Há um mito, constantemente levantado, em torno dos debates, segundo o qual só eles seriam capazes de estabelecer, a um só tempo, o contraste entre propostas diferenciadas e chegar, por essa via, à transparência. Na medida em que esses confrontos decalcam o adotado nos Estados Unidos percebe-se que a malha burocrática e reguladora asfixia a perspectiva dialética do contraditório. Tamanha é a camisa de força do processo que não apenas os participantes, mas também o pouco respeitado público, nada acrescentam.
Mais ágil, sob o ponto de vista da propaganda, o situacionismo imprimiu um jornal de campanha, um tablóide (‘‘Curitiba com voc꒒) com a manchete ‘‘Cassio vence o 1º debate e propõe avanço social’’. As pessoas olhavam a publicação e resmungavam: ‘‘Não foi o que eu vi na televisão’’. E lembravam que isso parecia, em tudo, resenha de jogo de futebol feita por apaixonados torcedores.
Não houve um vitorioso no debate da Band. Um empate em hesitações, nervosismo e um ou outro saque espirituoso. Um debate, cujo efeito mais forte fica na dependência de ‘‘pegadinhas’’, não é algo que se possa levar a sério e capaz de decidir a sorte de um pleito que no momento pende bastante para o candidato oposicionista que ganha de 56% a 36% no Datafolha e de 47,9% a 38,7% na Pesquisa Folha deste jornal, esta parecendo mais próxima da realidade.
O debate foi uma chatice monumental, como de resto tem sido a campanha, na qual se torna cada vez mais difícil saber se o Cassio é que virou Vanhoni ou o contrário. O vencedor foi o moderador José Wille porque interpretou o seu papel com maior autenticidade do que os candidatos. Algo assim como se num jogo de futebol a maior figura tivesse sido justamente o árbitro.
Claro que os debates são relevantes para depurar os exageros de edição do horário eleitoral ontem retomado. Desse jeito, porém, com essa amenidade, é melhor que não sejam realizados, pois, como se viu anteontem, não esclarecem, não educam e, até pelo contrário, ‘‘despolitizam’’. O regimento interno é um antígeno contra o confronto, imposição para se ter uma idéia do diferencial que há entre um e outro candidato, o que em momento algum ficou claro.AXIOMA
Até a história de mudar os símbolos do PT (esconder a bandeira, ocultar o Lula, amarelar a estrela) é copiada: na novela ‘‘O Rei do Gado’’ o MST do Regino, anagrama disfarçado de Rainha, não usava a bandeira vermelha
BIZARRICE Ausência de imaginação é uma das marcas da campanha: jornalzinho ‘‘Curitiba com voc꒒ disse em manchete que Cassio venceu o debate. Tentam buscar aí um consolo para a lavada nas pesquisas.
Pagar fortunas para esse tipo de ‘‘genialidade’’ é de fato subversão. Houve empate, segundo a jornalista Mari Tortato, de 0 a 0 ou, na melhor das hipóteses, 1 a 1. Acrescento que os dois gols foram contra.
GLOSA Lerner deu uma ordem a seus comandados: ‘‘Perder a eleição, sim; mas sem jamais perder a elegância, o que seria mil vezes pior’’. De uma eleição, que tinha tudo para ser ‘‘quente’’, há condições para imperar a frescura. E essa é uma disposição dos dois lados.
EPIGRAMA Na balança do desgaste, Lula é suficiente para segurar a dupla Lerner-Rafael Greca ou ainda fica desfrutando de algum superávit?
METÁFORA O debate entre Cassio Taniguchi e Ângelo Vanhoni não tinha tempero algum e mais parecia comida de hospital. Pra quem gosta, um prato cheio.
SPRAY O lapso mnemônico de Vanhoni, ao não perceber o significado de uma sigla burocrática (Procel), deu a impressão de uma vitória para os situacionistas. - A cena não tem importância alguma, como seria o caso de Vanhoni perguntar o que significam os códigos do Banestado (Geari, Gecon, Dejad, Gereg) por exemplo a Taniguchi, o que faria os seus seus olhos desamendoarem. - Fator Lerner, segundo analistas, é fundamental para explicar a queda de Cassio. Que se aprofunda com a inserção de Rafael Greca. - Mais um descarrilamento de comboio da América Latina Logística nas proximidades de Fernandes Pinheiro é um contraponto na entrevista otimista do presidente do BNDES à ‘‘Veja’’ nas Páginas Amarelas sobre as privatizações. - Por falar nisso, dá para lembrar de uma ironia: com os R$ 500 milhões que o governo ‘‘queimou’’ em propaganda nos seus primeiros quatro anos daria para salvar a Copel de ir de cambulhada no leilão do Banestado. - O que há de policiais militares na campanha de Vanhoni é simplesmente assustador, mas inevitável: o governo os está humilhando e uma das formas pedagógicas de reagir é justamente a de votar na oposição. - Esse tipo de vingança já operou no primeiro turno e será de efeitos ainda mais devastadores no segundo. - Um anúncio do Banco do Brasil no jornal da Associação dos Magistrados do Paraná (AMP), deu margem a muita especulação no sentido de que a magistratura mudaria de banco oficial para os chamados depósitos judiciais. Quando da greve contra o governo Requião, os depósitos saíram do Banestado para o Banco do Brasil. Há precedentes, portanto. - Uma portaria do Tribunal de Justiça (número 1.010) dispensa, a partir de 19 de novembro, magistrados que usufruirão os dias restantes de férias para um evento da entidade nacional em Maceió. É o time de futebol suíço que vai disputar o certame nacional da categoria. Diz o juiz aposentado Elísio Marques que o Raul Gutmann, seu colega de bancos acadêmicos, zagueiro do time, ‘‘só bate do hipotálamo para baixo’’. Beque joga de beca?
FOLCLORE Um político teve um sonho incrível transplantado da Iugoslávia para nós: o povão na rua exigindo a saída de Lerner. Este e mais alguns dos seus auxiliares quiseram sair de helicóptero, mas o peso não permitia a decolagem normal. Aí veio a informação terrível de que um baixinho, com roupa militar, de campanha, camuflada, sequestrara Sua Excelência. Se era baixinho, e com todo esse disfarce, só poderia ser o Cândido Gomes Chagas, dando uma de Rambo.
CROMO O pior que pode acontecer com um desses políticos da moda, que acaba de ser tocado pela mosca azul, é descobrir que o inseto era uma varejeira daquelas que bota berne em gente ou bicho.
AFORÍSTICO Aquela festa da agência Loducca era uma espécie de ‘‘Baile da Ilha Fiscal’’ do atual grupo no poder estadual.

mockup