Quanto mais exerce a pressão para obter, supostamente, a aceleração da reforma agrária, menos credenciais detém o MST na opinião pública. Embora com a logística de uma guerra focal, pelo nível de tolerância das autoridades, o maior movimento social do Brasil não passa de um modelador de gincana. Até essa desencadeada diante da fazenda da família do presidente Fernando Henrique é uma provocação com igual carga de primarismo e que se sustenta na perplexidade do sistema que chegou ao cúmulo de editar Medida Provisória para fazer os despejos sem ritos processuais. Isso, aliás, é um absurdo: se invadirem uma estação de energia ou de tratamento de água ou ainda uma refinaria estão sujeitos ao uso, por parte de quem está sendo violado, do desforço incontinente, o que não está revogado, embora o costume, no furor liberticida dos dias que correm, seja exigir atos litúrgicos justamente para dar moratória à violência das ocupações.
O discurso e a pregação são revolucionários num tom das tropelias estudantis dos anos 50 e 60 nas arengas dos congressos da UNE. Tudo aquilo serviu de caldo de cultura para o golpe de 64, pois os estudantes pareciam acreditar que já estavam no poder porque verbas oficiais sustentavam mobilizações como as havidas no Centro Popular de Cultura (CPC). Da mesma forma que não estávamos em condições de um enfrentamento verdadeiro, respeitada a correlação de forças, como se viu com as passeatas das rezadeiras que chegavam a botar 1 milhão de pessoas nas ruas, enquanto os comícios das reformas não obtinham 10% desse contingente, também o MST não está com essa bola toda.
A observação de José Genoino, que é um democrata e que caminha na contramão desses delírios, criticou o cerco à fazenda de FHC, intolerância primitiva. Se o MST esperava influir na eleição municipal com essas demonstrações, equivocou-se. O próprio PT cuida de não se deixar contagiar. Em Curitiba, tirou o Lula das propagandas e se a mantivesse Vanhoni cairia. E afundaria se praticasse, como fazia em passado recente, qualquer ato solidário à balbúrdia do MST.
Utopia regressiva, que Marx abominava, o agrarismo é incompatível, ainda que mexa com românticos que se imaginam um Antonio Conselheiro, com a sociedade complexa, essa que aí está com os contornos do pós-industrial. Se é verdade que tenta encarnar, como expressão política, a massa dos excluídos, o ajuste não é verdadeiro e seu assembleísmo falangista fica bem mais perto da direita, a que não ousa dizer o nome, do que da esquerda.

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