Há um esforço nos centros mais politizados do Brasil (São Paulo, Rio), especialmente, para transformar o pleito municipal num fórum de discussão de temas nacionais. Tenta-se, com isso, é claro evitar no caso de Curitiba um debate com pessoa habilitada e qualificada como Cassio Taniguchi e faturar o clima anti-FHC por exemplo.
No plano ideológico vai redundar no pior dos primarismos com debates ocos sobre a globalização e o neoliberalismo, ressuscitando fantasmas como o do nacionalismo, no qual até Alvaro Dias anda se agarrando a pretexto de defesa das estatais quando nem todas merecem respeito. Exorcizar o demônio do FMI, idéia fixa e que está mais próxima da bruxaria do que do raciocínio, vai ser o esporte mais frequente dessa olimpíada de primarismos.
Isso não significa que não haja o que discutir em Curitiba. Há e muito: nossos padrões de infra-estrutura de saneamento continuam péssimos, o sistema de transporte está em vias de esgotamento e é fácil verificá-lo olhando a operação dos terminais em horas de pico. Um candidato a vereador, o arquiteto Marco Alzamora, do PSDB, elencou algumas questões que provam a exaustão do repertório lernerista.
Esgotamento do modelo em primeiro lugar, a terceira maior dívida entre capitais brasileiras sem qualquer obra de vulto nos últimos anos, 78% da população não completou a 4ª série primária, 15% da população vive em situação de exclusão, déficit de água na Grande Curitiba de 20% a 25% e chegando a alcançar 40% no ciclo da estiagem, contaminação pesada das fontes de suprimento de água, esgotamento do aterro sanitário e inexistência de área prevista para um novo (em Rio Branco do Sul, onde se planta motor roubado, não se admite a localização), rios como corredores sanitários, sistema de circulação abandonado ao caos. Está aí um bom temário para discutir a cidade. Claro que há exageros na formulação, mas a amostragem é suficiente para revelar que é possível discutir Curitiba sem necessidade de culpar as suas carências ao governo desnacionalizante de FHC e à ação do FMI ou mesmo à trilha da corrupção do governo estadual.
BIZARRICE
Em Foz do Iguaçu, os candidatos, em burla à lei eleitoral, estão falando em rádios paraguaias e dando seus recados. O que o povo poderia fazer é bem simples: impedi-los de voltarem ao Brasil exatamente pelo voto, assim restabelecendo a pena simbólica de confinamento

AXIOMA
Lerner está subindo rapidamente no ‘‘Ovo Neles’’: dia 10 aparecia em 26º lugar com 719 votos e ontem subia para 14º, atrás de Lula e antes de Pelé, com 2.295 votos. Requião permanece no ‘‘ranking’’ em 5º lugar: dia 10 tinha 2.739 indicações e ontem estava com 4.597. Alvaro Dias caiu de 38º com 527 para 54º com 562. José Janene é 58º com 471 e Assad Janani 65º com 414.
GLOSA
O site referido vai ser um painel de exercício da nossa autofagia, aliás visivelmente representada nessa história de galinha comer galinha devido à crise do setor de insumos nas granjas mal assistidas. O normal, como sabeis, é quando apenas o galo come a galinha. Mas nesse paraíso, que os óculos de Jaime Lerner tornam bem cromáticos, as coisas mais incríveis acontecem.
CORPO FECHADO
Os gestores estaduais parece que não captaram ainda o que ocorre no País não apenas nos exageros do denuncismo, mas de tudo que decorre da sociedade com interesses em conflito. Da mesma forma que não deram bola para os feitos dos Jogos Mundiais da Safadeza (volta e meia uma nova ponta do iceberg fica exposta), da roubalheira no Banestado, não se ligam em quebras de procedimento. Dá a impressão de que estão de ‘‘corpo fechado’’ contra
mau-olhado e fiscalizações (as do Tribunal de Contas não são muito sérias).
Anuncia-se agora que a Loduca, que se instala em 30 dias na Capital, estaria descumprindo uma regra da licitação, mandamental, que determinava que em 30 dias depois do resultado a agência deveria estar instalada. Como o resultado saiu em 20 de maio, ela deveria estar pronta em 20 do mês passado. O fato já estaria no Ministério Público. Antes isso do que mistério público, afinal a regra dominante, de tantos anos, aqui na praça.
GRACEJO
Consulta ao ouvinte da Rádio CBN, ontem, era sobre sexo virtual. Uma das coisas que se discutiam é se constituía ou não uma forma de traição esse tipo de prática pelos casados. A tantas o Luis Groff, o homem dos vinhos, fez um trocadilho: ‘‘Quem faz sexo pela Internet, nem faz sexo, nem computa.’’
CANIBALISMO
Enquanto o governador fazia um balanço dos seus feitos na Rádio CBN, repetindo os saques da propaganda, as esmagadoras de soja fechavam as suas portas e nas granjas surgia algo típico do surrealismo: destituídas das rações, que caberiam ser distribuídas pela DaGranja, hoje em concordata, as galinhas se entredevoravam com uma fúria maior do que candidatos municipais em disputa por prefeituras e vagas nas câmaras municipais.
QUADROS
A diferença entre o grupo de Lerner e aliados e os de Alvaro Dias e Roberto Requião está na questão de quadros que esses dois últimos não têm. Lerner é mais uma continuidade do neysmo e por isso leva essa vantagem, daí não surpreender o que vai acontecer com a sua secretária de Administração, Maria Elisa Paciornik, diante da sua disposição de partir para a iniciativa privada e operar no setor de relações institucionais da Renault.
O curioso é que o Estado, a atividade pública, que hoje está em desmonte, é o gerador desses recursos. Não consta que executivos como Karlos Rischbieter, que ajudou a trazer a Volvo, tenham apresentado sucesso na iniciativa privada. Rischbieter é conselheiro de várias instituições que ajudou a financiar quando no Badep, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal. Saul Raiz, também do setor público, por sua competência, acabou trabalhando em área internacional da Klabin e, mais tarde, na Refripar, tendo participação na transferência do grupo paranaense para a Electrolux. Maria Elisa fazia uma ‘‘cabeça de ponte’’ em Paris para atrair investimentos como o da Renault.
FOLCLORE
Quando da nevasca de 1975, em Curitiba, os que se julgam à esquerda por causa de uma zanga pessoal com o mundo criticavam a euforia dos que saudavam, nas ruas e num ‘‘happening’’ interminável, a neve. Era a neve, mas a bronca poderia também ser contra o pôr-do-sol e o arco-íris.

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