Luiz Geraldo Mazza
Povo que precisa de salvadores, tenho dito repetidas vezes, não merece ser salvo. O axioma remonta a Brecht e a Galileu, Galilei, onde há uma frase cáustica sobre os povos que precisam de heróis. A intenção é boa, estaria na linha do existencialismo sartreano, mas a verdade seja dita: ninguém pode viver sem heróis, sejam verdadeiros ou míticos.
O presidente FHC, nas comemorações dos três anos do Real, mais uma vez, à maneira do Rei Sol, Luis XIV, se propõe como o homem providencial e, para desgraça nossa, vai ser assim encarado pela fragilidade dos adversários. Fato que se repetirá aqui no Paraná, onde, pelo imperativo do mandamento tomista (de São Tomaz de Aquino) do mal menor, a sociedade em maioria ficará com Lerner para evitar os piores.
Até nesse aspecto de fazer brotar arquétipos da história clássica, o Rei Sol e suas sentenças O Estado sou eu e Depois de mim o dilúvio, FHC tenta nos jogar diante da fatalidade de que ele é uma espécie de vetor da história, um reorganizador do Brasil (papel que o outro Fernando, mais postiço e menos preparado, tentou encarnar), enfim o homem providencial. Sem ele, pois, não há saída, posição que atores menores, Álvaro Dias e Requião, tentam representar aqui no Paraná, deslumbrados com a própria voz e o espelho e sem visão crítica para interpretar um Datafolha, bola de cristal da credibilidade, que está para os dois, pelo menos no momento, como o alho para a cobra, a cruz para Drácula e o desodorante para o punk.
O salvacionismo, além de estar configurado na sua pessoa, tem agora a bandeira indispensável sem a qual o país mergulha no abismo em cuja borda se encontra há séculos: as reformas. Só que elas virão, hoje com mais certeza do que aquelas do Jango, que mexiam com os interesses das elites rurais, mas não darão o paraíso prometido como não o tivemos com as eleições diretas, a Constituinte e tantas outras bandeiras indispensáveis.
Ademais, o povo é radical na esperança. Quando o marxismo era a doutrina da moda havia quem acreditasse que o fim da luta de classes acabaria também com as hemorróidas, as verminoses e a angústia. Hoje os papagaios do neoliberalismo sugerem que o Mercado é mais eficiente do que o que se atribuia à divina providência e ao Espírito Santo. No passado os liberais diziam assim para combater o totalitarismo: o homem precede o Estado e por isso não pode ser o seu servo e hoje, mutatis mutandis, sugerem que o mercado é anterior ao homem com o que entronizam um bacalhau de supermercado em troca do bezerro de ouro, ruim de marketing. Metafísica, pois, de conveniência e conivência.
BIZARRICE Meu primo Raul Mazza suscitou a questão: se Mike Tyson mordeu a orelha de Holyfield com o protetor da dentadura, está, a partir de agora, habilitado a conferir o ISO 9000 e certificado de resistência a pneus, a dentadas. Aqueles usados que o Chico Simeão vende não dariam para a saída. Pneu carecou, agora não se diz HM trocou, mas Tyson traçou. Como quem masca chicletes.
BASTA A selvageria em Curitiba não tem limites: don Jeronimo Mazzarotto, bispo aposentado, o patriarca da paróquia de Santa Terezinha no Batel, foi atacado no interior de sua casa por um desses marginais, dos quais somos reféns desta sociedade sem segurança. O mais grave: estapeou o religioso, bateu nele com o revólver.
Quando do assassinato do motorista, o Sindimoc andou oferecendo R$ 10 mil de recompensa a quem apontasse o criminoso. Um absurdo desses que parece evocar a Lei de Lynch (do linchamento) e os tempos do velho oeste norteamericano. É a evidência da desorientação, da falta de referência, da anomia em que estamos mergulhados e na qual começa a aflorar, com toda a força, a irracionalidade.
Cassio Taniguchi tem razão quando mostra que os maiores problemas da cidade são a criminalidade e o desemprego que andam na mesma mão, sincrônicos.
Tanto a morte do motorista como o ataque ao religioso são obras típicas de pés de chinelo. Se estes nos afrontam, imagine-se como enfrentaremos o crime organizado.
BADEP O síndico do Badep, Vilmar Machiavelli, esteve de fato em Brasília participando da reunião da Associação Brasileira de Bancos de Desenvolvimento juntamente com um delegado do Banestado. E por uma razão: essa entidade é que media a criação da Agência de Fomento a ser criada no Paraná. Não havia mais dois delegados do Badep como se informou.
O Badep está acertando suas demandas e conseguiu, quanto à sua dívida, uma redução de 8% para 2% agregado a TJLP. Essa taxa altíssima é obra da gestão anterior. A liberação de alguns juros excessivos está igualmente facilitando a composição de devedores.
O caso mais famoso é do Atalla, de quem se cobrava a incrível taxa anual de 36%, o que é impagável até no sentido de piada.
FOLCLORE O ex-governador Álvaro Dias, em entrevista à imprensa, fez teatro ao desdenhar o cargo de governador em função de uma suposta crise que o Paraná viveria com o que entra em coral com o Requião e o mano Osmar. Sugeriu que se a situação financeira fosse como a do seu tempo aí valeria a pena voltar. Em sua gestão, o Paraná fez três antecipações de receita com a rede bancária, o que só seria possível com o bálsamo da inflação, pois caso contrário estaríamos como o Rio Grande do Sul, São Paulo, Minas, Rio etc.





