O jornalista Mussa José Assis está na praia quando se vê diante de um fato absolutamente inusitado, mostrado por sua mãe: às 6h30 da madrugada havia nada menos do que gelo no capacho. Se o litoral gelava, raciocinou o jornalista, o planalto estava glacial. Pegou o carro e subiu a serra e já no meio do caminho via carros com boneco de gelo na frente e no cimo dos morros nada menos do que neve que conhecia bem de suas viagens ao exterior. Aí veio a frustração: não estava com máquina de fotografar e, se tivesse, daria um furo que ele foi um dos poucos que testemunhou como se o cenário imitasse os Andes mais próximos ou os Alpes distantes.
E em Curitiba, o Mussa iria fazer a manchete daquele acontecimento que testemunhara no jornal ‘‘O Estado do Paranᒒ : ‘‘Curitiba branca de neve’’.
Nesta ‘‘Folha’’, edição de 18 de julho de 1975, fazíamos um painel de toda a realidade paranaense: euforia no Sul e fossa no Norte com o drama da lavoura mais uma vez arrasada e que já vinha castigada por uma longa estiagem.
Da janela do segundo andar do Edifício Arthur Hauer, logo acima daquele em que funciona a Confeitaria Iguaçu, assistíamos ao espetáculo, mas o bom mesmo era desfrutá-lo, descer à Praça Osório e à Boca Maldita e ingressar naquele ‘‘happening’’. Gente construindo bonecos, outros fazendo guerra de bolas de neve, uma confraternização jamais vista na cidade, a população derrubando todos os mitos sobre a introversão dos curitibocas.
No Canal 12 (lá eu era diretor de jornalismo) fizemos o seguinte: deixamos uma câmera aberta no jardim do Castelo do Batel, ao lado da piscina o que, se não era novidade em Curitiba, passava a atrair moradores das cidades mais próximas para o mutirão da alegria. Nenhum sociólogo ou craque em psicologia social se ateve sobre o degelo dos curitibanos registrado no evento. O Euclides do Teatro de Bonecos ‘‘Dadᒒ sugeriu que eu fizesse uma peça para títeres e mamulengos mostrando o milagre da mudança comportamental de toda a comunidade em função do maná bíblico que em boa hora viera dos céus.

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