Luiz Geraldo Mazza
Houve um tempo em que o Curupira, aquele dos pés virados para dissimular sua marcha diante dos caçadores, protegia as matas com mais eficácia do que os Ibamas da vida. As pessoas, crentes nas lendas que elas próprias difundiam, geravam esse cerco de proteção. O Boitatá, afinal apenas o fogo fátuo, era outro: o gás metano, liberado do fundo da terra em matéria em decomposição, se movimentava em razão da correria do transeunte assustado. Esses protetores mágicos - saci-pererê, negrinho do pastoreio, ótimo para responsos, achar objetos e animais perdidos - foram neutralizados.
Não dá para ver nos políticos como Lerner, Requião, Alvaro Dias uma referência séria à defesa do meio ambiente. Até porque deram sequência aos atos criminosos do empestamento dos rios na concessão imbecil ao sistema capitalista, evitando que empresas ampliassem gastos fixos com efluentes e filtros aéreos. A baixa de custos, que hoje tira empregos com as tecnologias poupadoras de mão-de-obra, justificava a liberação dos esgotos.
Por essas razões, a de que a própria sociedade tem sido delinquente em relação à ecologia, embora a demagogia do governo Lerner em dissimular que assume esse tipo de bandeira, foi muito bom o achado místico no meio poluído do Rio Iguaçu da imagem em madeira de um São Francisco. Como os santos de máxima devoção, na tradição oral brasileira, são encontrados na água, fonte da vida, mesmo quando superagredida e depois entronizados em nichos e ermidas que acabam se transformando em capelinhas ou igrejas de porte como a do Rocio de Paranaguá.
No tempo em que frequentava novenas aberto à religião, mas com o coração pulsando por uma das paroquianas ouvi uma série delas na Igreja do Rosário em que o autor das prédicas era o hoje Monsenhor Vicente Vítola. Ele fez um apanhado de todas essas estórias ingênuas, devidas ao populário e também à oralidade, relatando, uma por uma, das várias Nossas Senhoras e o fundamento da graça que havia nas descobertas. Normalmente pessoas simples como os pastores que viram Fátima na cova da Íria: eram pescadores e homens comuns que encontravam as imagens.
Que sirva a metáfora do achado do Rio Iguaçu, agredido não só pela Petrobras mas também por outras indústrias como as da Cidade Industrial e do Distrito de Araucária e mais do que isso pelos esgotos domiciliares, responsabilidade de todos, para que a inspiração de São Francisco lembre o seguinte: nem ele com toda a sua aura de santo bom e humilde e capaz de milagres pôde salvar da morte 120 animais.
Os que fingirem que defendem o meio ambiente, conforme anátema de santos, não escapam do inferno, mesmo que estejam numa estação de águas termais.
SEGREDO Quando iremos saber a verdade verdadeira da Usina de Segredo? Versão de Alvaro Dias, que a explorou no marketing do moralismo bem a seu gosto (fez um carnaval contra o governo Richa e não ganhou uma na Justiça, nem a do caso dos cisnes negros do Banco del Parana que ele quis vender ao mesmo tempo em que degradava a mercadoria), era a dominante. Agora o Cecílio Rego Almeida quer fazer o seu relato e estabelecer um encontro de números reais para acabar com a farsa da austeridade que ele diz não ter existido.
Vou mais longe: era preciso rever a história oficial, desde a Usina do Capivari, a primeira de porte. Me envolvi, aqui na Folha, em discussão com seus dirigentes tecnocratas e os fatos me deram razão: a bacia de acumulação, apesar dos cuidados do desmatamento radical, foi invadida por algas e depois houve mortandade de peixes e outros animais. Gelatinosa, a alga não era filtrável e acabava indo até a turbina, o que obrigou a uma superconcentração de trabalhadores para remoção do material. Na sequência, a Copel fez mais de um exercício de aeração para reequilibrar a demanda de oxigênio por via física (bombeamento) e química.
Houve usinas que a Copel fez e o governo federal encampou, prova também da nossa ausência de poder político e uma certa dose de subserviência.
Por exemplo: a série de usinas do Iguaçu era desejada pelo trust mundial da área e isso constava em vários documentos, já que os estudos de potencial hidráulico eram comuns em trabalhos, por exemplo, de Reinhard Maack.
UM GÊNIO Na secção de cartas da Folha volta e meia aparece um texto do mestre Eduardo José Daros, uma expressão do planejamento econômico do País (dirigiu, inclusive, o IPEA, Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, na gestão Roberto Campos) e que teve a sua formação no primeiro grupo que estudou o assunto sob o comando do coronel Alípio Ayres de Carvalho. Eduardo hoje dá a sua vida por causas cívicas, uma delas a do pedestre, entidade que lançou em São Paulo, olho do furacão adequado para o exercício desse agente que é mais objeto do que sujeito da circulação.
De uma chocante modéstia lembro que uma noite, após a saída de um programa de debates no Canal 6 que eu comandava, ouvi um diálogo entre ele e o jornalista José Erichsen Pereira. Juca andava empolgado com economia e se deslumbrava com os fatos novos da área. Ele perguntou a Daros em que linha se situava em questão de desenvolvimento, se na do sueco (e Prêmio Nobel) Gunnar Myrdal ou na dos que adotavam linha intervencionista. Daros, aquele tempo mais à esquerda do que hoje, com seu ideário voltado para a realização do processo humano dentro da democracia, disse que optava pela linha de Paul Baran, marxista norte-americano. A muito custo e sem jeito acabou confessando que havia sido assistente de Baran.
Parece incrível, mas uma das coisas curiosas em Curitiba é o fato de gente da terra ter assessorado figuras internacionais como se deu com Ubaldo Pupi que foi assistente de Jacques Maritain, o grande pensador católico. Nossos estudiosos deveriam listar as situações e também o caso dos gênios da terra como o filósofo matemático Newton Carneiro Affonso da Costa, do coronel Cavagnari (autoridade máxima em geopolítica na Unicamp), do Nelson Souza Pinto, uma das maiores expressões da hidráulica, do Belmiro Valverde, a cuca mais lúcida do Paraná. Já falei mais de duzentas vezes na necessidade de fazer essa listagem de pessoas fora do comum como massa cinzenta. Entre isso aí e a vaidade feérica dos nossos governantes empolgados com sua própria imagem acaba prevalecendo a desgraça que todos lamentam e conhecem.





