Luiz Geraldo Mazza
A palavra de ordem, repetida em Curitiba por Luiz Inácio Lula da Silva, é no sentido de nacionalizar o pleito municipal, criar o maniqueísmo em cima de Fernando Henrique Cardoso de quem está com ele ou contra. É, também, a tese de Brizola e de outros menos votados: drenar todas as energias críticas a FHC para as eleições municipais. Como se houvesse uma ordem: não vamos eleger prefeitos e vereadores, objetivo do momento, mas fincar plataformas para agredir ainda mais o presidente, transformar essas disputas em plebiscito. Lula se acredita o beneficiário de tal processo, como se tentasse mostrar que aprendeu com os reveses anteriores.
Discutir o plano da cidade, o que fazer com o transporte coletivo, como ampliar espaços de lazer, isso tudo é, como se dizia nos anos 50, pura alienação. O presidente FHC, afinal de contas, está em tudo: no buraco da calçada, no bairro sem saneamento. E é por aí que o PT, uma vez mais, vai levar outra lição. Cassio Taniguchi tem tudo para ganhar no primeiro turno e é do PFL, partido mais antipático do que o sonso PSDB. É, teoricamente, e muito mais do que isso, aliado de FHC. Mas aqui o Cassio é forte e o FHC fraco, e não o contamina e não o contaminará.
No Rio Grande do Sul, especialmente Porto Alegre (no Estado, o governador Dutra vai péssimo e nada deve a FHC), o PT é forte e independe nesse aspecto do bem ou do mal que o presidente da República está fazendo. Tarso Genro lidera, da mesma forma que o Cassio por aqui, e uma coisa nada tem a ver com a outra. PFL e PSDB devem fazer o maior número de prefeituras e são ligados a Fernando Henrique Cardoso. Nas capitais, as esquerdas estarão fortes como sempre e divididas como em São Paulo com Marta e Luísa Erundina. E daí?
O PT tem uma atração especial pela temática da moda: a da denúncia. É uma UDN com cara de obreira, moralista, mas quando os dardos atingem seus integrantes, aí os cruzados entram em ação para neutralizar os ímpios com a pulsão dos bispos inquisidores. Nacionalizar as eleições poderia significar também discutir condicionantes atuais como a globalização e o predomínio, inegável e pessimamente contestado, do neoliberalismo, colocado como fundamentalista, tal qual se deu com o socialismo real nos países em que era praticado. Já que se trata de nacionalizar, que tal propor em escala brasileira a panacéia gaúcha do orçamento participativo?
Os políticos podem até ter as suas razões para abrasileirar o pleito, mas o povo não está nem aí para essas abstrações e precisa até identificar os vilões mais imediatos e visíveis entre prefeitos, administradores públicos e privados, vereadores, os agentes, enfim, do processo, no qual nem sempre, apesar de todo o desgaste, o inimigo público número 1 é o presidente.





