LUIZ GERALDO MAZZA
Lerner ontem lavou a alma. Em longa entrevista à Rádio CBN, o governador deu uma visão bem cromática, ao seu estilo, de como enxerga o momento paranaense. A impressão que se tem desse pessoal de governo, e que vale para todos os níveis federal e municipal, é que eles vivem numa espécie de aquário imune ao mundo externo.
O governador repetiu, com suas notórias dificuldades de comunicação, reticente, aquilo que o seu marketing afirma como a de que superamos os gaúchos em renda interna, o que não é verdade e sim uma possibilidade acenada pelo time do Ipardes em bases não muito científicas. Claro que melhoramos na parte econômica, a mudança do perfil é um fato (como o é o massacre momentâneo em cima das empresas agroindustriais, as esmagadoras de soja, por exemplo e daquelas de raiz paranaense e brasileira em função do modelo concentrador) e que não tem volta, mas a descompensação na parte social é gritante, em que pese registros como o de que teriam sido retiradas de circulação 70 mil crianças de rua. Quem as contou, Deus meu?
Convenhamos que o governo Lerner tem feito alguma coisa, especialmente nas áreas de desenvolvimento urbano, habitação, educação. Cai num setor que sempre foi o forte dos governos, incluindo aí os de Requião e Alvaro Dias, o das estradas: terminou a Ferrovia do Oeste, a ligação com Santa Catarina e daí em diante embarcou na bobeira do pedágio, até hoje uma unha encravada.
Desastrado politicamente, com uma equipe de uma incompetência que chega às raias da genialidade, ao ponto de não ter a menor condição nos pleitos de Cascavel, Londrina, Ponta Grossa, Maringá, foi o governante que maiores condições tinha para a disputa presidencial e que a degradou com uma rapidez apropriada a quem busca índices olímpicos.
O ponto emocional da fala (próximo das lágrimas de tão emocionado) foi quando Lerner reagiu à exploração (vil, convenhamos) da fita do casamento da filha, molecagem que nenhuma pessoa de bem apóia, tomando o cuidado, no entanto, de não se referir a pessoas e partido que a exploraram para evitar a desinteria do direito de resposta. Os que o apóiam, cada vez em menor número, acharam que ele se saiu bem; os que o desaprovam, cada vez em escala maior, entenderam que não ele foi bem. Mas Lerner lavou a alma e isso faz bem, além de tudo mostrando simetria com as pregações do Eduardo Requião em cima da auto-estima e do chamado pensamento positivo e empenhado em ser feliz como se relaxando no divã de um analista, quem sabe o próprio Freud ou talvez o Carl Jung ou Reich.
BIZARRICE
Só no Brasil que Kafka e Yonesco não teriam vez porque o absurdo aqui é o factual e não ficção: entre nós prostituta goza, gigolô se apaixona e traficante se vicia. Aqui também temos mais ONGs que cuidam de criança de rua do que crianças de rua e, obviamente, muito mais antropólogos do que índios
AXIOMA Com essa manipulação e compra e venda, desmanche e reacondicionamento de cadáveres, de uma coisa estamos certos: menos defuntos votarão em outubro!
GLOSA Uma comparação imprópria feita em função da romantização do filme sobre Mozart sugeria que Saliéri, destituído de qualquer valor, invejava o colega. Áulicos do governo tentam dar esse caráter ao arquiteto Luis Forte Netto como alguém que babaria de inveja de Lerner. Da mesma forma que Saliéri estava longe de ser um músico medíocre, Forte Netto é um bom profissional da arquitetura e do urbanismo. Deixou, por exemplo, um plano diretor para as praias que foi a mais consistente proposta global para o drama do acanhamento da orla. Numa coisa é bem igual a Lerner: um jejuno em política e ruim de comunicação.
SPRAY A Universidade continua doente. Mas seus porta-vozes, principalmente os da Federal, insistem em ignorar que já não detêm hegemonia alguma, perderam expressão entre as particulares e as públicas estaduais e tomam um banho de Santa Catarina em centros de excelência. - De cada 100 estudantes que entram na Federal, apenas 52 concluem a graduação; nas particulares 78 e nas estaduais 61. - Relação aluno-professor é 1 por 9 na Federal, 1 por 11 nas estaduais e 1 por 16 nas particulares. Na relação aluno-funcionário, outro absurdo para mostrar prodigalidade: 1 por 10 na Federal, 1 por 19 na estadual e 1 por 22 nas particulares. O pessoal da Federal detesta isso e qualquer outra analogia e mais ainda dados que comprovem que a maioria dos que ingressam nela são de segmentos da classe média-média e média-alta. - Outro dado: para cada vaga criada em universidades públicas, as particulares (aliás privadas soa melhor) criaram três. - O governo começou a fazer a defesa do Francisco Moraes Silva do IML. Encarregou-se de fazê-lo um delegado, Fauze Salmen, da Homicídios. Os delegados, todos se recordam, em maioria, também fizeram a defesa do Noronha, ex-chefe de Polícia, quando mais candentes eram as denúncias em meio à CPI das Drogas. - Os advogados Stadler-Dalledone, que dizem terem sido perseguidos pelo pessoal do Caboclinho, têm escritório na Mauá com a Euzébio da Motta. Nesta operava o escritório do criminalista Crovador, assassinado, e funciona o do advogado Hugo Ramos que prestou depoimento na CPI e disse que a morte do colega se deu por queima de arquivo. - Quem será o herdeiro de Aníbal Khury na política? Um que se esforça nessa direção é o deputado Hermas Brandão, mas para chegar no ponto de refinamento não vai ser fácil. - Um neto de Aníbal, o Alexandre, é candidato à vereança e conta com apoio da avó, Dona Niva. - Todavia o Bibinho, ex-secretário-chave de Aníbal, vai trabalhar para o irmão, o vereador Edde, que busca a reeleição.
FOLCLORE Com a derrubada do pedido de cassação de Celso Pitta aumentam as esperanças de Antonio Belinati de reverter o processo que o afastou. Ele aposta na derrubada do voto do vereador Orlando Bonilha que o teria retaliado e decidido a sua cassação. Por falar em Bonilha, retaliar em seu caso é redundância, pois ele se declarou, como prova de humildade, um retalhista (é dono de açougues). Outro que fez carreira política e tem origem idêntica, também de Londrina, é o ex-deputado e ex-vereador Luis Claudio Romanelli.
CROMO Teremos com a umidade e baixa temperatura uma nevasca? Há quem tenha guardado no freezer a neve de 25 anos atrás. Isso é que é hibernar.
AFORÍSTICO Se cair neve em Curitiba, só falta Cassio Taniguchi e Lerner se atribuírem o belo feito e tentarem algum proveito eleitoral como se cada floco fosse um prêmio específico a cada eleitor.





