Preocupado em resolver a eleição de Curitiba no primeiro turno, o pessoal da área de ‘‘marketing’’ da coligação oficial acreditou ter produzido mais uma genialidade com a expressão ‘‘Japa Jᒒ. Estavam dispostos a adotar o apelo quando alguém, menos entusiasta, mais articulado, alertou que poderia transformar-se em ‘‘Japa Já Foi’’. O que daria maior embalo à oposição.
Aliás, o pessoal de propaganda parece não ter memória, tanto que permitiu que o deputado federal Affonso Camargo usasse a infeliz expressão ‘‘Cassio ou um salto no escuro’’, frase usada na eleição de 1982 pelo PDS contra Richa, ao bolarem um outdoor em que se fazia o alerta: ‘‘Saul Raiz ou um salto no escuro’’. A oposição colocou uma vírgula depois do Raiz e tirou o ‘‘ou’’. Ficou assim: ‘‘Saul Raiz, um salto no escuro’’. Se fosse assalto, engrossava.
MOLECAGEM
Uma jogada bem de vândalo foi feita na eleição de 82: puseram a bela residência que Saul Raiz tinha no Jardim Social num classificado de jornal à venda a um preço absurdamente baixo, apenas para fazer ‘‘guerra de nervos’’.
MIMETISMO Não é só candidato que se aplica na prática do mimetismo, como se vê na calma falsa de Cassio Taniguchi e na suavidade dissimulada do Ângelo Vanhoni, com seus programas que o senador Requião diz imitarem os da Xuxa. Um dos macetes, muito comuns, para fugir aos rigores da Lei Seca (antes a aplicavam desde a véspera do pleito), era o de servir a cerveja em xícara de café para simular que não se estava usando bebida alcoólica.
COMÍCIO O parâmetro para ver quem estava melhor num pleito, lá pelos anos 40 até 60, era a dimensão dos comícios. As pesquisas ainda não operavam com a frequência de agora e, muito menos, com seu grau de eficiência. Media-se, então, a possibilidade de um candidato ou partido pela presença de público nas grandes arregimentações. Lembro que, na primeira eleição presidencial, aqui em Curitiba, logo depois da derrubada da ditadura, em consequência também do fim da 2ª Guerra Mundial, foi a vibração do comício do Brigadeiro Eduardo Gomes, da UDN, que enfrentava o generalíssimo Eurico Gaspar Dutra, e cujo ‘‘meeting’’ se mostrou bem mais fraco. Na apuração, Dutra levou a melhor. Pudera: o ditador, derrubado, Getúlio Vargas, o apoiou.
SLOGANS Carlos Lacerda, o jornalista vulcânico, chamava o candidato do PCB, o engenheiro Yedo Fiuza, funcionário do DNER, de ‘‘o rato Fiuza’’. Nos comícios dos comunas – eu estava num deles, na Praça Osório – e ouvi a palavra de ordem ‘‘Yedo, Yedo. Yedo não tem medo!’’
Já para o Brigadeiro, a saudação das mulheres, naquele tempo nada ousadas, era ‘‘Brigadeiro, Brigadeiro. É bonito e é solteiro!’’
O RETRATO Durante a ditadura Vargas, em certos aspectos tão contundente quanto a de 64, os estabelecimentos comerciais e industriais e até residências privadas ostentavam o retrato em perfil do presidente e com a frase embaixo ‘‘O Brasil confia no Chefe da Nação’’. Quando da queda do regime, não diminuiu o fascínio do público por Getúlio e, ao candidatar-se, em 1950, houve a marchinha de Carnaval ‘‘O Retrato do Velho’’ que era assim: ‘‘Bota o retrato do Velho// outra vez// Bota no mesmo lugar// o sorriso do Velhinho// faz a gente trabalhar’’. O PMDB, quando da retomada das eleições presidenciais, escolheu Ulysses Guimarães (Alvaro Dias concorreu, ficou em último e se recusou a participar da campanha) e tentaram usar a marchinha. Só que não pegava como no caso original, embora o retrato de Ulysses tivesse, mais de uma vez, decorado as paredes da Câmara dos Deputados.
IGREJA Durante muito tempo, quando nem se pensava em comunidades eclesiais de base e Teologia da Libertação, o catolicismo era extremamente reacionário, conservador e atuava através da Liga Eleitoral Católica (LEC). Suspeitas de positivismo, adesão maçônica, livre pensamento e agnosticismo eram fatais para os candidatos que ela pretendia vetar em suas listagens. Fizeram isso com o João Café Filho, potiguar, eleito como vice de Getúlio em 1950. Nada impediu a sua eleição, apesar da alaúsa feita.
Um outro, visadíssimo, e por causa da sua pregação divorcista, foi o deputado Nelson Carneiro. Ganhou a causa, lenta e gradualmente. Primeiro, com a aprovação dos ‘‘direitos da companheira’’ e, mais tarde, com a legislação do divórcio.
A Igreja perde aqui e em Roma as batalhas contra a modernidade: primeiro com o divórcio, depois com o aborto. Aliás tentam fazer terrorismo com a candidata do PT, Marta Suplicy, em São Paulo, justamente por causa da adesão a uma tese que já consta da legislação brasileira e que os catolicões não querem ver aplicada e instrumentada pela rede pública do SUS.
APURAÇÃO Na eleição senatorial de Richa, que se deve aos votos de Enéas Faria na sublegenda, a Arena tentou monitorar, via rádio e televisão, a marcha das apurações, de forma bem manipulada, com o propósito de segurar os fiscais do partido em seus postos. É que a disputa nas proporcionais estava quase na linha do empate: deu 15 federais para o MDB e 15 para a Arena; já nos estaduais a Arena teve mais dois deputados do que o MDB. A operação funcionou.
A Arena não ganhou o Senado, o que mudaria a história do Paraná, já que José Richa não teria a vantagem desse precedente, pela resistência de Canet Júnior, o governador, em aceitar Cândido Martins de Oliveira na sublegenda de Túlio Vargas. Túlio fez mais votos do que Richa, mas a soma de Enéas o derrotou.
Nessa época eu dirigia o jornalismo do Canal 12 e o Carlos Nasser veio com carta branca para coordenar o pleito na emissora. Dei uma notícia da vitória de Richa em Londrina e o esquemão foi por água abaixo, ao menos na perspectiva do governo, furioso com a informação que cortava o triunfalismo.
Um dos dados curiosos foi a presença de Aníbal Khury como comentarista de política e que dava a relação dos prováveis eleitos. Nasser pediu a Aníbal que não incluísse Nelson Bufara, seu parente, entre os eleitos e o homem entrou em órbita sem saber que se tratava apenas de uma perfídia combinada.

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