Luiz Geraldo Mazza
As últimas pesquisas de opinião não só representaram um Exocet para a oposição (seja a vinagrosa de Requião, ou a mais contida de Álvaro Dias e dos ressentidos do PSDB). Elas reafirmaram o traço politizado das capitais brasileiras. Tanto que em quatro delas, Curitiba inclusive, FHC leva a pior. Em Porto Alegre, consulado do PT, Lula ganha de 29% a 24%; em Fortaleza, com todo o fulgor do Jereissati no governo, Lula ganha de 30% a 20%; em Salvador, mesmo com o feudalismo de Antonio Carlos Magalhães, leva a melhor por 30% a 24%.
A maior lavada é de Lerner em Curitiba por 43% a 24%, o que levou, outro dia, o presidente a perguntar a seus assessores políticos a troco de que o PSDB regional lhe negou apoio com tanta bala na agulha.
Por essas razões que, em passado não muito distante, o PT nacional, quando Lerner estava mais engajado (o sapato apertado, o colarinho sufocando) no PDT, chegou a cogitar da presença do político paranaense na chapa oposicionista. E o Brizola, que hoje está murcho e tenta negociar uma dobradinha com o César Maia para ganhar o Senado no Rio, até estimulava essa aproximação.
Curitiba está fundida à imagem de Lerner. Esse é o tema do livro Cidade Espetáculo da arquiteta Fernanda Sánchez García, lançado ontem na Livraria Curitiba. A obra desmistifica, um a um, os arquétipos montados ao longo do tempo pelo marketing condicionante.
A Lerner se deve, em parte, o fato de Cássio Taniguchi ter aparecido como o primeiro do ranking. Mas este, após seis meses de mandato, vai mostrando, pouco a pouco, identidade de estilo, diferenciada da que marcava o seu antecessor festivo e construindo faixa própria tanto na linha administrativa quanto na política. Verdade é que sua nota média 6,4 não seria bem vista no ITA onde se formou, mas ela decorre do maior rigor de juízo das capitais.
Lerner também caiu na pesquisa: seis meses atrás tinha 70% de ótimo/bom contra 63% de agora (20 de junho) com toda a carga oposicionista, o cerco dos senadores contra os empréstimos, as poucas realizações visíveis, o arrocho sobre o funcionalismo e a crise financeira. Exposto a tanta agressão, tacape externo e interno, acabou revelando uma capacidade de absorção de golpes maior do que a Mike Tyson. Tanto que, ao invés de morder, sorriu e, como sempre, com os olhos puxados. Os mesmos quando no Japão, devidamente esticados, recebeu uma das láureas e foi apresentado pelo empertigado mestre de cerimônias como Djaime Lero-Lero. E como se ajusta bem o apelido!
Curitiba e região metropolitana desequilibram não apenas no fluxo dos investimentos como tenho dito (70% dos R$ 8,6 bilhões ficam por aqui, o que não é saudável sob o ponto de vista da integração geopolítica), mas também na expressão eleitoral e com um detalhe: uma capacidade de contaminar, por um sistema de vasos comunicantes, as demais áreas do território. Daqui para a frente, teremos seis meses febris de pequenas obras no interior, com muito oba-oba, e mais aquelas de fôlego, como as do anel de integração. E isso alavanca ainda mais o prestígio do governo.
À oposição resta mostrar combatividade, embora seu espaço de manobra esteja cada vez mais reduzido. A cobrança de fidelidade no caso das montadoras já deu duas baixas no PMDB e Pessutti vai tentar tocar a CPI. Isso se o Aníbal Khury não estiver por perto. Aliás, o governo está angustiado com a ausência do turco porque pretende fazer uma convocação para uma mexida tributária e melhorar o caixa para o ano que vem.
BIZARRICEPiada corrente nos meios de oposição sugere que o vice-presidente do Banestado, Ernesto Capozzi, que ainda não tomou posse e que já está convocado pela CPI dos Precatórios, teria parodiado Dom Pedro e o Dia do Fico. Só que teria dito, ao invés de fico, a palavra Sperafico.
SPRAY Decisão da Pastoral da Terra em pedir a reabertura da morte do líder de Campo Bonito, o Teixeirinha, repercutiu muito bem. A aparência de cumplicidade dos basistas no episódio está afastada.- O que não se dá com o PT, ainda comprometido pelo silêncio e alianças eleitorais informais com aqueles que estavam na repressão.- Há um depoimento em juízo de testemunha, vizinha da família do líder, que ouviu um PM entrar no acampamento afirmando que iriam cortar a cabeça do Teixeirinha e pendurá-la.- Chocante é o fato de que, a despeito de terem ocorrido quatro mortes, três PMs (cujas famílias também podem pleitear indenização, como a viúva do líder sem-terra) e mais o Teixeirinha, o IPM decidiu pelo arquivamento.- Se houvesse mais critérios nas questões da terra (e dá para lembrar os casos de Eldorado de Carajás e Corumbiara como exemplos protelatórios), com rapidez de atuação não apenas quando o autor é um sem-terra (e isso, de certa forma, ocorre no evento da Fazenda Borborema, onde o Django foi morto) certamente a atuação de autoridades estaria mais facilitada.- Irmãos Simões estão com um problema: o João, o mais articulado, quer disputar vaga na Assembléia, o que cria drama para o Carlos, enquanto o Íris assiste, aturdido, a indecisão.
FOLCLORESchumacher, personagem da Boca Maldita, hoje entronizado em reportagem especial nesta Folha, tem seu domicílio em caixas de papelão como se fosse um daqueles tipos saídos da ficção de Plínio Marcos. Diante do seu drama - o homem que cria um habitat com lixo reciclável - Carlos Nasser sacou a frase: Curitiba ecológica. Muito eco, pouca lógica.





