Ninguém como o francês cultua o mito das barricadas. Mas eles têm história e a revolução que cristalizou a burguesia no poder. Que aliás não demorará muito mais tempo, já que tem um candidato em Curitiba que alerta ‘‘Contra burguês, vote 16!’’. Como, aliás, a esquerda festiva da UNE e do CPC, anos 60, criou uma linha de teatro engajado (Brecht rola no túmulo por essa adequação) e uma dessas tinha o título sugestivo de ‘‘Seu Edgar: a Mais Valia vai acabar’’. Seu Edgar já passou desta para a melhor e a mais valia está mais forte do que nunca. É possível que nem a peça tenha dado mais valia aos que a encenaram.
A cristalização mais recente foi a das manifestações contra o aumento do barril de petróleo. Foi rápida e rasteira e não contínua e histérica e que gerou a anomia em todo o País como a de 68.
Aqui nós também cultuamos o senso das barricadas e que, na maioria dos casos, acabam em ‘‘barrigadas’’ como ‘‘A guerra do pente’’ nos anos 50 que valeu pelo ‘‘frisson’’ com a sensação de que o populacho tomava as rédeas do poder ou no movimento para garantir a posse de Jango, depois da renúncia do caspento, em 1961. Iberê de Mattos, prefeito de Curitiba, general do povo, um populista visceral, ainda que com boa formação técnica, fez aqui o papel do Brizola que no Palácio Piratini aguentava o rojão e jogava a milicada na parede com o apoio da Brigada, seguido da adesão do 3º Exército. Ele mobilizou brigadas e forneceu armas à população para a resistência em meio a discursos candentes em defesa da ordem democrática.
Pois apesar de haver faturado toda a agitação, Iberê, candidato a deputado estadual pelo PTB de Getúlio e Jango, poucos meses depois, em 62, ficou quase em décimo na lista de suplentes. O exemplo não é didático o suficiente para os iluminados que acreditam que a maré da agitação popular é o melhor dos surfes e quase sempre ‘‘quebram a cara’’ como se fossem personagens da tragédia grega buscando opor-se ao seu fadário ou o Sísifo levando a rocha até o cume da montanha e depois voltando, por ter a pedra rolado ribanceira abaixo, até o sopé num movimento infinito. Sísifo – diz o realista – sifu.
RETRATO
Você quer fugir do mundo e de todos? Simples: espere que alguém o procure baseado num retrato falado
LAFAIETE Não o general francês, mas o nosso petista de carteirinha e professor universitário Lafaiete Neves, foi usado no noticiário político na condição de autor de uma frase que não proferiu a respeito da irritação de Requião, o original, sobre a campanha soft de Vanhoni: ‘‘Se for lona, vira circo; se for porta, vira hospício.’’ Seria algo sobre o destino do PMDB. Fafaiete nega qualquer vocação para ventríloquo e acha a frase mal-educada.
OTELO Outro dia lembrei da apresentação de ‘‘Otelo’’ de Shakespeare no Guaíra pela Companhia Tônia (Carrero), Celli (Adolpho) e Autran (Paulo). Quem roubou o espetáculo foi Felipe Wagner, integrante de ‘‘Os Jograis’’ de São Paulo no papel de Yago. O melhor, porém, estaria por acontecer: montaram um júri simulado para julgar Otelo e o advogado de defesa era o comunista Vieira Neto, brilhante, empolgado. No meio dos debates (o promotor era Araújo Lima) o réu saía do seu mutismo e declamava um trecho da peça. Paulo Autran até sentado como o réu abafava com suas expressões faciais. Não quero fazer o saudosista, mas não se bola, há muito tempo, nada tão criativo como esse tipo de iniciativa e que lotou o Guairão.
COMÍCIO Começar um discurso com o tom de apoteose, mais adequado ao seu final, foi algo que me surpreendeu num comício do Partido Social Democrático (PSD) em favor de Moisés Lupion pelo hoje diplomata aposentado (seu último posto foi como embaixador do Brasil em Roma com escalada antes em Assunção, Paraguai) Orlando Soares Carbonar, gênio da nossa geração. ‘‘Vitória... Consagração’’. As palavras, pausadas, em tom exaltado, abriam o discurso.
Tratadistas de oratória costumam impor a camisa-de-força do ritual que abre com o ‘‘exórdio’’. Esse estava com um jeito de fecho. ‘‘Os finalmente’’ – como diria o Odorico Paraguaçu – ‘‘bem à frente dos considerando...’’
MIMETISMO Entendo que a eleição em Curitiba está mais para Cassio Taniguchi. Além de a coligação de treze partidos, mais o governo, estadual e municipal, terem condição de recuperar a liderança com cinco a oito pontos na frente do conjunto da oposição, a disputa pelo segundo lugar pode ser autofágica.
De qualquer forma, a queda de Taniguchi foi um caso de justiça poética para os arrogantes e auto-suficientes ‘‘sacerdotes do templo’’ que por sua imponência desastrada respondem pelo ‘‘salto alto’’ num momento crucial do processo.
A carreata de ontem foi um esforço gigantesco para mostrar que o ‘‘moral’’ da tropa está elevado. Só que ela acaba de sair da batalha de Pirro. Igual ao cara que saiu de uma briga violenta inteirinho, sem um arranhão ou roupa amassada e chorava desesperadamente, enquanto outro todo arrebentado, rasgado, sangrando, dava risadas homéricas. Aí lhe perguntaram porque sorria. E ele que tinha as mãos rigidamente fechadas sugeria que guardava ali o troféu chave do seu adversário, o estro das partes baixas.
APELIDO Quando imperou, na transição dos anos 50 para os 60, a onda do psicologismo nas artes e na vida, havia um desses leitores doentios de Freud e Jung insuportável que ficava a descobrir complexos e fobias em todo o mundo. Ganhou um senhor apelido: Sidney Conflito.
Já o professor João Xavier Viana, que usava aparelhos contra a surdez, fazia um alertamento na Boca Maldita: ‘‘Não me venham dizer que o Tom Mix era veado que vocês me destroem boa parte do que houve de bom na minha infância.’’
Billy the Kid, em inúmeras versões, era produto desse tipo de especulação. O vitimalismo, tão adorado pelo brasileiro e tão presente nas instituições, vide Estatuto do Menor e do Adolescente, permeia a nossa concepção do mundo, começa na sarjeta e se espalha no estuário do divã do psicanalista.

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