho.
AFORÍSTICO O pior está por vir. Hoje é ainda terça-feira.

mockup