Não é preciso ser um especialista em semiologia, a ciência dos sinais e que em termos médicos corresponde à referência dos sintomas, para perceber que o situacionismo está dando indícios seguidos de descontrole. O último deles foi essa declaração de Cassio Taniguchi à TV Iguaçu no sentido de que ficará até o fim de sua gestão na Prefeitura de Curitiba, recusando qualquer hipótese de disputar o governo, em cujo conjunto aparece, disparadamente, como o melhor candidato. Soluções tipo Alceni Guerra e Rafael Greca gerariam tumulto, aquele menos do que este porque as denúncias que fizeram contra ele se mostraram injustas.
Se o PFL depois de adotar uma linha de afirmação autonomista, dispensando padrinhos (isso saturou nos casos do PMDB e PSDB), resolve gravar depoimentos de Jaime Lerner é porque entrou em pânico e já não sabe o que fazer, embora a propalada capacidade de sensoreamento existente no corpo de alquimistas e marquetólogos e nas pesquisas qualitativas e de ‘‘recall’’ nas quais nenhum ruído escapa, mesmo que seja um pum de debutante. É necessário, no entanto, adotar a postura do guarda solene do Palácio de Buckingan com um esquilo no meio das calças à procura de nozes nas partes baixas: altivez sempre, jamais o abatimento, que é o apanágio dos despojados de convicções.
O curioso é imaginar a convocação de um sábio em esoterismos eleitorais ao comitê governista. O cara, adotando uma postura etérea, mas com o inevitável sinal da modernidade com a pasta 007, passa a mão na barba densa, com um ar entre o místico e o do executivo de transnacional, e passa a dar conselhos: ‘‘Em primeiro lugar, fugir à perplexidade, que ela é paralisante’’ e outras pérolas como: ‘‘Indispensável contornar a inércia’’ ou ainda: ‘‘Ir sempre ao confronto, se ele se mostrar indesviável.’’ Cada frase do guru o valor de um ‘‘instante’’ da Capitu da telenovela: entre R$ 1,5 mil e R$ 2 mil.
Ora mais próximo do Acácio, ora do Pacheco, da galeria de tipos de Eça de Queiroz, o gênio olha o estoque de foguetes do comitê e faz a frase final: ‘‘Pena que esse seja o único artifício disponível; precisamos de menos barulhentos como o silêncio do ninja, nosso candidato!’’ Como dizia Sartre, a vida é uma paixão enlouquecida. E todas essas coisas se não resolvem os problemas ao menos nos ajudam a driblar a inevitabilidade da morte.
Ainda bem que tudo é imaginário, sem o que nenhum de nós sobrevive.
BIZARRICE
Bem o que é mais relevante: o Ângelo Vanhoni chimarreando com o MST ou o Rafael Greca, então deputado estadual, dando ordens para que abrissem os portões do Legislativo na greve dos professores? Amanhã o chimarrão pode ser promocional se o MST ficar tão bonzinho quanto o Vanhoni e o Greca, antes visado por causa dos bingos, se transformar no defensor do magistério.
AXIOMA E esse anúncio, fascistóide, do Cassio Taniguchi na base do terror e assustando com o apelo ‘‘eles estão voltando’’. Seriam os comunistas ou a cúpula caída da Polícia Civil com a passagem da CPI das Drogas? É bem mais fácil esses do que aqueles retornarem.
GLOSA Mandar um político de Araucária ou Contenda plantar batatas é antes de tudo uma redundância.
EPIGRAMA O esporte brasileiro esteve à altura de suas cores na Austrália: verde demais para a competição e, ainda por cima, ‘‘amarelou’’.
SPRAY Palácio Iguaçu sofreu ontem com o foguetório em Araucária que comemorava a cassação do prefeito Rizio Wachowicz. - Agora a oposição anda atrás de fitas em que aparecem Lerner e Taniguchi apoiando o prefeito cassado. Aí vão lembrar que é tradição apoiar cassados e mostrarão, outra vez, o Belinati. - Se cesta básica derrubasse prefeito, como se deu em Araucária, ia haver mais vagas do que candidatos por todo esse Brasil. - Dona Fani Lerner, primeira-dama, declarou que espera a vitória no primeiro turno para que as mulheres possam ver com calma a novela das 8. Os ‘‘politicamente corretos’’ vão condená-la, mas expressou o que as pessoas inteligentes e de bom senso pensam: não dá para ‘‘aguentar’’ o nível dessa chatice monumental, mais cínica do que cívica. - O governador fez caminhada, ontem, na Vila Hauer pela reeleição de Cassio. Se fizer três dessas por dia pode ser que não melhore a sua gestão e nem a posição do prefeito, todavia há de afinar o seu perfil por certo. - Acabou a arrogância na coligação oficial: quem gravou depoimento ontem foi o deputado Luis Carlos Martins. Se os federais vierem a participar, o Rafael Greca não deixa de ser um nome de peso. - Genésio Natividade, que ajudou a derrubar o prefeito de Araucária, diz que agora vem para Curitiba para fazer o mesmo com Cassio Taniguchi. No estado de nervos que a turma anda vai dar mais distonia. - Vanhoni se explicou na televisão que foi ao acampamento do MST a pedido da própria governadora em exercício, Dona Emília. - Agora só falta um gênio de campanha oficial sugerir que ela desminta o candidato, esquecendo que a imagem da vice ainda está manchada pelas ocorrências havidas com o marido em Londrina. - Os ‘‘socialites’’ deveriam votar em massa no Dino Almeida por ser o mais dedicado porta-voz da área. Há indicações, no entanto, que vão dar muito voto para os ‘‘filhinhos de papai’’, titulares de campanhas milionárias. Certos interesses se sobrepõem à lealdade e à gratidão. - América Latina Logística, a privatizada da ferrovia, precisa benzer-se: ontem, depois de tantos acidentes, uma de suas composições paralisou a meio caminho (entre o Jardim Botânico e o Capão de Imbuia) porque a tração era insuficiente para a carga. Dá impressão de economia, o que pega tão mal como os descarrilamentos.
FOLCLORE Se congregado mariano tivesse a capacidade do Ângelo Vanhoni em parecer um beato, o marianismo tomava conta do País. Da mesma forma se o contribuinte estivesse tão satisfeito como o Cassio Taniguchi com suas obras ele se sentiria no paraíso.
CROMO De fax em fax, que faz e refaz, de apara em apara, que repara e separa, pois não é que a secretária Juliana, aqui do jornal, descobre nesse intento, base para poesia? E a poesia brota como amor-perfeito no improvisado canteiro de sua mesa de fax, agenda, telefone. Nos hiatos breves o poema nasce no caderninho de anotações.
AFORÍSTICO É chegada a hora do espanto: o governo se enerva, a oposição se imagina no pódio, o povo se sente órfão. Eis o clima para que o corpo a corpo da linguagem eleitoral se transforme em briga corporal.

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