Há muita gente feliz com o desfecho do leilão do Banestado. Triplicado o valor mínimo no arremate, o governo comemora o que acha uma vitória, embora lembre muito a de Pirro, a que não vale ser comemorada. Mas quem comemora mais são justamente os que quebraram o banco, inadimplentes, os que o debulharam em fraudes e arrombamentos, os que firmaram acordos sacanas em que pagaram 5% do que deviam, os que nada pagaram e não vão pagar, clientes de sempre como parlamentares que com um ar sisudo posam de austeros.
Certos de que haverá uma espécie de anistia, isso sem falar no absurdo das ‘‘monetizações’’ em que o governo assume a dívida e a responsabilidade de cobrá-la o que já indica que não o fará pelo caráter privilegiado concedido a esse tipo de inaceitável operação. O Banco Central é pragmático, e consta de sua doutrina que o mal menor é esse tipo de sequela, já que o fim dos bancos estaduais é um benefício que não tem preço porque eles sempre foram produtores de moeda, fermento dos desajustes internos nas contas públicas.
Agora virá à cena o espetáculo das mistificações: o governo tentando posar de eficiente quando foi quem consolidou a quebra do banco e lhe expôs as vísceras na sordidez militante da Leasing e da Corretora, dos descaminhos da Imobiliária, dos mistérios tenebrosos da área cambial, guardados como segredo como se fosse a mitológica Bolsa de Pandora. Há uma burguesia feliz porque acha que uma estrutura particular como a do Itaú, sem os assistencialismos e os clientelismos corporativos (juros subsidiados para determinadas castas), poderá operar com desenvoltura numa unidade federativa capaz de potencializar-se com essa irrigação em sua economia.
Enganam-se também os que acreditam que o episódio gerará dividendos políticos ao PT porque Ângelo Vanhoni é bancário de origem, embora a sua operação com o Banestado o caracterizasse, como nos demais casos análogos, como banqueiro, tais os ganhos acumulados nos descontos concedidos. Não é justo transformá-lo em bode expiatório no processo porque outros parlamentares e empresários conseguiram vantagens ainda maiores e alguns simplesmente nada pagarão. Foi-se uma história de instituição pública. Em breve teremos a da Sanepar e Copel, que a compulsão da gestão leiloeira irá acionar. Vê-se aqui no caso paranaense, em escala reduzida, o que se dá no país com as privatizações: o recurso obtido com a venda é para abatimento de dívidas: a do Paraná, em relação ao Tesouro, só no Banestado, estava próxima de R$ 6 bi. Comemorar isso é loucura.
BIZARRICE
Os jornais que os dois comitês produzem sobre os debates são a mais pura expressão da mentira. No debate da Band de anteontem, de uma chatice piramidal, ninguém ganhou. Quem perdeu foi o público por havê-lo assistido
AXIOMA Um box, em que há mais ‘‘clinch’’ do que ‘‘jabs’’, é igual ao debate e com sua regulação rígida e burocrática.
GLOSA De uma coisa não podem acusar precipitadamente o Vanhoni, na hipótese de invasões dos sem-terra ou sem-teto, como um possível cúmplice. Mesmo que venha a sê-lo, jamais chegará ao grau de cumplicidade de Lerner com o acampamento havido em pleno Centro Cívico. O que se fez por frouxidão, o petista não faria por adesão voluntária e ideológica.
EPIGRAMA Defeito no sistema de elevadores da Associação Comercial do Paraná ontem deixou o Ângelo Vanhoni na sobreloja e o Cassio Taniguchi em lugar mais elevado. Alguns viram no fato um indicador metafórico das preferências da entidade, há tempo consolidada. Em tempo de guerra psicológica, pum descuidado pode ser encarado como um Exocet.
SPRAY Frustração maior do que o debate de anteontem na Band foi a de ontem na Associação Comercial do Paraná. Pane no transporte vertical impediu o debate que iria ser retransmitido pelo SBT regional. - O ascensorista era tão procurado para explicar o que estava ocorrendo que parecia um astronauta no momento da partida do foguete espacial. - O debate, que não houve, era bem melhor do que os dois já havidos, segundo a maioria. Sério e verdadeiro como sempre, apenas o mediador José Wille. - Começou a guerra de nervos das pesquisas de preferência eleitoral: oposição diz ter uma em que Vanhoni permanece com 15 pontos na frente e a situação repica estar com uma do MCI, divulgada na coluna de Cristiana Lôbo, em que Cassio ganha de 45 a 42%. - Se as pesquisas conseguirem o milagre de dissimular mais do que os candidatos, vai haver a maior confusão. - Jaime Lerner ganhou uma ação de indenização contra o jornalista Marcos Formighieri da ‘‘Gazeta do Paranᒒ, de Cascavel. Pretendia distribuir a importância de R$ 10 mil entre Apaes, o que fez em pedido à Justiça, mas depois recuou e pleiteou que a importância lhe fosse deferida. - Bancários do Banestado vão ter que reavaliar a questão da greve com o fato já consumado da privatização, pois no início da próxima semana o Itaú assume o comando das operações. - Precisam evitar desgaste com o cliente (maioria sobre os funcionários) e preparar-se para a hipótese até de outras paredes se a nova direção atentar contra direitos dos trabalhadores. - Vem aí um ‘‘rolo’’ a mais no Banestado, detectado por auditores, relativo a pensões de servidores. - Durante anos ficarão tramitando na Justiça ações contra má gestão do Banestado. Se uma do governo Alvaro Dias, enquadrando a diretoria do banco na lei do colarinho branco só chegou na Justiça Federal no meio deste ano, imagine-se o que vai ocorrer com as demais. Os fraudadores exultam com os escassos recursos do Ministério Público agir em cima de tanta maroteira.
FOLCLORE Dona Marina Taniguchi é de ‘‘rodar a baiana’’: pegou a turma do comitê oficial de salto alto e festejando antes do tempo e chutou o pau da barraca. E agora entrou em choque verbal com o Vanhoni, chamando-o de mentiroso. Talleyrand pensava nos políticos ao dizer que ‘‘a palavra foi dada ao homem para dissimular-lhe o pensamento’’.
CROMO A vida de uma liminar é mais provisória do que a de uma borboleta.
AFORÍSTICO O governo leiloeiro vai atrás agora de R$ 400 milhões para salvar as ações da Copel caucionadas nos abusos com os títulos estaduais. O leilão assanhou o pessoal para a venda da nossa principal. Acabou com as privadas regionais e agora cuida das públicas. É de puxar a descarga.

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