Vários conselheiros do governo sugeriram à vice-governadora Emília Belinati a não assumir o posto no Palácio Iguaçu com a viagem de Jaime Lerner. Ela, no entanto, estava determinada a fazê-lo, ainda que isso viesse em seu prejuízo e para aumentar os constrangimentos da família, que não são poucos, com a devassa havida em Londrina e que pelo jeito parece estar apenas no início.
Atitude de coragem ou pulsão temerária, uma vez que o simples debate em torno da cautelar para impedir a sua posse já se constitui em fato político para a debilitada e imobilista oposição, o fato é que o governador teve de submeter-se à realidade de uma decisão pessoal e intransferível. Nunca essa oposição, que nada pode, teve tanto material inflamável à sua disposição. Não bastasse o desgaste com as greves dos professores e dos agentes penitenciários, que operou como caldo de cultura para as rebeliões já registradas, há agora esse tormento para os aliados num momento crucial de início de campanha eleitoral.
A vice-governadora foi atingida pelos salpicos das apurações de Londrina e o fato de estar assumindo com o sigilo fiscal-bancário-telefônico quebrado é um dado original na história paranaense. Ora, esse restrição é incompatível com a natureza do cargo. Lembra a ‘‘capitis diminutio’’ dos romanos que significava restrições nos direitos de liberdade e cidadania. Lembro, quando estudei o assunto em 1950, meio século atrás, no primeiro ano da Faculdade de Direito, que havia gradações de ‘‘diminuição da capacidade’’: a média, a máxima e a mínima. Se o caso fosse submetido aos discípulos de Ulpiano, eles diriam que não é ‘‘máxima’’, mas também não é ‘‘mínima’’, a situação é ‘‘média’’ e só isso seria suficiente para que não assumisse não porque houvesse impedimento de ordem legal, mas por algo que extrapola igualmente a esfera da moral, já que de um governante se exige que esteja na posse integral dos seus direitos.
Trata-se, no entanto, de justiça poética: essas forças que cercam Lerner – aí entram empresários, grupos econômicos, partidos – não deram mostras de um mínimo de lealdade, quer para o caso de Belinati ou o de Rafael Greca, entregues às feras ritualisticamente, como se se tratasse de um ato higiênico, de pasteurização. Agem como se nada tivessem a ver com os eventos de Londrina, apesar das evidências de que foram em conjunto beneficiados pelos desvios, o que, se não está bem caracterizado, já se presume de vários depoimentos.
Professores dão o troco do benefício, concedido a Lerner na eleição de 94, contra Alvaro Dias. Emília, ainda que o faça sem desejá-lo, já que tem brio e deseja exercer suas prerrogativas, também o faz de forma indireta.

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