Um dos fatores de nosso atraso político está certamente num enfoque que coloca a questão social como fruto de fundamentos sentimentais, para não dizer piegas, e não de justiça. A própria visão de justiça é calcada na comiseração, piedade, e não em algo decorrente da evolução da sociedade e dos pactos que a informam. Um revolucionário não pode – a não ser que se trate de caricatura – esperar que o povo, de quem busca solidariedade, tenha pena dele. As greves que ocorrem, neste momento no Brasil, estão prenhes desses valores. Até mesmo a violentíssima rebelião na Penitenciária.
O coitadismo é um cacoete brasileiro. Isso tudo apesar daquela advertência de alguns filólogos que enxergam na palavra coitado o sentido daquele que sofreu o coito sem desejá-lo. Quer dizer: foi ‘‘traçado’’ contra a vontade.
Esse dado tem sido desastroso no universo das idéias políticas à direita e à esquerda e se transforma em nutriente da praga do populismo. O melodrama é o fundamento estético-moral desse preconceito erigido em sistema.
Num clima desses é que figuras como as de Getúlio Vargas e Jânio Quadros, ambas messiânicas, prosperam, tanto um quanto outro ‘‘patriarcais’’ como homens providenciais. Infelizmente há um pouco disso na figura de Lula, o que lhe dilui os sinais de modernidade. Tancredo Neves era cultor dessa linha e o vice, que assumiu, José Sarney, também. Nos delírios de Collor ele se dirigia aos ‘‘descamisados’’, plágio do peronismo e da pieguice de Eva Peron, canonizada pelas massas fanatizadas.
Essa linha de pieguice é apropriada a um povo alienado do seu sentimento mais forte de afirmação pessoal e dependente de tutores demagógicos. Despojado do sentido de auto-estima, tão pregado na visão do Estado-Albergue, o senso de distribuição de renda vertido na partilha de cestas básicas dos assentamentos de sem-terra ou nas filas dos que buscam cadeira de rodas, dentaduras, diante das garagens e escritórios de políticos primários. Mesmo a esquerda não se recusa a seguir esse caminho, o mais fácil, não o mais verdadeiro. Por isso merece as derrotas que acumula.
EPIGRAMA
Repita-se a propósito do melodrama e sua persistência no universo político brasileiro: povo que precisa de salvadores não merece ser salvo

BIZARRICE O governo vive a desmentir o IBGE, antes na questão industrial, que não é essa Brastemp que costuma sugerir na propaganda oficial, e agora no caso da mortalidade infantil. Em lugar de baixar a febre do paciente, Jaime Lerner convoca o Miguel Salomão e o Ipardes para quebrar o termômetro.
Dá a impressão que estamos no Gulag dos soviéticos. Se pudessem, mandariam para o hospital os que não acreditam na versão oficial.
AXIOMA Uma bobagem, como a daquele arquiteto ligado a Lerner que coloca em projetos internacionais de que Curitiba é a terceira cidade do mundo, é levada a sério. Já as pesquisas do IBGE são erradas como se as nossas, cuja fragilidade é manifesta, é que fossem as verdadeiras. Vai pra casa, Padilha!
GLOSA O cerco da casa de Lerner pelos professores é covardia e fascismo. Coisa de ‘‘gorila’’ dos tempos do regime militar quando éramos importunados dentro das nossas casas por uma mínima suspeita. O fato de usarem velas para dar sentido religioso à vigília, já que vinham de missa, não abranda nada. Na Inquisição também se torturava e matava os hereges e ímpios com o crucifixo à mão e, é claro, em nome de Deus. Os professores merecem reprovação. Não podem sequer ter direito à segunda época. A expiação da culpa é o caminho.
SPRAY Os ataques a Covas, em São Paulo, ditaram a queda da greve. Está se dando o mesmo por aqui: a prova de que houve perda do senso de cronograma está na precipitação da greve de fome, sempre medida radical e derradeira. - Já os pais, como se deu em Minas e São Paulo, buscam o Ministério Público e a Justiça para a retomada das aulas. - Não há condição, com um orçamento engessado, para atender à demanda de 41%, talvez nem dê 4,1%, pleiteada, o que não impede que haja avanços institucionais e em legislação orgânica, sem falar nas propostas já colocadas. - Se é verdade que o governo desagrada professores, quando cria organizações sociais autônomas como o ParanaEducação, deve-se levar em conta que Lerner tem evitado a solução cirúrgica das demissões. Covas despediu mais de 130 mil e nem assim equilibrou os gastos. Porém venceu a reeleição com todo esse ônus, ao qual Lerner poderia ter aderido sem riscos. - Secretaria de Segurança fez ontem como Colombo: botou um ovo em pé ao mostrar a obviedade de que os desmanches operam com carros roubados. - Espera-se agora a mobilização que nunca houve contra esse tipo de comércio, suspeito de servir de ‘‘caixa’’ de campanhas eleitorais. - Aliás é de espantar a cara de pau de Alvaro Dias falando, espantado, sobre o desmanche de carros como se em seu governo isso não existisse. Todos os empresários da área já operavam. O ‘‘Caboclinho’’ tem mais de trinta anos de batente, incluindo ações como cabo eleitoral. - Outra da Segurança: delegados de primeira classe, sem função, estão pensando em retroagir para a terceira, tentando emplacar delegacias importantes como as de Foz do Iguaçu, Cascavel, Maringá etc. - Eleição dia 14 para duas cadeiras na Academia Paranaense de Letras. - Escola de Polícia não tem condições de tempo e instrumentais para habilitar os 900 concursados (e a denúncia de irregularidade não foi apurada?). Em turmas diferenciadas só podem atender turmas de 180. Não há dinheiro como atender a todos e em tempo razoável. Não há professores de Psicologia, Física e Português.
FOLCLORE Quando falaram no restaurante elegante que um traficante de porte internacional iria depor na CPI Estadual os presentes começaram a se perguntar: ‘‘Você notou que Fulano não veio hoje? E Beltrano?’’. De repente de várias mesas se notava que havia gente sumida.
É a versão hodierna daquele pânico provocado em 64 em reunião esquerdista quando um vendedor passou anunciando: ‘‘Ói o drops!’’
CROMO Ângelo, meu neto mais novo, me conta que viu uma moça nua na rua. E clareia, rindo , que‘‘era um enfeite’’. Falava de uma escultura.
AFORÍSTICO Este mês é o da quadrilha-dança. As outras operam o ano inteiro.

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