LUIZ GERALDO MAZZA
Embora não exista no judaismo, de quem o cristianismo herdou tanta coisa, a figura do anjo da guarda parece que esse é o papel a que se atribuiu o diligente Gerson Guelmann, secretário de Lerner, dispensado novamente para dedicar-se à campanha eleitoral, em relação aos problemas que dizem respeito ao amigo e superior hierárquico. Fazíamos um comentário ontem, pela manhã, na Rádio CBN, sobre o programa eleitoral do PMDB, no qual considerei, como já havia feito neste jornal, as imagens do casamento da filha de Lerner, Andréa, como uma gag, aliás muito engraçada, como todos nós somos quando flagrados em desconcentração, alegres, dançando e festejando.
Guelmann achou absurdo que não se condenasse a invasão à privacidade, que de fato houve no episódio, o que é discutível num momento em que o governo FHC é envolvido por uma rede de grampos desde o Projeto Sivam até o leilão das teles e quando comentaristas, inclusive este escriba, ferraram os professores pela iniciativa, estúpida e selvagem, de fazer romaria na frente da casa do governador.
Ao invés de fazer esse tipo incabível de cobrança, que toleramos por respeito ao direito de divergir, o que os perdigueiros do governo deveriam providenciar é examinar como a fita de vídeo de uma festa particular caiu nas mãos do PMDB. De repente um frequentador da festa, já que admitir a hipótese de penetras em grupo sabidamente fechado é absurda, fez a doação do material, talvez quem sabe um dissidente, movido por alguma contrariedade mesquinha ou até por outro tipo de motivação.
Gerson Guelmann, ao dar prioridade ao flagra na festa, preocupou-se mais com a sacra privata, a família e os amigos, do que com a questão política, já que Requião fez muito mais de uma gracinha de mau gosto ao lembrar que o traficante Issan Hussein, de Araucária, cedeu helicóptero para a campanha de Lerner e, mais do que isso, aparece entre seus contribuintes financeiros. Nesses casos é que os anjos da guarda deveriam providencialmente intervir.
BIZARRICE
Um nacionalista, desses exacerbados, queixou-se do tom colonial dos convidados de Lerner cantando na festa da Andréa New York, New York. Só falta pretenderem que por serem do Brasil devessem cantar Saudades do Matão, há muito tempo fora das paradas
AXIOMA Com todo o poder de fogo, demonstrado pelo senador Roberto Requião no programa eleitoral do PMDB, percebe-se que é uma coragem dissimulada, já que foge, como o diabo da cruz, da hipótese de enfrentar Cassio Taniguchi. Provoca, provoca, e no fim sai correndo. Assim como se dissesse desse candidato qualquer um ganha referindo-se a Taniguchi menos eu. O cangaço, segundo o PMDB, é o governo. Já o cagaço é da oposição.
EPIGRAMA Na CPI estadual das drogas há, pelo menos, dois repórteres policiais: o Algaci Túlio e o Ricardo Chab, todos com grande experiência no setor pelos anos em que nele atuam. Será possível que nem desconfiavam da transa dos desmanches e das possíveis vinculações com políticos? Se são bons repórteres sabiam ou ao menos presumiam, por certo. Resta saber se no caso vão agir como repórteres ou como políticos, já que ambos detêm essa dupla condição.
SPRAY O governo estadual anunciou que vai processar por uso indevido de imagem o PMDB por haver explorado cenas do casamento da filha do governador em Nova York. - O que se sabe, pelo fervedouro que o assunto provocou, é que existiria uma gravação de uma hora e 24 minutos com desdobramentos da festa. - Uma hipótese de como teria caído nas mãos do PMDB é singela: a elite adora auê e andou passando a fita por várias famílias, o que levou à cópia e daí ao Requião. Afinal não são poucos os amigos comuns de Requião e Lerner. Júlio Lerner, irmão do Jaime, é um deles. - Como a fita foi vista apenas em parte e, ainda por cima, claramente editada, ninguém segura os boatos em cima desses mesmos acontecimentos que desafiam a curiosidade, especialmente dos canalhas, a que se referiu o Gerson Guelmann quando abordou o assunto na CBN. - Que é uma perfídia o que o PMBD fez, condenável sob todos os aspectos, não se pode enganar, mas que é engraçado ninguém pode contestar. - Com a decisão, que ontem pelo menos parecia assegurada, Beto Richa deve sair como vice de Cássio. - E como Cassio vai disputar o governo estadual, se reeleito, Curitiba ficaria nas mãos de Beto Richa, já que ninguém acredita na lenda de que o homem de Itaipu, Euclides Scalco, sairia como candidato à sucessão de Lerner. Está fora de forma e tem provado que é bom devoto, mas nem tanto de voto. - Com a passagem da Net para a Globo fala-se na hipótese de a RBS, vendedora, ficar com a parte da Vênus Platinada na atual sociedade com o grupo paranaense Francisco Cunha Pereira e Edmundo Lemanski no prolongamento das negociações. - Para os interesses regionais não seria bom, pois mesmo em Santa Catarina o gauchismo, que aqui já é forte, aprofundou-se, embora a RBS tenha feito grandes esforços pela reconstituição da memória barriga-verde. - Depois de perder referências de sua identidade, seria mais um fato negativo desse momento histórico: multinacionalizamos a economia e o poder regional se dilui sob todos os aspectos, inclusive o cultural.
FOLCLORE Está passando em Paranaguá o filme A companheira de Tarzan. A certa altura, Jane prepara o café da manhã para o homem-macaco e aparece com um ovo de avestruz, gigantesco, para quebrá-lo (imaginem um desses para atingir o Serra!). Um gaiato grita no meio da escuridão: É o ovo de Fonc. Gargalhadas, gritos e até briga obrigam a gerência do cine Santa Helena a acender as luzes e interromper a sessão. Fonc era um empregado da Força e Luz e que padecia de orquite.
CROMO E de quem era aquela coxa sedosa, deslumbrante, que apareceu, de relance, num filme na televisão: como num quadro cubista de Picasso ficou apenas aquele detalhe luminoso e provocador?
AFORÍSTICO Essa campanha eleitoral promete, pelo que vimos até agora quando mal começou: vai jorrar craca da cloaca. Nem gari a suportará sem um gesto de enfado e náusea.





