Luiz Geraldo Mazza
Cada vez que a frase de Marx, corrigindo Hegel, é lembrada a de que a história se dá como tragédia e se repete como farsa costumo acrescentar que no Brasil temos tido mais farsa do que história. Há muitas semelhanças entre o quadro atual e o de 1985, que marcou um divisor de águas, no choque entre Jaime Lerner e Roberto Requião para prefeito, ganha por este por uma diferença de menos de 19 mil votos.
Em primeiro lugar porque se trata de um pleito que será decidido no olho mecânico, tal qual as mais aguerridas disputas de 100 metros rasos ou em competições do turfe. Segundamente, como dizia o Cantinflas, porque a polarização, que se enunciara no primeiro turno, torna-se mais intensa e em cima de uma arregimentação bem parecida com a que beneficiou Requião em 1985, centrada numa frente de partidos, enquanto de outro lado persiste hoje o alinhamento quase dinástico do grupo que tem em Lerner sua liderança maior, ainda que tão oculta quanto a de Lula relativamente ao PT.
Em 1985, um dos erros básicos, cometidos poucos dias antes da eleição, foi a dispensa, por ordem de Saul Raiz, em função de economia, da equipe que fazia panfletagens, cercava o trânsito com faixas, enfim aquelas ações de corpo a corpo. Ora, a massa de dispensados acabou acrescentando um peso a mais ao adversário porque esses trabalhadores ocasionais receberam a solidariedade da família que votou, em função disso, no candidato do governo estadual.
Até a circunstância de os governos municipal e estadual estarem unidos como desafio à oposição ajuda a manter a atmosfera de que é preciso mudar, ainda mais quando se vincula tudo isso a um projeto nacional do PT, que começa a ser aceito como palatável pela moderada sociedade curitibana. A notícia de que estão faltando recursos do lado governista, tida como inverossímel, dado o tom sofisticado, pelo menos até aqui da campanha, lembra o ocorrido em 85, só que isso se dava do lado oposicionista. Depois de tudo isso só falta botar Lerner e Rafael Greca no ar e aguardar o festival das bandeiras que voltarão a ser vermelhas, após computados os votos.
BIZARRICE
Sobre essa história de que estão faltando recursos no comitê oficial há uma piada sensacional: como o homem do financeiro chama-se Mário Lopes, o mesmo do pianista da série global Aquarela do Brasil, sugere-se que se Cassio Taniguchi perder todo o mundo vai para o piano
AXIOMA Já imaginaram o Brizola sendo barrado à porta de reunião do PDT ou o Chê Guevara numa dos comunistas cubanos? Mais ou menos isso ocorreu anteontem na Arena da Baixada quando atleticanos não deixaram o Washington (que fazia a dupla com Assis sob o nome de Casal 20), que foi ídolo nos dois times, o Atlético e o Fluminense, entrar no recinto quando poderia até pacificar o clima por causa das brigas havidas no fim do jogo.
O Brasil está assim sem memória e a juventude esquerdista acha que a nossa história começou com as greves do ABC comandadas pelo Lula que a direita dizia ser uma criação do cardeal Arns e do jornalista Mino Carta.
GLOSA Na lista das emendas do Vanhoni ao orçamento estadual, a que recebeu a menor dotação foi Curitiba com R$ 150 mil. Ou ele estava certo que iria perder ou então esse amor esparramado pela capital não está comprovado.
EPIGRAMA Já que estamos tratando do tema da repetição da história é pertinente lembrar que nada é mais parecido com o messianismo de Antonio Conselheiro do que a essência do Movimento dos Sem Terra. Por isso mesmo é retrô, apesar da extensão e capilaridade alcançada em termos nacionais.
ESPANTO No motel, o atleta sexual descansa depois da olimpíada e fica de olho na tevê num filme pornô. De repente, o aparelho passa a exibir o debate entre os candidatos e o sujeito berra: Chega de bolina, quero sexo!.
SPRAY É a hora do espanto: com as últimas pesquisas (a do DataFolha aduziu mais fermento), o jogo baixo vai crescer de lado a lado. - Há quem deseje jogar no pedaço questões de intimidade, hábitos de hoje e do passado, sacanagens, enfim. - Imagens do Vanhoni na invasão da Ferrovila e de participantes de sua campanha e documentos que comprovam o fato de Cassio haver adjudicado em favor de sua firma, a Executive, licitações tanto na Urbs quanto no IPPUC. - A declaração feita à Band na qual Vanhoni diz ter fumado maconha, que estaria sendo usada junto a evangélicos, pode ir ao ar no horário gratuito. Enfim, o clima de trem fantasma de parque, um susto em cada curva. - Num dos comitês eleitorais teria sumido a importância nada desprezível de R$ 6 milhões. Por enquanto é boato. Mas boato, segundo Anfrísio Siqueira, é o embrião da verdade a ser revelada. - O PT vai em cima do PFL alegando que mensagem do prefeito aos funcionários anuncia aumento de 10%. Promessa é pecado venial dos dois lados. Chiar em cima disso dá a impressão de que o PT não passa de uma UDN de chinelo de dedo e sem o talento daquela para rabulices. - Uma boa providência dos dois comitês foi a de reduzir ao mínimo o número de debates. O da CBN de amanhã não vai sair mais porque o Sistema Globo de Rádio decidiu fazer em conjunto com a TV Globo, no caso o Canal 12, em todas as regionais. - Aliás, apesar da melhora do segundo debate da Band sobre o primeiro, o risco de estresse, de fadiga do material, persiste. Corre-se o risco também de votar em José Wille, o apresentador, o melhor dos três, correção sem gaguejar, equilíbrio e verbalização sem reticência.
FOLCLORE Pode ser que Cassio Taniguchi não ganhe o segundo turno (ganha meio ponto por dia e o adversário perde meio ponto, segundo as sondagens), mas ontem se compremeteu, junto aos lojistas, criar segundo turno para o comércio à noite. É a lojística do candidato em ação.
CROMO A Gisele, de azul celeste, é mais gente do que anjo, mas às vezes cintila como estrela Vesper.
AFORÍSTICO A diferença entre o PT e a UDN, ambos moralistas, era o talento.





