Com o leilão do Banestado, ficou nítido que as comemorações oficiais marcaram uma vitória de Pirro, a batalha celebrada que impede a continuidade da guerra, tal o estrago, material e humano, nas tropas ‘‘ganhadoras’’. Claro que saiu bem melhor do que a expectativa, diante do preço mínimo colocado.
Todos os que pilharam a instituição – e não foram poucos ao longo desses 72 anos, nem sempre de glórias, já que não foram poucas as intervenções, ora da Superintendência da Moeda e do Crédito (Sumoc), ora do Banco Central – estariam hoje como que ‘‘anistiados’’. Quando um governo de oposição assumia, era comuníssima a declaração de que a ordem anterior quebrara o estabelecimento. Já me referi a várias dessas situações que pessoalmente ouvi como a proferida pelo industrial Ivo Leão, secretário da Fazenda do segundo governo Lupion, de que a gestão que o antecedera deixara o Banestado em situação de quebra.
Curiosamente na administração Jaime Lerner, que substituía a do período Roberto Requião-Mário Pereira (por sinal que os dois do mesmo PMDB saíram se acusando de irregularidades), o presidente do banco, Luis Antonio Fayet, com passagens pelo Banco do Brasil e o Badep (que Alvaro Dias fechou), em seu discurso de posse, falou sobre o estado de higidez do estabelecimento como se fosse um caso de saúde de vaca premiada.
O secretário Giovani Gionédis, da Fazenda, está em estado de euforia. Se tivesse convicções assim tão fortes deveria debater a matéria, publicamente, com o primeiro gestor da administração Lerner para ver até que ponto são assim tão dissonantes os seus pontos de vista. Na verdade, o governo considera essa uma batalha encerrada até porque sabe que o Ministério Público, com centenas de denúncias sobre as distorções, não tem como atender essa demanda. Parece que essa certeza de impunidade, por impossibilidade física em tempo adequado de apuração e processamento, é que deixa tranquilos, tanto os inadimplentes como os saqueadores do bem público que todos nós iremos pagar.
BIZARRICE
O Tribunal de Contas promete investigar o caso Maringá. Jamais havia detectado a roubalheira lá havida como não percebeu a de Londrina, a do Banestado etc. Se ele depende da polícia e do clamor público para agir é melhor que feche, pois sua função, se operasse, deveria ser preventiva
AXIOMA Áulicos de Lerner dizem que de cada três curitibanos dois estão com o governador como necessário na campanha de Cássio. Deve ser verdade, pois de cada três todos vão pagar, durante 30 anos, o ‘‘mico’’ do Banestado que a turma arrombou. Se Lerner entrar na campanha, Cassio pode mandar fazer uma faixa, não a de reeleito, mas a ortopédica. Direto para a UTI.
GLOSA No meio do leilão do Banestado havia um sujeito com um riso permanente no rosto. Um repórter se aproximou e explicou que só de crédito fiscal o banco tem direito a um bi e meio, portanto houve doação. ‘‘E e o senhor acha disso’’, perguntou o repórter. E ele respondeu: ‘‘Não acho nada. Não estou rindo e esse rictus que tenho no rosto é sequela de derrame que sofri no dia que o Lerner anunciou que aposentado como eu receberia de um instituto de previdência tocado por sua turma.’’
ARITMÉTICA Giovani Gionédis, da Fazenda, afirma que no governo Lerner apenas ocorreu 30% do rombo do Banestado. Como o banco existe desde 1928, a parte maior da quebra se deu justamente por obra e graça do atual governo. Se em 72 anos o furo acumulado dá um terço para a tchurma, não há o que contestar.
PENDULARISMO Lerner não é ambivalente, pendular, apenas nas questões de Estado. Não saber, por exemplo, se tira ou não tira o MST da praça; se demite ou promove o diretor que foi apanhado em flagrante de desvio no Banestado; se entra no PSDB ou no PFL; se com o Brizola, chefe do seu partido, o PDT, apóia ou não FHC e por aí em diante.
Neste momento, embora alertado que pode afundar Cassio Taniguchi, como se deu no final do primeiro turno, está na dúvida se entra ou não na campanha da TV. Enfim, sempre em dúvida, não sabe se a próxima viagem é Paris ou Nova York.
Pois assim, oscilante, foi, também, na reparação de danos morais de Cascavel, obtida, em acordo, com o jornalista Marcos Formighieri: em 12 de agosto de 98, o advogado Alcides Pereira, sogro do Gionédis, seu constituído, pleiteou que os R$ 10 mil do acerto fossem drenados para cinco Apaes (as de Corbélia, Guaraniaçu, Ibema, Nova Aurora e Santa Tereza do Oeste), em cheques judiciais bancários de R$ 2 mil para cada instituição.
Já em 27 de julho deste ano, em pleito do mesmo advogado, Lerner pede ao juiz da 2ª Vara Cível de Cascavel, ‘‘em virtude de ter o requerente necessidade de dar destinação diversa da indicada inicialmente’’ requereu a emissão de cheque administrativo em nome do governador, que seria levado a Curitiba pelo advogado Alcides Pereira. Assuntos de foro íntimo são da soberania das pessoas. O fato é que as Apaes, que esperavam ser beneficiadas, ficaram frustradas.
FOLCLORE Sinalização de suposta melhora nas pesquisas já levou o pessoal do comitê oficial ao salto alto, que os derrubou no primeiro turno. Dona Marina Taniguchi, que chamou a atenção dos destemperados e triunfalistas, deveria voltar ao local e aprontar outra bronca. Não é o Vanhoni quem está mentindo e sim essa turma que está brincando outra vez. Mesmo que o Vanhoni mentisse faria parte do jogo. Quem não pode brincar é o pessoal mais próximo como essa estupidez de sugerir que o candidato petista fugiu do debate.
CROMO No tempo em que havia pudor e não existia televisão me detive numa cena da janela do trem: uma campesina segurando a saia, inflada pelo vento, lá fora no povoado, para que sua intimidade não ficasse à vista. O furor da luta empolgava: a saia era uma biruta de aeroporto e de quando em quando as coxas róseas eram devassadas, enunciando o corpo adolescente.
AFORÍSTICO Com informações descabidas como a de que Ângelo Vanhoni teria fugido ao debate da Associação Comercial, o que jamais foi confirmado pelo nediador, jornalista Gladmir Nascimento, o comitê situacionista mostra, antes de tudo, desequilíbrio. Para completar, só falta botar Lerner e Greca na TV.