Um dos aspectos mais positivos da campanha de Cassio Taniguchi era o de expor um raio de autonomia apreciável relativamente à liderança-matriz, a que está subordinado. No caso Jaime Lerner. Enquanto Maurício Requião aparecia, a rigor, como uma contrafação do irmão original, e Forte Netto, em que pese as suas qualificações, era um monitorado por Alvaro Dias, Cassio fazia carreira-solo, o que era bom para ele e melhor para Lerner, por não caracterizá-lo como um opressivo curador, como se dá nos casos do PMDB e do PSDB.
Quando a campanha se encaminha para a exaustão, eis que pinta no programa do PFL a figura do governador, alvo de todos os movimentos sociais como os de ontem do pessoal da Educação Especial, professores, viúvas do IPE, policiais militares e bancários, que prometem greve no Banestado. A inspiração dessa medida pode transformar o governador, hoje com um dos índices mais baixos de popularidade no Brasil, fato até então inédito em nossa história, numa espécie de Jim Jones da coligação, posto que o objetivo tenha sido justamente o contrário: o de mostrá-lo viçoso e com energia para ser lembrado na sucessão de FHC, delírio que acomete um setor palaciano, destituído de senso crítico, bajulador por incapacidade de fazer qualquer outra coisa e que acredita que o mundo começa e termina naquela ‘‘ilha’’ de áulicos.
Trata-se de uma pulsão lúdica, espécie de aposta no destino para afirmar depois que o governador teria detido a queda de Cassio Taniguchi e que, adejando como um anjo barroco ou um querubim, foragido de um spa, conduziria o National Kid ao parâmetro das sondagens intermediárias, muito próximas dos 60 pontos percentuais de intenções de votos. É, como toda aposta, uma jogada de alto risco, ainda que o candidato oficial seja disparadamente o melhor, que a sua campanha se mostre a mais profissional e melhor estruturada e, obviamente, que exista maior soma de recursos num tempo de aberta estiagem e Estado quebrado, aliás pelos pródigos do poder.
O diferencial que havia entre Cassio, Maurício e Forte desaparece, o que põe em destaque o segundo colocado nas pesquisas, Ângelo Vanhoni, que abriu mão de todas as tutelas, incluindo a do Lula, o magnetismo do precipício.
BIZARRICE
Se o governador afirmar que o 13º está garantido, quando não tem meios de assegurar o pagamento da folha de outubro, é o caso de lembrar, outra vez, daquela jogada do pedágio cortado ao meio e depois mais que duplicado
AXIOMA Providência salutar do pessoal da Educação Especial ao recusar em sua passeata de ontem a presença de candidatos à Prefeitura de Curitiba: o veto a Vanhoni foi o mais contundente, acusado de jamais ter defendido a causa e de oportunismo.
GLOSA Apavorado com a hipótese de ficar atrás do PT, o que parece fatal, o senador Requião quer carga contra os que ‘‘pasteurizam’’ a oposição. Com isso, como se já não bastasse a confusão dos três Requião, isola Taniguchi que pode, assim, tentar nova escalada.
EPIGRAMA Primeiro se descobre que Curitiba era o paraíso, por causa dos políticos, dos desmanches de automóveis. Agora, com a morte de um empresário da área de jogos de azar e controle de caça-níqueis eletrônicos, apura-se que os métodos da máfia estão aí se impondo com a força de lei.
NACIONALISMO Os irmãos Dias (os senadores Alvaro e Osmar) transformaram-se nos defensores do ‘‘poder nacional’’, um dos pontos da doutrina da Escola Superior de Guerra: o primeiro com a história de colocar a Petrobras fora de qualquer plano de privatização, o que não consta do programa do atual governo e o segundo com a imposição de o BNDES aplicar 85% dos seus recursos em empresas de capital nacional.
Não bastasse a utopia retrô do agrarismo do MST, temos agora um retorno aos anos 50 e à doutrina do ISEB, Instituto Superior de Estudos Brasileiros, a fábrica de ideologias, do qual nem os seus fundadores deixam de ter algum constrangimento quando se recordam dessa participação.
SPRAY O governo estadual, preocupado em que a fase final da eleição não seja contaminada pelas tensões sociais (a rigor ele as provoca), botou um esquema de bombeiros para funcionar em crises como a da Polícia Militar e tratou de apresentar proposta na assembléia do Clube dos Oficiais e pelo comandante da corporação. - E convocou também, afetado pelas pesquisas, o seu setor de incendiários para neutralizar ações oposicionistas. Às vezes tudo isso foge de controle e cabos eleitorais, juvenis, de Cassio e de Vanhoni andaram quebrando o pau na frente do Colégio Rio Branco, no Seminário. - Deputados estaduais e boa parte do secretariado estão no interior em campanha. - Já a vice governadora, Emília Belinati, não participa de nada ou pelo menos não se empenha nesses embates. - A convocação tardia de Lerner para que os deputados da base aliada se envolvessem na arrancada final não foi bem recebida porque concedeu privilégios de tratamento aos irmãos Carlos e Íris Simões, olhados como indispensáveis para o proselitismo, e isso provocou ciumeiras. - Muita gente valoriza demais o seu ‘‘passe’’ nessa hora, o que dá ao cenário um clima de MoliSre. O que não falta é Tartufo. - Matinhos virou praça de guerra com uma série de atentados contra cabos eleitorais e a polícia se omite na prevenção e na repressão. - Há dezenas de situações anômalas, que transbordam o ambiente do Banestado e que foram detectadas em auditagens. Eta governo complacente.
FOLCLORE Confessa o ex-juiz e anarquista Elísio Marques: ‘‘Sempre me achei feio e para recuperar a auto-estima vou pendurar na cabeceira um pôster da seleção feminina de futebol do Brasil. Que turminha braba!’’
Outra do Elísio: depois dos arranjos urbanísticos, ele costuma denominar o Centro Cívico de ‘‘Treblinka’’. Por que não Berchesgarden, Sorbibor, Dachau?
Mais uma elisiana: ‘‘Quando Fred e Barney desistirão em favor do Vanhoni para garantir o segundo turno?’’
CROMO Tônia Carrero era uma diva e visitava Curitiba quando da encenação de
‘‘Otelo’’, em que ela fez a Desdêmona: em cada mão que apertava deixava o perfume. Em cada admirador um Otelo em potencial, em cada descartado um Yago pronto a despertar ciúmes, a ofuscar-lhe a beleza gloriosa.
AFORÍSTICO Como todos acharam boa a pesquisa de ontem, redescobre-se que em jogo de pôquer, em que o blefe é geral, não há lugar para a verdade.

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