Luiz Geraldo Mazza
Houve um tempo em que a imagem do Paraná, interna e externamente, era a mesma e os teasers, sugerindo idéia-força, embalavam os nossos mitos: Paraná, terra de todas as gentes, Somos todos uma só força. Hoje tudo mudou, a mídia é menos tutelada. Seria inimaginável a publicação de reportagens como as que têm saído aqui e na imprensa nacional sobre o Banestado. Não porque não houvesse irregularidades, simplesmente não vinham à tona.
Se houver um resquício de bom senso no governo, a despeito da forma xiita, passional, como está agindo o secretário da Fazenda querendo o leilão o mais rapidamente possível, ele transfere o processo de privatização. Afinal o alvo da privatização está com as suas vísceras à mostra com essas publicações e isso em nada favorece qualquer tipo de avaliação acima do preço mínimo.
As mentiras ditas até agora com o propósito de safar as responsabilidades dos que detonaram a Leasing se dissolvem por falta de fundamento: no final de 1997 o presidente Neco Garcia, do Banestado, encaminhou à Procuradoria da República o relatório de auditoria feito. O acusado, Osvaldo Santos, apesar disso, iria permanecer por mais tempo na secretaria do Esporte e Turismo, o que pode ser interpretado como um ato claro de convalidação ao que praticara. Dessa teia o governo estadual jamais se libertará. O secretário da Fazenda de então, Miguel Salomão, cumpriu o seu papel, tanto nesse caso como no do Clube dos 60, aquela malandragem de acertos sobre o ICMS em Dívida Ativa. Foram reportagens desta Folha que levaram o Ministério Público estadual a entrar em campo.
Vivemos um momento mais democrático e isso porque as amarras em cima dos meios de comunicação social já não são inflexíveis como anteriormente. Parece que os estrategistas políticos do Palácio Iguaçu não o perceberam. Se é possível obrigar deputados ao recuo na CPI Copel-Sercomtel como aconteceu já não há como conter um Ministério Público renovado (tanto o estadual como o federal) e muito menos represar as informações. Hoje a badalação não é mais unânime. O quadro mudou. E quem não o percebeu vai dançar.
E reconheçamos os méritos, tanto da Associação Comercial do Paraná como a entidade dos municípios, de todos, enfim, que pediram o adiamento desse desatroso leilão eivado de suspeição. Também deve ser louvado o esforço do senador Osmar Dias que tenta a CPI dos bancos estaduais, o que é por demais necessário. No Banco Central há procedimentos investigatórios sobre todos eles e no caso do Banestado em cima de um período que vai de 1985 aos nossos dias.
XADREZ A troco de que teria a coligação oficial pedido impugnações em torno do resultado da eleição em Curitiba? Pensamento comum da maioria é no sentido de que apostam no debate de hoje na Band como o início da recuperação, uma vez que é visível o aquecimento da candidatura oposicionista. Tentam, igualmente, ganhar tempo para um adiamento da campanha gratuita.
Se de um lado mostra sinais de fragilidade, de outro gera sustos, de certa forma, nos adversários que já começam a acionar uma visão conspiratória das coisas, acreditando que há mais do que uma carta na manga do oficialismo.
ANALOGIA Há quem esteja vendo nessa eleição curitibana um repeteco do havido em 1985 no divisor radical de águas entre Requião e Lerner. Naquele tempo a imagem do atual governador era outra e a sua mitologia recentemente assentada e isso exigiu que as forças contrárias (Richa com o Ibope lá em cima e a caneta cheia e toda a energia da derrubada do PDS) tomassem todas as cautelas ao ponto de promoverem a vinda de 50 mil pessoas do interior, usando o poder do DSTC do DER com milhares de ônibus invadindo a Capital para as operações, aquele tempo menos combatidas, de boca-de-urna.
Houve acusação de que muitas dessas pessoas chegaram ao cúmulo de votar, o que deu margem a muitas impugnações. Requião venceu por menos de 19 mil votos e Richa ganhou todas, a de Curitiba e mais a de 12 municípios da área de segurança nacional. Hoje os que estão no governo se sentem acuados como se uma invasão do Centro Cívico, nos moldes da ocorrida na Iugoslávia, estivesse por acontecer. Um detalhe: o triunfalismo migrou do governo para a oposição.
REPENTE O aluguel do luxuoso edifício da embaixada brasileira na Alemanha deu margem a muita sátira. O Jota Carlos, com sua obstinada indisposição com o nosso presidente, saiu-se com esta: Fernando quer compensada// locação a preço vil// para pagar a embaixada// vai alugar o Brasil!// E arrematou com outra ainda se referindo ao périplo europeu: Da Holanda o Fernandinho// de Cervantes traz o mote// importará um moinho// pro Magalhães ser Quixote.//
Com o corpo de ACM lhe assentaria melhor a condição de Sancho Pança.
PARADIGMA Além de ser considerado modelo pela ONU, agora é o Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão que pretende aproveitar, em todo o País, a linha de programas desenvolvidos pelo Paranacidade para o fortalecimento institucional e capacitação dos municípios.
Curioso: o Paranacidade, que funciona, preocupa o Tribunal de Contas e o Banestado, que é assaltado por dentro e por fora, não o afeta.
Por falar em TC só falta colocar em gabinetes de conselheiros as preferências políticas com material de divulgação eleitoral. Seria mais honesto e sensato do que a tentativa de esconder o óbvio de uma participação indevida e ilegal.
IDENTIFICAÇÃO Um dos efeitos da comunicação de massa, especialmente novelas, é o da identificação heróica entre o público e certos personagens. A Capitu, não a original de Machado de Assis, mas a da novela das oito de Laços de família, é garota de programa e uma burguesa com a visão de amparo familiar e consumista, ambivalente, dividida. Com a notícia de que ganha R$ 1,5 mil por programa incendeia a cuca das mocinhas desse País ao receber um salário de executivo (R$ 15 mil), embora se trate de uma executada. A mensagem penetra todas as classes sociais e invade o imaginário da pobreza que já se atirou numa prostituição sem glamour. Aí se percebe a mancada daquela frase do Brecht sobre o analfabeto político de ele ser o culpado da prostituição. Visão muito acanhada, primária (pega mal num gênio), melodramática, quase piegas.





