Meu tio, Alfredo Mazza, comunista intuitivo, foi à casa do Felipe Chede, esquerdista articulado, em Ponta Grossa, para trocar um cheque por dinheiro em função do feriado bancário, provocado pelo golpe militar que tinha consistente base naquela cidade conservadora. Ser comuna na Princesa dos Campos era, em 1964, algo como um albino no Maracanã que mesmo entre 100 mil pessoas é fácil identificar. Pois essa busca de generosidade junto ao amigo levou-o à prisão. Ele foi para a Provisória do Ahú junto com subversivos de todo o Paraná.
Uns suportam bem a prisão e a encaram até como fator de depuração pessoal, um certo sinal de purgação pessoal, meio próxima da autoflagelação religiosa que muitos encaram como indispensável. Outros entram em pânico e se desesperam, acabam em quadros depressivos. E foi nesse cenário que ele encontrou um cara chorando, de forma convulsiva, descontrolada. Chamou-o a um canto e sagredou-lhe no ouvido: ‘‘Faça como eu, finja que é homem!’’
Pois ontem o vereador Jorge Samek, coordenador da campanha do PT, ao fazer a interpretação das tabulações da Pesquisa Folha, transbordou emocionalmente e como estava diante de um pequeno público do local em que dava entrevista à Rádio CBN-Curitiba, entusiasmado com o apoio dos correliginários, desancou o pau na sondagem, afirmando categoricamente que ela havia sido ‘‘comprada’’. Como o preso não pode expressar medo, também um chefe de Estado Maior não pode perder-se com o juízo de valor de risco e que só evidencia o descontrole, o temor da derrota, o que é uma possibilidade para os dois candidatos.
Ora, quem se desgasta com pesquisa mal feita é o instituto, como aconteceu, quase de forma geral, nos resultados nacionais do primeiro turno. De uma forma geral isso não é comum e o que há a fazer é perceber que fenômenos deixaram de ser detectados e mal apurados e que permitiram a diferença entre previsão e os resultados. Verificou-se uma ‘‘onda’’ praticamente de última hora, razão pela qual aos institutos só caberia uma coisa: identificar o erro e desenvolver técnicas para evitar a reincidência. Apurar métodos, como fazem os partidos que têm tudo para ganhar e perdem uma eleição.
Há no momento – e aí Ibope, Datafolha e o instituto deste jornal concordam- uma curva ascendente para Cassio Taniguchi e uma descendente para Vanhoni. Há sutilezas na questão como diferenciação metodológica, por exemplo. Os partidos tentam seduzir o povo com suas propostas e quanto mais civilizados se mostrem melhor será o desempenho. Acusando a pesquisa de facciosa, o vereador Jorge Samek mostrou que a queda dos indicadores o tirou da normalidade, mais ainda do que aquela gravação em que elogia o PFL por fazer gestão partilhada com a população. E disse isso com serenidade, e até um pouquinho de vaidade por estar sendo enfocado, e não com a raiva de ontem.
BIZARRICE
‘‘A campanha de Cassio Taniguchi é como a nau capitânea do Greca: custa caro demais e não leva a lugar nenhum.’’ A frase é do Lafaiete Neves. Se Vanhoni perder a eleição, queima a língua
AXIOMA O maior inimigo do PT é o PT. Foi assim quando Lula quase ganhou de Collor: falaram demais em voz alta o que pretendiam fazer e assustaram a maioria do povo. Não estaria no transbordamento da militância a queda nos índices de intenções de votos em São Paulo, Curitiba e Recife?
GLOSA Pediram às chefias do Palácio Iguaçu que dessem uma contribuição de R$ 800,00 cada um nesse esforço final de campanha em favor de Cassio Taniguchi. Conforme explicou um assessor a doação era voluntária, ainda que feita de forma sutilmente coercitiva.
Dá para imaginar o diálogo:
-Vai contribuir?
-Não, não posso.
-O senhor certamente já deve ter outro emprego em vista e dê graças ao nosso presidente Fernando Henrique pela melhora na economia.
VAIDADE Uma das coisas que mais irritam em campanha eleitoral são marqueteiros e advogados pretendendo aparecer bem mais do que os candidatos. Tudo é prova, enfim, da fragilidade das nossas práticas democráticas.
SPRAY Se o governo estadual garantisse agora que vai sair o 13º isso seria crime eleitoral? Não, apenas um milagre. - Cassio poderia anunciar aumento de 10% para o funcionalismo? Claro, por que não? A oposição só acharia válido se o prefeito anunciasse mais algum desconto. - A dificuldade de aceitar a realidade da reeleição, princípio aprovado e que deve ser mantido, é que embaralha o meio de campo. Alguns advogados como o Genésio Natividade querem restrições tão radicais que pretendem que os prefeitos só façam campanha fora do expediente. Dá para imaginar como a sociedade norte-americana encararia a restrição. No mínimo como anedota. - Hoje é dia de gozação do PMDB em cima do prefeito: o torneio de pesca no rio Barigui tem esse objetivo. Não tentem pescar com massinha. Em Minas tem algo chamado ‘‘mussina’’, substrato fecal de grande eficiência. Mosca, especialmente a varejeira, é eficaz nesse ambiente. - Sinais visíveis de medo da derrota: as afirmações do vereador Jorge Samek (quando a Folha deu Vanhoni com 9 pontos na frente não estava errada) e o pedido pela coligação oposicionista de investigação judicial com cassação de registro ou diploma de Cassio e Beto Richa. Se o povo escolher o outro, usa-se o tapetão. Postura mais cínica do que cívica.
FOLCLORE A tensão pré-eleitoral pelo jeito é pior que a pré-menstrual. Na próxima semana a paranóia vai aumentar e a selvageria se sobreporá a qualquer sinal de civilidade. Dos dois lados, esclareça-se. Haverá tanta baba, com o alastramento da hidrofobia, que a turma vai fazer campanha nadando. No rio viscoso da própria baba.
CROMO E aparece aqui na Redação para a despedida final a repórter Michele, - de saída para o exterior, e deixa aquele sinal de permanência, de durabilidade, de resistência ao fluxo do tempo. O amor não é evanescente, enquanto dura, como alertou o poetinha.
AFORÍSTICO Se é verdade que houve o desaparecimento de R$ 6 milhões num dos comitês já se tem uma idéia de como esse pessoal é vigilante.

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