Luiz Geraldo Mazza
Num país carente de cidadania ativa, é impressionante o empenho do advogado Francisco Afonso Jawsnicher, do Departamento Jurídico do Banestado, para que a verdade aflore e desmantele o regime de caixa preta que o governo sempre tentou impor aos atos de corrupção. Além disso, ele é o autor das notícias-crime da Leasing, primeiramente na Justiça Federal e depois na estadual, tomado de indignação pelas manobras que precedem o leilão-doação do banco tem apresentado novas e robustas denúncias ao Ministério Público. É um exemplo raro de destemor e aplicação nas suas funções ao partir até para iniciativas temerárias quando se conhece a facilidade com que no Brasil as maiores fraudes e barbaridades acabam metabolizadas no jeitinho das formalidades.
Faz lembrar o Inspetor Javert de Os Miseráveis de Victor Hugo, que seguiu até pelos esgotos de Paris o Jean Valjean, acusado de roubar um pão em estado famélico. Sua persistência lembra a do policial com uma diferença humana: o inspetor era um escravo da ordem e nem cogitava de examinar a subjetividade que levara Valjean à infração penal, hoje em qualquer código moderno de Criminalística protegida com a dirimente do estado de necessidade. Francisco é o servidor dedicado que viu a roubalheira por dentro e não se conforma com a hipótese de isso cair no esquecimento ou ser submetido aos panos quentes das acomodações ou ainda ficar hibernado num aterro sanitário de todas as formas de sordidez empregadas na destruição do banco público.
Ele poderia dizer, se lhe repetissem a comparação, que o Inspetor Javert (no cinema admiravelmente interpretado por Charles Laughton) perseguiu um pobre coitado que roubou um pão para saciar a fome de um familiar e esse pessoal do Banestado, os da Leasing e da Corretora, afanou mais de um milhão de padarias.
Não me espantarei se amanhã, véspera do leilão-doação, o Francisco Jawsnicker, com a indignação santa, estiver, com o dom da ubiquidade, ao mesmo tempo, em várias antesalas do Ministério Público Estadual e Federal levando novas provas contra as ações do corsarismo que levou o Banestado ao caos.
Essa linha de quixotismo se opõe a tudo o que é pragmático e acomodatício e abre, como expressão comportamental, a sensibilidade dos outros para atos de resistência, mesmo quando tudo pareça perdido. Vale pela esperança.
BENTO E NEY Em 1961, logo depois da renúncia de Jânio, tive oportunidade de entrevistar duas figuras maiores da política sobre o mesmo tema: Munhoz da Rocha e seu ex-cunhado e criatura política Ney Braga. Ergui a bola para o Bento com as habilidades do Maurício da seleção de vôlei ao perguntar-lhe se não havia ainda desembarcado do Tamandaré (ele e outros ministros do governo Carlos Luz vagaram na belonave em protesto contra a intervenção militar de Lott e Denis pela Baía da Guanabara) e ele disse que estava com a mesma bandeira, a da legalidade, agora em defesa da posse de João Goulart.
Com Ney foi diferente. Para mostrar coloquialidade, ele, no andamento de sua fala, disse ter estranhado que eu não aceitasse o primado do moralismo numa das minhas intervenções em programa de debates. Parti para a lógica formal e o silogismo: O senhor defende mudanças, reformas estruturais, a cogestão nas empresas, voto do analfabeto, reforma agrária. A moral dominante é a que se opõe a essas mudanças, portanto é moral velha, circunstancial.
Ney foi agilíssimo em defesa dos interesses do Paraná: saía de uma aliança com Jânio (tanto que apelou para que o renunciante voltasse atrás) e se viu impelido ao atuar rapidamente para compor com a União e passou a defender, como líder nacional do PDC, não apenas as reformas como o fim do parlamentarismo que manietava as ações do novo presidente. Esse praticismo irritava os falsos idealistas, muitos dos quais fizeram barragem na chamada linha dura do Exército contra a sua ascensão política.
GUSTAVO Um dos meus orgulhos pessoais é o de ter atuado junto com o padre Gustavo Pereira, hoje celebrando 90 anos, no agito da reforma universitária em 1961-62. Lembro de alguns que estavam na luta: o geneticista Newton Freire-Maia, o jurista Vieira Neto, o médico Amilcar Gigante, o geólogo Riad Salamuni e tantos outros. No dia 20 ele recebe o Prêmio Heleno Fragoso pelos Direitos Humanos junto com o professor Antonio Cançado Trindade (São José da Costa Rica), Eduardo Virmond (ex presidente da OAB) e o colunista Dino Almeida.
REAÇÃO Anunciava-se, à boca pequena, meio sussurrado, regougado, como se fosse o segredo da bomba nuclear, uma pesquisa em que a diferença entre Ângelo Vanhoni e Cassio Taniguchi caíra para 7 pontos, um sinal expressivo de reversão de expectativas. A Pesquisa Folha, não esqueçamos, dera apenas 9 pontos de diferença, bem mais aceitável que os vinte do DataFolha.
Haja o que houver as cautelas estão tomadas: Vanhoni esconde Lula como Cassio faz o mesmo com Lerner e Greca. Um e outros são como o beijo da morte ou ainda o abraço do afogado. No site do Hora H na Internet a resposta do público foi retumbante a respeito de quem mais pesava contra os dois candidatos: Lerner para Cassio e o MST para Vanhoni.
O CAOS Pouco antes de o Banestado sofrer a intervenção do Banco Central e que queimava as suas energias no interbancário para sustentá-lo em pé assim mesmo o governo obrigou-o ao gasto extremo de mais de R$ 40 milhões em propaganda. Só falta alegarem que esse investimento visava sustentar a credibilidade.
O RIO O rio, seja ele Barigui ou Belém, Ivo ou Juvevê, é o estuário de todos os crimes contra o meio ambiente. Na primeira gestão Lerner, em cima do discurso ambientalista, o prefeito falou que devolveria, em breve, lambaris do rabo vermelho ao Belém, cuja cabeceira fica na Barreirinha e um dos pontos de controle de vazão no Parque São Lourenço. Até hoje se espera o cumprimento da promessa demagógica. Agora Cassio argumenta que tem gente pescando no Barigui, o que também não é novidade. Da janela de sua casa, em Almirante Tamandaré, Fábio Campana, jornalista, está cansado de ver japoneses com vara telescópica fisgando peixes no Barigui. Nenhum deles é o candidato.





