Uma série de jargões dos tempos da Guerra Fria começa a ser acionada como se fosse novidade ‘‘reciclada’’. O senador Osmar Dias propõe uma sessão de autocrítica no PSDB, ritual muito comum no Partido Comunista quando se tornou mais maleável, sem abrir mão, no entanto, do centralismo democrático. Aliás, mais ou menos na linha dessa decisão de Alvaro Dias em apoiar Vanhoni por um ‘‘soviete’’ de circunstância sem ouvir os vereadores, que são a base visível do partido na Câmara de Curitiba.
De Alvaro e Roberto Requião, como partidários, só se pode esperar esse tipo de atitude. No discurso deles a palavra participação é uma constante, a teoria nada tendo a ver com a prática. O Forte Netto, que não é um contaminado como os políticos, fez o discurso sincero da participação, de um projeto diferenciado de gestão compartilhada. Se a bancada de vereadores não foi ouvida, como é que se pode falar em participação?
Andando de flor em flor como uma abelha para polinizar as flores partidárias disponíveis que iam do MDB, PMDB, PP, PST e agora PSDB, Alvaro, volta e meia, exibe o seu desconforto com a direção nacional. O presidente FHC teria lamentado a decisão do diretório regional pessoalmente a Taniguchi. Essas pessoas – ele, Requião e o Lerner – se colocam acima e além dos partidos. Requião transformou o PMDB numa extensão do clã familiar: ele manda no estadual, o irmão no municipal, instância que o levou à candidatura malograda.
De Lerner tem o caso da omissão na campanha do candidato do PDT à Presidência da República, Leonel Brizola. De Alvaro tem aquele episódio famoso de sua candidatura presidencial na convenção do PMDB: ficou em último e não respeitou o veredito da convenção que aprovou a dobradinha Ulysses-Waldir Pires. E o Requião foi para a disputa interna com Quércia contra o qual perdeu e depois obviamente não o apoiou. Todos se acham acima de tudo. E ainda se dizem, e de forma insistente, habilitados à democracia.
O apoio do PSDB é normal, tendência que se repetirá em outros pontos do País, mas não ouvir os vereadores sob um fundamento atual é esquecer que Alvaro se fez um senador quase biônico por causa de um acordo branco, que é a mistificação máxima, e essa bancada legislativa foi eleita dois anos antes daquele acerto e, portanto, sob a mesma inspiração.
Nesse aspecto da volatilidade partidária, Angelo Vanhoni tem os méritos de não ter renegado o PT, embora agora, por fisiologismo, o oculte.
BIZARRICE
Anunciaram nomes de peso para comandar o segundo turno de Taniguchi. A lista indicava gente mais habilitada a um torneio de sumô do que preparada para os padecimentos de uma campanha que se anuncia difícil
AXIOMA Campo Mourão, que já foi cidade-modelo quando o hoje ministro Milton Luiz Pereira do STJ era prefeito, é um referencial político deste momento: lá o PPS, de Rubens Bueno, apoiando o Tauillo Tezelli, derrotou a aliança Lerner, Greca, Alvaro, Osmar, Roberto Requião. Tezelli ficou com 58,78% dos votos.
O PPS tinha 4 vereadores, hoje elegeu 209, 15 prefeitos e 28 como vice. E está na chapa do Vanhoni para o segundo turno. Nacionalmente, o PPS elegeu 163 prefeitos e fez 3,246 milhões de votos. Em São Paulo elegeu 31 prefeitos.
GLOSA Paraná Urbano e Paranacidade foram apontados como paradigmas pela ONU como referenciais de descentralização administrativa. Mas o nosso magnífico Tribunal de Contas, que nada descobriu de Londrina e nada enxergou na roubalheira no Banestado, pretende enquadrá-los às suas normas. É de matar de rir tanto farisaísmo.
EPIGRAMA A soberba era o apanágio da situação. Agora ‘‘pegou’’ na oposição. O Angelo Vanhoni parecia um príncipe decadente, ontem, tratando mal jornalistas na Assembléia Legislativa como se fossem seus vassalos desprezíveis. Quer estar na mídia e fazer o gênero Felipão?
SPRAY Se fosse feita uma pesquisa ontem, o Vanhoni sairia na frente. Essa é uma convicção generalizada, mas como o candidato das oposições começa a fazer o salto alto e o prepotente a justiça poética pode atingi-lo. Se trouxer Lula a Curitiba é o suficiente e estará punido. - Nos arraiais do governo prevalece o pânico. E querem colocar como coordenador o Heinz Herwig, o homem do pedágio e só falta agora dizerem que vai cobrar ‘‘pedágio’’ dos empresários para a contribuição pró-Cassio. - O PT está disposto a acabar com a terceirização dos carros alugados (até Requião a manteve), o que faz das empresas Cotrans e Ouro Verde contribuintes certas do caixa situacionista. É a dialética do terror. - A vaidade dos políticos é orgânica: enquanto uns acham que a entrada de Lerner afundou Taniguchi, os áulicos do governo entendem o contrário e que se o véio entra antes a vitória sairia no primeiro turno. A sabedoria do puxa-saco é algo que a ciência política ainda não avaliou. - A nostalgia é permanente: na ânsia de buscar saídas para a crise pensaram em Saul Raiz, não o de agora, mas aquele dos anos 60, que chegou a ‘‘sequestrar’’ Jânio Quadros e levou-o ao comitê de Ney Braga, temendo que os adversários o fizessem. - Saul foi um grande executivo de campanha, de estilo determinado e que teria extrema dificuldade em conviver com a ala carnavalesca do comitê. - Vou dar aqui um conselho ao governo: não tentem condicionar os meios de comunicação, como sempre fizeram, no processo eleitoral. É verdade que a oposição cresceu em função da liberdade de informação, que desgastou o sistema, mas estava aberta sempre para ouvir as razões do Estado, cliente dominante na área, o que, convenhamos, não é bom para a democracia.
FOLCLORE Paixão política é a do padeiro Vitor Cantador, de Araucária. Desde a derrota de Rizio Wachowski ele solta, de dez em dez minutos, foguetes com a compulsão e a alegria do Gerson Guelmann. Sua panificadora fica bem na frente da sede da prefeitura. Dias passados, um guarda urbano foi reclamar o barulho e ele se saiu com essa: ‘‘Quando Rizio estava na frente da pesquisa, eles gastavam foguete com dinheiro público. Eu faço com o meu dinheiro!’’
CROMO A rapariga em flor, na praça, lendo Heidegger como se suspirasse.
AFORÍSTICO A contagem regressiva acompanha hoje o bater dos corações nesse final de campanha que lembra o Baile da Ilha Fiscal.

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