Luiz Geraldo Mazza
De uma coisa pelo menos ficamos livres em Curitiba: o debate entre candidatos à prefeitura felizmente malogrou. Afinal depois dessa enxurrada de bobagens e dissimulações, perpetradas nos horários (e que não são poucos) gratuitos, só faltaria a consagração de tudo com o tal festival de pegadinhas que nada esclarece, já que ali a artimanha se sobrepõe ao conhecimento.
Como o ironista se pode dizer que de tudo o que foi apresentado ficou nítido que houve idéias novas e verdadeiras com o detalhe de que as verdadeiras não eram novas e as novas não eram verdadeiras. No caso do IPTU sempre houve o intento de confundir, mistificar e não de esclarecer. No do metrô, as idéias parecem vagas: a de Taniguchi tentando, na verdade, induzir a urbanização da BR-116 no trecho entre Pinheirinho e Atuba, usando como cavalo-de-tróia um simulacro de metroviário, o que garante o predomínio do modal sobre pneus por mais tempo; a de Forte Netto, um absurdo que condenaria o corredor estrutural a uma aridez como se fosse um minhocão malufiano ao infinito; as demais pecando pela falta de objetividade de onde tirar recursos para obra tão cara.
Todos tiveram a sua oportunidade. Lamentavelmente para os mortais, ainda há mais oito dias de campanha pelo rádio e pela televisão. Se a democracia impõe esse sacrifício é de esperar-se que tenhamos ganho indulgências plenárias para lá na frente vivermos tais processos com menos demagogia e desonestidade.
AXIOMA
O caso Montesinos, no Peru, é menos ou mais grave do que o da compra de votos para a reeleição de FHC? Aqui só faltou o filme porque a cena houve
EMBOTAMENTO Ninguém se vale tanto de um alegado apelo à ecologia para promover-se como o governador Lerner. No entanto, mesmo em Curitiba, seu palco maior, percebe-se o quanto isso é dissimulado na existência de rios condutores de esgoto a céu aberto e que se apresentam até com metais pesados como chumbo e mercúrio.
Agora, por exemplo, tentam mostrar eficiência em trabalhos preventivos diante das enchentes. E elas comprovam a irresponsabilidade: em Porto Amazonas a cheia do Rio Iguaçu pode atingir, ao mesmo tempo, um terminal de esgotos da Sanepar e o lixão, que recebe os resíduos da cidade, poucos metros acima do nível das águas.
BIZARRICE Observando a cena política, o jornalista Eduardo Schneider se deteve sobre o tema do metrô em debate na Capital: O PFL o quer na superfície, o PSDB elevado e o PT o deseja enterrado. Já o Jamil Nakad defenderia o Expresso da Meia-Noite. E o Eduardo Requião proporia divã em lugar de assentos.
GLOSA Se na opinião pública, na Lapa, o Ratinho apareceu como mais credenciado do que Roberto Requião para transferir votos dá para imaginar o que se daria em Curitiba se se fizesse a mesma avaliação com Alvaro Dias: a ciumeira faria muito mal ao senador.
EPIGRAMA A oposição, por incrível que pareça, está a favor dos latifundiários urbanos na questão do IPTU: na lista dos que não querem pagar a alíquota de 3% como detentores de terrenos vazios os empresários Seme Raad, Cidadela, CR Almeida, Positivo, o ex-governador Jaime Canet Júnior, shoppings. Baixando-a para 1%, como pretendia Maurício Requião, ele operaria como um Robin Hood às avessas. Ao menos em relação a esses casos.
SPRAY Hoje teremos greve de bancários no Banestado. Funcionalismo não adere, como já ficou demonstrado anteriormente. - Desta vez é possível que Vanhoni participe da greve, ainda que isso lhe retire votos na classe média, avessa por princípio ao basismo que só faz barulho e não consegue avanço. - Greve para ter sucesso deve ser por agência e sem aviso prévio. A grevilha de 1964 era mais ou menos nesses termos. Até os petroleiros estão adotando essa linha ao fazerem greve por setor e também sem anunciar. - Os correntistas, prejudicados com essas operações, não irão se conformar com o abuso e se avistarem amuletos e bandeiras de partidos políticos votarão contra eles e com toda a razão. - Há prefeitos na linha de tiro para serem cassados. Entre eles o Jocelito Canto, de Ponta Grossa, o Rizio Wachovicz, de Araucária, o Chico Carlim, de Matinhos, e isso está sendo intensamente explorado. Se a cassação não pegar, o desgaste é certo, de qualquer jeito. - Ouro Preto e outras cidades históricas de Minas Gerais estão sendo destruídas só com a circulação de caminhões pesados em áreas tombadas. Se tirarem dessas cidades o título de Patrimônio da Humanidade vai alterar alguma coisa? Com o título e tudo continuam sendo detonadas. Aplica-se o mesmo à Estrada do Colono no Parque Nacional do Iguaçu. Dezenas de parques nacionais tão ou mais importantes têm estradas asfaltadas em seu interior. A estrada precede o próprio parque, já que existe desde os anos 20. O combate ao asfalto é legítimo, mas fechar a estrada um exagero tão radical quanto a sua ocupação e cobrança de pedágio pelos invasores. É a mecânica da anomia que toma conta do País. - Uma paranóia invade as cidades em função da colocação de antenas de telefonia celular em vista dos riscos que isso representa. Em Curitiba a vereadora Julieta Reis apresentou projeto, até hoje não levado ao plenário, baseado em normas européias e na legislação de Porto Alegre. - O risco de doenças por irradiação magnética é confirmado pelo neurocirurgião Affonso Antoniuk e especialmente no caso de crianças pelo uso do próprio celular. Em Hannover, houve em congresso científico informação a respeito. - Além disso, há o caso das redes transmissoras da Rádio Vaticano que provocaram câncer em muitas pessoas numa cidade italiana. As ondas transmitem fé, mas também a doença.
FOLCLORE Desde ontem estão expostas em Curitiba 35 gravuras de Lasar Segall. Em 1991, quando do seu centenário de nascimento, houve mostra das suas obras no Guairão. O hierarca da área cultural chegou ao coquetel e perguntou, nervoso, se não teria cometido uma gaffe ao entrar no recinto muito depois do maravilhoso artista.
CROMO Se você é cego, ainda assim fala pelos olhos?
AFORÍSTICO A ideologia é aquilo que o convence de que a mudança da ordem social e política porá fim até as suas hemorróidas. Angústia e vermes, então, ela os tira de letra.





