Inegável o aproveitamento político que se faz dos Jogos Olímpicos, o que está na contramão de sua essência, do ideário de Coubertin. A pior dessacralização é a que se dá em virtude das ‘‘grifes’’ patrocinadoras e que quase impediram a presença do nosso atleta maior, o Guga, do tênis. Essa mercantilização está na raiz do processo moderno como a induzir-nos que o Bezerro de Ouro dos nossos dias é o Deus Mercado, fundamento ideológico da globalização.
Quando a Guerra Fria se impunha como um dado permanente percebia-se que a emulação ideológica se deslocava também para as piscinas, as quadras e as pistas. Países socialistas sublimavam as suas deficiências brilhando de forma intensa nas competições desde a União Soviética aos satélites, inclusive Cuba que há anos, nesse particular, mesmo com suas dificuldades crescentes, dá um banho nos latino-americanos e aparece no ‘‘ranking’’ mundial.
Tivemos ao longo dos Jogos situações mais densas como as vividas em Berlim com o atentado à delegação israelense ou dos negros vitoriosos ianques fazendo no ‘‘podium’’ o sinal característico do ‘‘Black Power’’ ao tempo das tensões raciais internas nos Esteites, hoje consideravelmente abrandadas.
Um país pode ser subdesenvolvido, como se dá com Cuba, mas manter uma posição de hegemonia nos esportes. Aliás, isso está em perfeita simetria com uma das características do regime: fortíssimo no ‘‘social’’ (educação, saúde, esportes e segurança) e precário no ‘‘econômico’’. Precisamente o anverso do que ocorre no Brasil em que aparecemos melhor no ‘‘econômico’’ (oitava potência do mundo) e ruim no ‘‘social’’ quando submetido o País ao Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), adotado pela ONU e obtido a partir do cruzamento dos dados sociais e econômicos.
Essa ‘‘instrumentação’’, inclusive intelectual, da prática esportiva é comum em todos os tempos face até à identificação heróica entre esses deuses e o público. A atividade é fundada no espírito agonístico (palavra originária de agonia, sentimento apropriado a todo aquele que busca superar limites) e que nesses Jogos já revelou heróis das piscinas, especialmente, e do tatami, no qual conquistamos, pelo menos até agora, duas medalhas de prata.
AFORÍSTICO
O governo que se prepare para ser caricaturado, felizmente com bom humor, nas manifestações de hoje dos professores. Já quando houver a da PM podem estar certos que a coisa será um tanto quanto azeda
BIZARRICE E agora, Jaime Lerner? A Polícia Militar, até aqui esnobada pelo seu governo e de forma frequente, está em pé de guerra com os salamaleques, chá-de-cadeira em ante-salas secretariais e quer resposta às reivindicações. O prazo é hoje que pode ser o início do Juízo Final ou o do juízo, afinal.
E pelo jeito a ‘‘procissão’’ estará nas ruas porque hoje é dia de passeata dos professores, outros que alegam estarem sendo ‘‘enrolados’’. Atmosfera muito boa, como o diabo gosta, para o calendário eleitoral.
Alambrados do Centro Cívico vão provar a sua inocuidade.
AXIOMA Quem estiver esperando que poderá fazer suas férias com o 13º entre funcionários públicos pode tirar o cavalo da chuva. O governo mal consegue fechar a folha de cada mês e isso com um esforço de atleta olímpico. Secou a cornucópia de Itaipu, já que os royalties daqui para a frente têm destino certo na formação do capital da ParanaPrevidência e, além do mais, há forte resistência na área econômica do governo federal à compulsão das vendas de ações da Copel, como os pródigos vêm fazendo com a maior tranquilidade.
GLOSA O problema do Estado não é aumentar a arrecadação, como alertava didaticamente Miguel Salomão, mas administrar a despesa. No caso da PM, o que há não é pedido de aumento e, sim, devolução de garantias legais suprimidas. Incrível é que com toda essa secura nunca se arrombou tanto os cofres públicos como agora. Vide os R$ 500 milhões em propaganda, a quebra do Banestado com o corsarismo na Leasing e Corretora, os Jogos Mundiais da Safadeza etc.
EPIGRAMA O senador Requião criticou duramente o tom da campanha petista, que vai levar o seu candidato, Vanhoni, a ultrapassar de longe o irmão Maurício. Eis a resposta do petista Lafaiete Neves sobre a destinação do PMDB: ‘‘Se erguer a lona, vira circo; se fechar a porta, vira hospício!’’ A campanha só esquenta nos murmúrios, em tons regougados.
ENTREGAÇÃO Quando o governo, insistindo num erro-chave, ao mandar artigos prontos para serem publicados em jornais do interior, foi apanhado da primeira vez, o autor dos textos – aliás, bons como sempre – era o Deonilson Roldo. Agora, em Maringá, uma figura do primeiro escalão deu o nome do Roberto Coimbra, voz oficial, que escreve em jornal da praça: o jornalista Vanderlei Rebelo.
Esse é um hábito antigo. Lembro que no governo Munhoz da Rocha, o filósofo Ernani Reichmann, assistente, escrevia artigos com o pseudônimo de Carlos Marani. Aliás, como escritor e filósofo (maior conhecedor de Kierkgard no País), Ernani abusava, em sua antropofilosofia, dos heterônimos.
Uma vez, para responder a um artigo pesado de Carlos Lacerda, Ney Braga deu a resposta num texto em que havia contribuição de Reichmann, minha e do meu antecessor na Academia de Letras, Samuel Guimarães da Costa, numa simbiose.
OPERETA O governador passou por uma cena bufa em Maringá: quis descer com um Boeing no aeroporto, que iria inaugurar, e que não estava pronto. O brigadeiro esclareceu que a obra só poderia ser operada dentro de quatro meses. Mais uma dessas e o governador entra na onda do coronel Paraguaçu, de Dias Gomes.
FOLCLORE Dizem que o Vanhoni também estava na audiência do governador para o seu colega Péricles Holleben de Melo, candidato em Ponta Grossa. Mimetismo é assim: sabe-se como começa, nunca – em hipótese alguma – como termina.
Aliás o Vanhoni faz uma campanha decalcando o próprio Taniguchi. Só falta, a qualquer momento, soltar o ‘‘arigatô’’. Por ‘‘ato falho’’, é claro.
CROMO Se o vinho consagrado é sangue divino, o que dizer dessa lágrima que ficou impressa em seu rosto como tatuagem?

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