LUIZ GERALDO MAZZA
Além das notícias devastadoras de corrupção, a começar pelas reveladas no andamento da CPI das Drogas, falência do Estado, desmanche do setor público (leilão do Banestado, Sanepar, Copel) temos a desgraceira da quebra das safras, primeiro com a estiagem e depois com as geadas. E agora, para completar o ciclo, tivemos um desastre ecológico provocado pela Petrobras e que coloca sob ameaça a bacia hidrográfica do Iguaçu. Considerando que a ecologia é um dos paetês da carnavália lernerista dá para imaginar o impacto provocado por esse derramamento de petróleo cru em acidente inexplicável na Refinaria de Araucária.
O baixo-astral deste governo é interminável: alvo de pesadas denúncias no Ministério Público, tanto o estadual quanto o federal, tudo isso se dá num momento de fragilidade política, traduzida claramente na pesquisa Brasmarket, (revista IstoÉ) que mostra Lerner em 24º lugar entre 27 governadores e Cassio Taniguchi em 14º entre 26 prefeitos de capitais. Arrumaram um salvador na figura do prefeito de Pato Branco e ex-ministro de Saúde de Collor, Alceni Guerra, que sofreu muito mais do que o atual governador (no caso dele por julgamentos precipitados e indevidos) mostrando-se, portanto, dotado de antígenos contra a endemia do momento, o denuncismo. Ele vem aí para tentar botar as coisas nos eixos num setor em que é preciso mais sapadores para detectar minas do que qualquer outro, tanto que vários dançaram.
Sugerir que o governador se submeta a tratamento com demiúrgos, pais-de-santo e parapsicólogos é o mínimo que vem à mente, pois a hipótese dessa tragédia ambiental com o alastramento da mancha negra e devastadora sobre o Rio Iguaçu e num governo que tanto cultiva, da boca para fora, a ecologia é de lascar. Só falta agora setores petroleiros virem com aquela estória, que foi usada na última devastação da Petrobras na Baía da Guanabara, de que isso tudo não passa de sabotagem dos inimigos da empresa e que desejam privatizá-la. A ideologia é assim mesmo: um demônio da alma contra o qual não há lugar para o raciocínio mais elementar, área apropriada ao fundamentalismo de aiatolás.
O inverno ainda não terminou e nem chegamos em agosto, mês dos desgostos. Não vai ser fácil esperar boas novas desse atual ciclo que ameaça, pelo menos na vontade dos seus beneficiários, transformar-se numa era. Pensam assim como César, como Hitler, como, enfim, tantos outros.
AXIOMA
O Judiciário, apesar das queixas dos servidores do não-cumprimento de decisão do STF e do STJ que lhes garantia reposição, está inovando: concurso de assessores jurídicos entregue aos critérios da Fundação Getúlio Vargas é avanço que não se pode subestimar
BIZARRICE A pesquisa da Brasmarket, que não é nenhuma Brastemp, tem algumas coerências se confrontada com as do Vox Populi e mesmo o DataFolha: tanto Ângela Amin, de Floripa, quanto Jackson Lago, de São Luís, aparecem à frente de Cassio Taniguchi; e mesmo a proximidade de Antonio Imbassay, de Salvador, indica um mínimo de coerência. Isso tudo apesar de o 14º lugar parecer exagero. Espera-se para logo um DataFolha reconfortador até porque não se vence a febre, quebrando termômetros e negar pesquisas é mais ou menos isso, parta do governo ou da oposição.
GLOSA Todos querem surfar agora no petróleo derramado: logo o Rafael Greca, aquele que deveria continuar em silêncio obsequioso enquanto não se livrasse do peso das acusações que o derrubaram do ministério, mandou dizer aos jornais que estava entrando com uma ação na Justiça contra a Petrobras.
EPIGRAMA A uruca do governo é tão grande que cada dia que não houver rebelião em prisões o noticiário oficial o indicará, anunciando a volta à normalidade. É que a rotina está na revolta, na fuga, na queima de presídios e não no contrário.
A frouxidão do governo em não estabelecer sanções nessas manifestações nos presídios é muito parecida com a postura que adotou diante do acampamento de sem-terras no Centro Cívico: cumplicidade absoluta. A destruição do patrimônio público não pode ser tolerada de forma tão irresponsável.
SPRAY Esperávamos, ardentemente, o branco da neve na comemoração dos 25 anos da última nevasca no planalto. E tivemos o negrume do petróleo, que vazou do oleoduto que liga o Porto de São Francisco a Araucária, desde domingo, acidente detectado muitas horas depois de ocorrido, agredindo a Bacia do Iguaçu, matando a vida selvagem e também a doméstica. - O odor da morte saiu de Araucária e invadiu Guajuvira até chegar em Porto Amazonas. Ía arrastando a morte aos peixes, crustáceos, as aves como as garças, martim-pescador, biguás, roedores como as capivaras, enfim o massacre. - Autoridades, como sempre, anunciavam sindicâncias, mas as providências concretas para deter a marcha da avalanche negra eram demoradas. - Se no mar o efeito é terrível, como se deu na Guanabara, dá para imaginá-lo num rio de porte como o Iguaçu e que em suas margens muita gente trabalha na exploração de areia, por exemplo, e onde é comum, também, a presença de animais de criação como vacas, porcos e cavalos que ficam expostos aos riscos. - Como as providências demoravam, temia-se pela situação de União da Vitória, que se vale do rio para a sua fonte de captação de água, como se dá em Curitiba junto à BR-277 e instalações da Sanepar. - E que efeitos haveria, se não fosse contida a tempo a mancha que desce o rio em direção a Foz do Iguaçu nas inúmeras barragens ao longo do seu curso? - Dá para imaginar o clima de Apocalipse que haveria na hipótese de a mancha chegar às Cataratas, ainda mais em temporada de turismo.
METÁFORA O que se pode dizer é que no Paraná, apesar das geadas e até da possibilidade de nevascas, a coisa nunca esteve tão preta.
FOLCLORE Aí a população ribeirinha, que volta e meia assiste à passagem de espumas da poluição industrial e domiciliar no Rio Iguaçu, ao ver a mancha de óleo em sua marcha incontrolada, ficou sem entender por que se costuma dizer, em defesa da Petrobras, que o petróleo é nosso.
CROMO As garças com sua alvura, símbolo de pureza mesmo junto ao rio transformado em esgoto, precisam fugir do visgo escuro que as matará. E como o biguá e o martim-pescador entenderão o que está acontecendo?
AFORÍSTICO Será que depois dessa calamidade da Petrobras o Paraná vai afinal pagar o que deve ao Rio Iguaçu que tanto tem explorado e agredido?





