Saíram ontem os editais de pré-qualificação para instituições que pretendam participar do processo de privatização do Banestado. O banco, nutrido com mais de R$ 4 bilhões em títulos, saiu do vermelho para o azul, conforme metáfora dos seus próprios dirigentes.
Nada impediu, no entanto, que a meio caminho do saneamento novas patologias fossem observadas como se viu no episódio, até agora protegido pelo sigilo, da lavanderia com as contas fantasmas numa agência de Londrina e que aparece no processo das mutretas decorrentes da venda de ações da Sercomtel para a Copel.
Os mais visíveis escândalos se deram no atual governo ou pelo menos no período correspondente ao mandato de Lerner. Na primeira etapa, as barbáries, hoje sob o foco do Ministério Público, da Leasing e da Corretora, aquela com sequência de fraudes e esta com a maroteira, feita com método, como dizia Hamlet sobre a sua própria loucura, dos títulos estaduais. Se só agora graves irregularidades do tempo de Alvaro Dias chegam à Justiça, dá para entender porque sempre se concedeu tolerância aos bancos estaduais, área de festim político, tal a demora nesses procedimentos. Imagine-se quando, ainda mais com a privatização do Banestado, se apurará algo do período de Lerner e antecessores, ocorrendo aí uma espécie de anistia não declarada.
Tal se deu, também, com o Badep, cuja liquidação extrajudicial açodada foi proposta por Alvaro Dias. O acumulado da poupança interna que sustentou um tipo de empresariado, que gravitava em torno do poder, foi gasto com a pulsão dos pródigos e isso pelo jeito nem historicamente ficará esclarecido. O povo foi esbulhado e não se apurará responsabilidade alguma, como se houvesse uma casta de corpo fechado, acima do bem e do mal, para a qual todos se obrigam a prestar vassalagem sem direito a qualquer indagação.
BIZARRICE
Alvaro Dias está aparecendo tanto na propaganda do PSDB e se repete até a imagem de quando era mais moço é porque não tem qualquer visão de futuro, já que mal se aceita como é ou como está
AXIOMA Está para ser deflagrada greve de funcionários estaduais. Por ela se verá a diferença de estilos: Requião a abafou dando três dias de suspensão aos grevistas, Alvaro Dias a dispersou com lacrimogênio e Jaime Lerner vai empurrá-la com a barriga.
GLOSA Falta de autocrítica do pessoal do PSDB é alarmante: seguram o horário da novela de máxima audiência, acreditando que o seu ator principal ganha fácil do Mateo da ‘‘Terra Nostra’’. São ‘‘cosas nostras’’, como dizia a música popular brasileira.
GRUNGE E o nosso deputado Tony Garcia com aquele ar de adolescente no ritmo de falar e de pensar propondo ao governador que dê salário mínimo de R$ 200? O descompromisso com a realidade é que leva o povo a rejeitar os políticos. O Tony, candidato, monitorado pelo Jamil Snege, a dinamitar pedreiras e a lutar box contra a adversidade era bem mais interessante. Tanto que não foi à lona.
CILADA Botando falação em temas nacionais com aquela desenvoltura dos que falam sem pensar, Lerner, em sua entrevista ao ‘‘Estadão’’, afirmou que com R$ 420 milhões por ano daria para retirar 1 milhão de crianças de rua. Queimou muito mais do que isso (R$ 500 milhões) em propaganda, dissipou centenas de milhões no Banestado, jogou pelo ralo R$ 80 milhões nos Jogos da Natureza que em nada contribuíram para melhorar a Costa Oeste e apronta uma reedição desse absurdo que favorece minorias, não ativa o turismo e nem gera uma cultura voltada para novas modalidades esportivas.
SPRAY Greve de barnabés estaduais nunca deu certo, mas alguns líderes acham que desta vez emplaca. - Querem se valer de uma articulação com o movimento dos professores da rede estadual e mais os do 3ºgrau. - Todos estão carecas de saber que não há grana, que as leis de Responsabilidade Fiscal e Camata bloqueiam o Executivo e estão mais do que conscientes de que o que pedem não se ajusta a qualquer realidade. - Sabem, igualmente, que o movimento está fadado por esses e outros motivos ao fracasso, como se dá também com o pessoal da UFPR, bastante dividido, como se viu na última assembléia. - Jamais Lerner terá a coragem e a franqueza exibidas por Covas em suas declarações ao pessoal em greve? - Se o governo descontar os dias parados, a greve arrefece; se punir o sindicato por invasões e outros abusos, quebra a entidade, o que quase aconteceu com os petroleiros no confronto com FHC; forçar a agressão policial, várias vezes encenadas ao longo das greves, pode não dar o resultado político esperado por causa do ano eleitoral. - Se o governo mentir nas propostas ou nos gastos com Educação, também não será novidade; da mesma forma se a APP forçar números de apoio à parede não surpreenderá. - O governo vai se referir à média salarial como sempre, para fugir a um confronto estatístico, e os professores vão exibir os números convenientes junto aos que ganham menos para sugerir que são referenciais paradigmáticos. - Quem assanhou os professores foi justamente o precipitado secretário Giovani Gionédis, da Fazenda, ao anunciar o improvável ajuste aos rigores da Lei Camata. Bem feito. Quem semeia euforia merece como sequela normal a prensa pedagógica. Dá-lhe, APP.
FOLCLORE Com a decisão de um jornal de Curitiba de não publicar anúncios de garotas de programa e de saunas deu para lembrar uma ocorrida, no mesmo jornal, ao tempo da direção do saudoso Mugiatti Sobrinho: botaram uma foto imensa de uma mulher pelada de calendário com uma legenda condenando aquele tipo de proselitismo ajustado às paredes de borracharias. Contradição em termos ou metalinguagem?
CROMO O que faz a truta arco-íris no Rio Cachoeira, vertente oceânica: que tipo de acidente a colocou ali perto de Antonina, originária que é do Canadá e dos Estados Unidos da América do Norte? Não há mistério, apenas espanto.
AFORÍSTICO Lerner disse ao ‘‘Estadão’’ que não somos commodities, somos gente. Mas deixamos de ser gente quando nos transformamos em grife. Aí, então, nos igualamos às commodities. O indivíduo refletido à mercadoria é uma constante reflexão de Marx, o alemão gênio, não o humorista bigodudo.

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