Quando da fase mais acesa da corrida armamentista apareceu um invento, que é bem a essência do capitalismo: matava, suprimia as pessoas, mas preservava o bem maior da humanidade, a propriedade. Era a bomba ‘‘limpa’’.
Cada vez que a Federação das Indústrias do Paraná se refere ao aumento de vendas (14,29% só no primeiro semestre) e com a perda de empregos (3,24% inferior ao do primeiro semestre do ano passado) convenço-me que a bomba ‘‘limpa’’ nos dias que correm é muito mais do que uma alegoria. Já me referi ao lado perverso desse novo perfil da economia paranaense: implicou em concessões indevidas, que respondem ainda hoje pelo estrangulamento financeiro do Estado, beco sem saída, e não trouxe os empregos anunciados.
Não dá para esquecer a irresponsabilidade do marketing oficial (aliás uma coisa está implícita na outra) anunciando, em 1997, que 600 novas empresas gerariam 480 mil empregos. Um chute como aquele das 50 mil crianças de rua amparadas que ninguém recenseou e que nada devem ter a ver com essas milhares que por aí persistem, à nossa vista, e no dia-a-dia.
Insisto na tese de que, a despeito de todos os aspectos positivos da busca do novo perfil, seus autores se descuraram da parte doutrinária. É uma incrível praxis sem teoria, algo bem assemelhado à bomba ‘‘limpa’’. O modelo que está aí é de intensificação de capital, agregação tecnológica, poupador de mão-de-obra. No discurso do governador ele acentua o lado menos contributivo: o da força de trabalho precaríssima. Como de resto faz com a empulhação da ecologia que jamais respeitou a não ser como toalete e discurso. Vide o assassinato do Rio Iguaçu, muito antes desse incidente da Petrobras que procuram usar para ocultar irresponsabilidades acumuladas ao longo do tempo.
O Rio Grande do Sul rejeitou acertadamente a instalação da General Motors que pretendia o absurdo de isenções do ICMS por 15 anos (claro que as condições do Paraná foram mais decentes), além de participação no capital, e o seu governador provou que com inversões na agricultura trouxe mais empregos do que os anunciados pela montadora. Fizemos o oba-oba com o novo perfil e estamos assistindo problemas conjunturais (passageiros, mas perturbadores) em áreas de vocação da nossa economia e que efetivamente respondem como relevante setor para empregos – o da agroindústria.
Adotamos um caminho de risco em nome da modernidade e não estabelecemos - aí um desvio estratégico - quaisquer salvaguardas. Se as empresas vão bem com menos trabalhadores (e isso é uma questão de custos) viva a bomba ‘‘limpa’’.

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