Luiz Geraldo Mazza
Ney Braga, ontem sepultado, é o gestor mais destacado dentre os que mais fizeram pela modernidade paranaense e foi privado de assistir ao desmanche estatal das empresas de economia mista, que consolidou, no atual governo. Tentaram inclusive, em manobra vil, envolvê-lo na condição de presidente do Conselho da Copel nos desregramentos lá praticados e que precedem o seu leilão, um dos derradeiros o pagamento à empreiteira CR Almeida sob a alegação de acordo vantajoso em cima de demanda judicial.
É claro que estamos em situações históricas diferenciadas. Essa tendência de desestatizar áreas como a da energia, em que o Paraná é modelo no Brasil, é imposição externa, faz parte de um modismo decorrente da nossa dependência. O pior é que o governo atual não discute a conveniência dessas ações ou a adoção de cronogramas mais lentos e que permitam a melhor negociação. Quer queimar tudo a toque de caixa como faz com o Banestado que ajudou a afundar com os mais clamorosos atos de corrupção e fraude de que temos notícia.
Ney Braga tinha uma doutrina, que discutia o Paraná e a sua inserção no processo brasileiro, lastreada em grande parte na filosofia do Padre Lebret do Movimento de Economia e Humanismo. Lerner tinha e tem apenas marketing e, é claro, uma ideologia daí decorrente, altamente manipuladora. A de Lebret libertava e tanto que aconselhava o Método Paulo Freire na alfabetização; a de Lerner condicionava a referenciais de raiz (apego ao casario antigo como forma de identidade, aos parques como ganhos de área verde, desconsiderando o grau de poluição dessas águas) para projetos impostos e jamais discutidos ou, de qualquer forma, partilhados. Nesse aspecto, até Ivo Arzua foi mais aberto ao produzir debates entre classes interessadas a respeito do Plano Diretor.
Lerner, com seu novo perfil da economia, que tem aspectos inegavelmente positivos, poderia representar, em outra escala, a revolução de Ney Braga. Escasso de doutrina, centralizado e antidemocrático, ele é agente de uma ação oposta à de Ney Braga. Vassalo do cosmopolitismo, perdeu a noção da medida do interesse regional, visível na demolição conjunta do Estado e das empresas de caráter regional. São paralelas, enfim, que só no infinito se encontram.
BIZARRICE
Antes eu sonhava; agora não posso dormir. A divisa, inscrita no pára-choque de um caminhão, pode ser aplicada no caso tanto da vitória do Vanhoni quanto no da reversão de Cassio
AXIOMA Vem ai um harakiri: Lerner vai aparecer no programa do Cassio. Deve ser de uma descendência, até aqui desconhecida, de kamikazes, quando acreditávamos que fosse unicamente de samurais. Não há sukiaki e tepanhaki capazes de neutralizar tamanha decepção. Arigatô, diz o Vanhoni, como quem reza. Saionara, resmunga, quase chorando, o Cassio.
GLOSA Ney Braga, de certa forma, teve morte feliz: não assistiu ao desmanche do setor público que ele salvou e aperfeiçoou e que este governo leiloeiro degradou e colocou à venda. A equipe já está babando para vender a Copel, depois do Banestado, e outras partes da Sanepar, empresas públicas que Ney consolidou.
EPIGRAMA Um dos argumentos que justificavam a atração das montadoras é que aqui não havia um sindicalismo maduro no meio metalúrgico. Pois bem. A Audi-Volks já fez duas, e a Volvo, mais antiga, também. Essa sociologia de botequim não leva a lugar nenhum, mas seus enunciados são repetidos com extrema imponência.
SPRAY Não há nada no Paraná moderno que não tenha a influência de Ney Braga. Essa uma constatação comum entre os depoimentos dos que falaram do significado de sua morte. - Raro é o político que faz carreira como chefe de Polícia. Nessa condição ele foi homenageado pelos estudantes num tempo de tensões diárias e distúrbios de rua. - Ney ganhou o apoio dos taxistas porque solucionou o crime do Vossoroca, no qual um motorista, sequestrado, foi morto e teve o corpo lançado naquela represa. Ney apresentou os autores, deu-lhes segurança evitando o que poderia redundar em linchamento. - O fator que decidiu sua vitória para a prefeitura contra Wallace de Mello e Silva, pai dos Requião, foi a ação do então prefeito em exercício, Ernani Santiago de Oliveira, e que tocou o asfalto da ligação com Santa Felicidade. - Outro fator foi o apoio do vereador e grande líder popular, Milto Anselmo da Silva. - Ney aplicou, pela vez primeira, os rigores da técnica de planejamento, via coronel Alípio Ayres de Carvalho, no processo de modernização do transporte coletivo, embrião do que está aí: criou empresas e acabou com a loucura dos autolotações sem segurança e sem qualquer responsabilidade em horários e frequência. - Ney trouxe o Prestes Maia para dar uma olhada na cidade e dele recebeu a recomendação de cautelas quanto à ocupação dos fundos de vale. Saul Raiz foi o designado para ajustar o urbanismo. - O urbanista paulista fez indicações sobre a localização da Rodoviária, do Mercado Municipal, do remanejamento das praças (o maior o da Rui Barbosa) e a questão da canalização dos rios. Uma releitura do Plano Agache. - No Estado, ele consolidou, com a infra-estrutura (rodovias e energia), o processo de unidade físico-territorial do Paraná, diversificou a economia e fomentou a industrialização. Foi a grande liderança regional dos últimos 50 anos: restabeleceu a presença de ministros paranaenses, o que já ocorrera em escala menor no governo Munhoz da Rocha, primeiro cunhado e seu genuíno lançador na política. - Criou quadros que aí estão, originariamente bem superiores aos agora disponíveis. - Alex Beltrão, por exemplo, foi quem ousou instrumentalizar todo o sistema de fomento pela Codepar-Badep.
FOLCLORE Na praia conta o Elísio Marques com muita chuva, candidatos 25 e 13 distribuiam cataventos: seria patético se não fosse curitibano.
CROMO Na manhã cinza e garoenta, um pouco de luz permanente: a poeta Helena Kolody flutua na avenida ao sorrir para todos os transeuntes do Calçadão.
AFORÍSTICO Bastou Lerner saber que a pesquisa de Cassio tinha melhorado para pedir participação. Se aparecer, dá para apostar, mesmo que a diferença tenha se estreitado, na queda. A vaidade é atributo também masculino.





