Um dos peixes mais resistentes à poluição é o ‘‘limpa-fundo’’, um tipo minúsculo de cascudo, que tem a peculiaridade de sair da água e captar no ar o oxigênio. Nós o chamamos de ‘‘gunguito’’, pois ele vive a nos enganar com os seus movimentos dando a entender que haveria lambaris, nosso alvo, no pedaço. Pois a morte de um punhado deles foi o primeiro sinal dos efeitos do derramamento de petróleo cru no Rio Iguaçu.
Quando das pesquisas para definir o ponto de captação da água pela Sanepar na BR-277, o biólogo Hans Jacobi, mestre universitário e colaborador da Nasa, só encontrou gunguitos, os limpa-fundos (nada têm a ver com esse pessoal que botou a mão no Banestado e que quase o limpou), uma das derradeiras referências de vida adulta e assim mesmo com o desvio do Rio Atuba que estava naquele tempo como hoje se encontra o Rio Palmital.
Imagino esse bio-indicador, o gunguito, a saltar, desesperado, procurando o impossível na massa aterradora de óleo. Nas mãos dos técnicos ou lançados no laboratórios lá estavam os pequenos cadáveres, um documento daquilo que tanto se discursa e tão pouco se vê: o chamado impacto ambiental.
Cargas de poluição são assimiláveis por algumas espécies: em trechos muito agredidos, com desagregação acentuada das margens (os aguapés, tidos como filtros desses pontos comprometidos, mostram sinais de morte), as carpas, algumas até de porte elevado, sobrevivem, o mesmo ocorrendo com os tipos resistentes de bagres. Isso é tão verdadeiro que os ribeirinhos do Barigui, logo depois do vertedouro do Parque, pescam e consomem exemplares ali capturados, o que constitui uma temeridade para a sua saúde.
Mataram o Barigui, que era o rio das minhas abluções até 1955. Um argumento falacioso, dado como ‘‘desenvolvimentista’’, pelos empresários é o de que a pior das poluições seria a da miséria, a da falta de emprego, com o que usam uma alegação safadérrima para fugir à responsabilidade de tratar efluentes.
O investimento fixo se inviabilizaria, segundo esses calhordas, com os filtros aéreos e o tratamento dos resíduos sólidos e líquidos. É isso que mata o Rio Iguaçu e muito antes da Petrobras e dos seus efeitos que não foram pequenos, desde a sua implantação, para o ecossistema, também protegida por argumentos desenvolvimentistas numa época sem preocupações ambientais.
Como há um pacto entre os governos e essa elite industrial todos acabam pagando. Em Araucária, os primeiros alarmes dos efeitos da poluição se deram quando houve uma sequência de casos de anaencefalia em bebês (sem cérebro) na cidade como já se dera anteriormente em Cubatão, poluidíssima inclusive com o parque petroquímico e que agrediu toda a mata da serra próxima.
Tanto a Petrobras como essa ‘‘elite’’ industrial mais o governo e até a própria sociedade são culpados por terem transformado o Iguaçu numa espécie de cadáver insepulto.

ESCATOLOGIA

mockup