O jornalista Carlos Alberto Marques, o Gauchinho, era, antes de tudo, um ator. Tinha noção de marcação e empostação de voz e, no gestual, parecia estar desempenhando para ser aplaudido em cena aberta. Originário do teatro, mas também jornalista político, ele teve boas posições com Moysés Lupion. No segundo governo Lupion, estávamos eu e ele num encontro intersecretarial quando o titular da Fazenda, o industrial Ivo Leão, que o presidia, fez uma análise dramática sobre a situação do Banestado. ‘‘Está quebrado!’’, declarou e preocupado com o impacto do que dissera perguntou se havia jornalistas na sala. Apresentamo-nos eu e o Gauchinho, esclarecendo que estávamos a par da delicadeza do assunto que exigia sigilo. E fechamos a boca. Parece incrível, mas fechamos, contendo todas as pulsões em contrário.
Descobri que essa era uma novela manjada, de enredo sem surpresa: bastou um grupo político ser substituído no poder e lá vinha a inevitável catilinária de que o banco estava ‘‘quebrado’’. Mesmo grupos de orientação diversa ao de seus antecessores às vezes defenderam o banco. Caso do Luis Antonio Fayet, no início da gestão Lerner, que disse, ao tomar posse, que Requião entregara o Banestado ‘‘redondinho’’. O que Alvaro Dias não fez em relação a José Richa, armando escândalo em torno do Banco del Parana, a história dos cisnes negros etc. Lerner bateu os recordes: em duas gestões, ele consolidou a quebra do Banestado e ainda agora, na disputa entre Reinhold Stephanes e Giovani Gionédis, em torno do momento mais oportuno para o leilão, ficou com o secretário da Fazenda, o que não espanta porque também esteve ao lado do gestor que detonou a Leasing, promovendo-o a secretário.
Superinformado, Gauchinho sabia de intimidades dos militares em suas disputas internas no regime ditatorial. E quando veio a abertura, perdeu a paciência numa roda na ‘‘Boca Maldita’’ quando todo o mundo acreditava que as coisas se encaminhavam para a paz interna. Com gestos abertos, declarou em voz alta: ‘‘Pois vocês se enganam. Agora é que os militares começaram a viajar.’’ Deu tremedeira em alguns da roda e saiu antes que o pano baixasse. E fazia gestos dos militares, andando de avião de um lado para outro.
Um garçom do Curitiba Palace Hotel, onde funcionava a confraria dos jacus e dos ‘‘pés-vermelhos’’, pessoal do Norte que viera com Richa e se consolidara com Alvaro Dias (Nassib Jabur, Teophilo Bacha, Darci Machado, Hélio Duque, Valter Senhorinho), me chamou de lado para uma observação importante: ‘‘Esse jornalista, que está sempre com o senhor, ficou conversando duas noites aqui com aquele tal de Baumgarten.’’ Baumgarten foi o jornalista assassinado da revista ‘‘O Cruzeiro’’ e em cuja trama tentaram botar o general Newton Cruz, do Serviço Nacional de Informações. Por essas e por outras é que se sabia desse lado mais misterioso do Gauchinho.

FANTASMA COM CRACHÁ

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