Estatofobia desmascarada

Os chamados neoliberais é agrupamento que não pode, em hipótese alguma, julgar-se credor, sob o ponto de vista doutrinário, da vinda das montadoras e demais investimentos (Lerner os calcula até agora em R$ 5,5 bilhões, dos quais apenas 25% se dirigem ao setor automotivo), que vão mudar o perfil do Paraná. Ocorre que em tudo isso fica nítido que o Estado, ao contrário do que pretendem os que o condenam ao nanismo, é indutor do desenvolvimento com ação indicativa e, mais do que isso, estimulatória, via subsídios fiscais e doações.
Assim, pois, essa picaretagem modernosa do Estado-mínimo é desmascarada em todos esses episódios como se já não bastasse a evidência de que a Renault, a que abriu esse novo ciclo, é uma estatal da mesma forma que a primeira aqui instalada, a Volvo. Ninguém de bom senso deseja um aparato com elefantíase, como se dá de certa forma no Brasil, por uma tradição ibérica e de traço patrimonialista, mas cair no extremo do minimalismo, apenas para ficar de bem com a moda confessional, é uma gloriosa estupidez e uma desonestidade radical.
No Brasil é assim: oito ou oitenta. Mal saímos do patriarcalismo, imposto pelo populismo e cartorialismo, e imaginamos uma escalada no Estado enxuto que precederia o fim dele por formas de autogestão, é claro, ditadas pelo bezerro de ouro do momento, a tão proclamada economia de mercado.
Se esse fato, no plano epistemológico (do conhecimento), é incontestável não se justifica igualmente o ressurgimento de um maniqueísmo que divide de forma rígida as posições como se viu nos casos da venda de ações da Copel e leilão da Ferroeste, em que não existe qualquer ameaça patrimonial e que apenas os fatores ideológicos pesam, mesmo quando não alegados concretamente.
Ideologizada qualquer questão, perde-se a noção de racionalidade em favor de um satanismo: de um lado a panaquice da estatofobia transformada em credo e de outro a nostalgia do Estado que tudo prevê e tudo provê, duas formas, a rigor, de servidão, uma ao mercado, um marxismo de ponta cabeça, e outra a da irracionalidade da obediência a uma criação do homem e que o transforma em escravo. O homem criou o Estado para que pudesse mediar a vida em sociedade e nele inserir-se como cidadão livre e não como um servidor refém.
BIZARRICE - Numa rádio do Oeste paranaense um locutor novo, registrando as cartas que recebera, destacou o fato de que o alcance da emissora era tão surpreendente que havia manifestações até de Florianópolis. Ao verificar melhor a carta percebeu que se tratava de morador das redondezas, com o nome de Floriano Lopes.
SPRAY - Uma pesquisa junto aos vereadores de Curitiba apontou o secretário Augusto Canto Neto como o melhor dos secretários (86,11%), seguido de João Carlos Baracho e Ivo Mendes Lima com 19,44%. O levantamento é da Paraná Pesquisas e foi colhido junto aos 36 vereadores. - Vereadores acharam também que a gestão Rafael Greca foi boa (47,22%) e ótima (33,33%). Obras mais destacadas: ‘‘Farol do Saber’’ (44,44%) e Rua da Cidadania (41,66%). - Elogio em boca própria é vitupério. Mesmo conhecendo o ditado, os vereadores se acharam com desempenho bom (58,33%) e ótimo (25%). - Ficou para hoje a indicação do novo comandante da Polícia Militar: briga de foice nos bastidores mostra que a política já contaminou a área e isso pode deixar sequelas mais profundas do que as produzidas pela demissão do coronel Bortolini. - Entre os 25 maiores devedores da Previdência aparecem a Manchete em 12º, com R$ 56,6 milhões, o ‘‘Jornal do Brasil’’ em 16º, com R$ 47,2 milhões, a ‘‘Gazeta Mercantil’’ em 23º, com R$ 34,4 milhões. Na listagem geral aparece a empresa paranaense C.R. Almeida em 14º, com débito de R$ 49,2 milhões, mas que tem créditos substanciosos, como os decorrentes da construção da Estrada de Ferro Central do Paraná. - Dia 18, Museu de Arte do Paraná, abre a mostra de desenho, humor e arte gráfica de Marcel Leite, às 18h30. Infelizmente a documentação fragmentária colhida não é abrangente. Inesquecíveis eram os trabalhos coloridos que ficaram, durante muito tempo, no Passeio Público. Num deles, fortemente lírico, um menino urinava numa lagoa de laranjada Wimi. Cada vez que se tenta recuperar documentalmente a atuação de artistas do temperamento boêmio como Marcel Leite é que se percebe o quanto vamos mal de memória. A maior biblioteca paranaense está, por incrível que pareça, em Camberra, Austrália, porque o governo estadual (Paulo Pimentel) não se interessou pela aquisição do acervo. - O sociólogo Ricardo de Oliveira faz trabalho de pós graduação sobre a genealogia, isto é, a malha das relações parenterais, e o poder no Paraná desde antes da autonomia em 1853. - Ainda há descendentes da elite tradicional e das oligarquias em plena atividade.
FOLCLORE - Alunos do Ginásio Paranaense abusavam do professor Becker, que dava aulas de Francês e Espanhol. Valendo-se da pouca visão do professor se arrastavam pela sala, depois de respondida a chamada, para acionar o trinco e pedir para entrar. Repelidos por causa da hora, um dia o mestre percebeu que tinha uma sala com menos de dez alunos. Quando ele morreu uma espécie de catarse, de sentimento de culpa coletivo, levou todos os alunos ao guardamento. Naquele dia não fugiram à chamada.
CROMO - O brilho no olhar das crianças é mais intenso agora que as cidades se enfeitaram de muitas luzes. Essa é uma igualdade, quase eucarística, mas que na partilha dos sonhos se anula no preceito bíblico de que ‘‘muitos serão os chamados e poucos os escolhidos’’. Ampliar o número de convivas ao banquete e à conquista de presentes é preciso.

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