Luiz Geraldo Mazza
Com a perspectiva de vitórias oposicionistas nos principais municípios (Curitiba não é exceção, mas ainda há espaço de manobra para o situacionismo), surge uma nova bandeira: a do retorno da autonomia do serviços de saneamento que sofreu a imposição na ditadura militar do Planasa, que impunha a força hipertrofiada de um modelo ao gosto do centralismo. Ao contrário de Curitiba, que pouco fez por água e esgotos, já que tal tarefa cabia ao Estado, através da autarquia Departamento de Água e Esgotos, Londrina e Maringá queimaram muito dos seus recursos para montar seus aparatos de saneamento básico.
Em Londrina, o candidato do PT, Nedson Micheleti, acatando sugestão de Cheida, desfraldou a bandeira do retorno do sistema ao município, retirando-o do domínio da Sanepar, que o governo leiloeiro já está entregando, numa operação de nada sutil, a um grupo transnacional, o que é bem a mania da moda.
Para conter os hormônios da desagregação, o hábito do desmanche (aquele dos automóveis operava por via alternativa, ainda que institucionalizado) dos órgãos públicos, visível na onda das organizações sociais autônomas e nessa operação de lançar sal na lesma que Lerner faz com o Banestado, a Sanepar e a Copel nossa, essa sim, empresa modelo mais do que todas da área privada, o impulso é pedagógico e terapêutico.
Afinal, os municípios, cuja autonomia foi mandada às favas em nome de uma adesão voluntária (o que nada significa numa ditadura e que fez da tortura à oposição um ritual de rotina), fizeram enormes investimentos, que agora irão engordar o faturamento das multinacionais num setor de forte implicação social, em virtude da prevenção de doenças de massa, notadamente aquelas de origem hídrica.
Se é uma contradição em termos imaginar a lógica do capitalismo, notadamente do nosso, por seu caráter, a um só tempo tardio e primitivo, aplicada à área social, num setor estratégico por seu traço preventivo, indispensável ainda é a resistência da sociedade para evitar que seja lesada. Não adianta deixar para a 25ª hora a reação de mais consistência, como acontece com o Banestado.
É preciso que o assunto seja tema das discussões do segundo turno, mesmo que isso signifique mais uma perda de sono dos governantes aduzida ao pânico ante os resultados eleitorais do primeiro turno e que dificilmente escapam de novas frustrações. Só em Curitiba há alguma esperança, desde, é claro, que imagens como as de Lerner e Rafael Greca deixem de fortalecer a oposição.
BIZARRICE
Curitiba dizia aquele empolgado lernerista é mais do que o último bastião do nosso grupo. É muito mais do que isso. É um Sebastião que não pode ser tratado como diminutivo ou apelido
AXIOMA Das duas uma: ou o nosso jornalismo policial é desatento, ou é omisso. Será possível que nem ao menos ninguém desconfiava dos vínculos entre a Segurança e o crime organizado não apenas no narcotráfico, mas ainda no desmanche de veículos? Se os deputados Ricardo Chab (relator) e Algaci Túlio (presidente) da CPI estadual, atilados repórteres da área, só agora tomaram conhecimento de toda a série de desvios, é porque estavam desatentos ou com um lapso de memória, igual aquele que tomou conta do Vanhoni no debate.
GLOSA Pior não é manter a data do leilão do Banestado, mas o governo ficar.
Esse ficar tem o sentido do pseudo-namoro dos jovens.
PICHE O prefeito Cassio Taniguchi gravava cenas na sacada do Braz Hotel para a equipe da GW quando um grupo de jovens avistou o burgomestre, lá da frente da Livraria Curitiba, no outro lado da rua e o vaiou. Discretamente, mas vaiou. Menos forte do que a do jantar dos jornaleiros, mas era vaia.
SPRAY O que levou o governo a confirmar a data do leilão do banco pilhado: uma reação à ação popular assinada pelos senadores e o primeiro ex-presidente do Banestado na gestão Lerner, entendimento de que o novo adiamento da venda do Banespa abre condições para um melhor ágio e uma ducha de agua fria na greve. - Para a maioria dos observadores, o fato representa a pá de cal na candidatura de Cassio à reeleição, por causa das tensões que produzirá e de toda a fraude e corrupção já apurados. Os vícios eram encarados com tanta normalidade que até o bancário-deputado Ângelo Vanhoni deles se valeu. - O semanário Impacto deve trazer, esta semana, uma edição com alentado dossiê sobre as patologias do Banestado em mais de trinta páginas. - No caso, o governo pode ter uma carta na manga: a hipótese de uma decisão judicial, por liminar ou não, que adie o processo de privatização, o que o livraria das sanções do Banco Central e tiraria esse nó, duro de desatar, da campanha de Cassio. - Um detalhe curioso ontem no Calçadão: a rua estava cheia e Cassio por ela passou sem ser cumprimentado. - Ontem, tivemos também a prisão do Hissan Hussein Dehaini, apontado como um dos chefes do tráfico de drogas no Paraná, que deu grana pra campanha de Lerner e lhe cedeu avião, numa relação comercial. - Em São Paulo lançaram, como contrainformação, ação de malufistas, com slogans com a seguinte frase Marta eleita, Lula presidente. Esforço é para explorar o filão anti-Lula daquela cidade. Só falta o governo fazer o mesmo por aqui, o que pegará mal para gente que se autodeclara muito criativa e original.
FOLCLORE Quando Richa saiu candidato a governador, teve uma penetração bastante forte no Graciosa Country Club. O fundamento era no sentido de que o PMDB, então mais forte como frente oposicionista, incorporara vários dos quadros daquele clube granfo como Jaime Canet Júnior, Affonso Camargo, Luis Alberto Dalcanale, João Elísio e tantos outros. Agora é diferente: o PT corre o risco de virar maioria nos nichos da média e alta burguesia. Um Marx que não aceitaria isso seria o Groucho, que resistia à idéia de entrar num clube que o aceitasse.
CROMO Estrelas cadentes, quantas vezes nós vimos e fizemos o ritual de resmungar um desejo. Quantas auroras nos empolgaram. O que dizer agora do fato de que teremos mais dois dias apenas de convívio com essa doce Michele?
AFORÍSTICO O que é mais fácil: o Coritiba e o Londrina deixarem a lanterna ou o governo virar a eleição na Capital?





